Mãe Terra

Catadores de recicláveis, contra higienização

19/06/2012 00:00

Najar Tubino

Rio de Janeiro - Na era da obsolescência programada, de 40 milhões de toneladas de lixo eletrônico acumulada no mundo, um exército de 15 milhões de catadores de materiais recicláveis luta contra multinacionais do lixo, empresas de energia e indústrias de incineradores. Nesta terça-feira, às 9 horas, uma marcha dos catadores brasileiros reunidos no Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, saiu do Sambódromo, na avenida Sapucaí, em direção à sede do Ministério Público Estadual e depois no Federal. Recentemente o Rio de Janeiro fechou o lixão de Gramacho, onde oficialmente trabalhavam 1.300 trabalhadores. Na conta do MNCMR eram cerca de três mil.

Eles têm uma estande grande dentro da Cúpula dos Povos, na frente da praia do Flamengo. È um dos grupos mais organizados no evento. Foram reconhecidos como profissionais pela legislação trabalhista em 2003, no Brasil, onde formam uma categoria com cerca um milhão de profissionais Além disso, foram a Rede Latino-americana de Catadores, que por sua vez é ligada a Aliança Global, uma rede mundial, com sede em vários países, como Índia, África do Sul, Filipinas e Estados Unidos um dos grupos mais organizados no evento. Foram reconhecidos como profissionais desde 2003, formam uma categoria que tem por volta de um milhão de trabalhadores no Brasil.

Estão na Rio+20 porque trabalham há décadas pela proteção do meio ambiente. Retiram plásticos, pet, que é uma tecnologia massificada pela indústria química, como derivado de petróleo, mas também, papel, papelão, das embalagens da era do consumo internético – é um dos setores que mais cresce, também produzido com celulose. Sem contar os eletrônicos, todos produzidos com ligas metálicas, que deixam como resíduo no ambiente metais pesados e cancerígenos, como cádmio, chumbo, mercúrio.

"- Catadores de materiais recicláveis são empreendedores invisíveis nas linhas de frente da luta contra mudança climática, ganhando seus meios de subsistência, através da recuperação e reciclagem, reduzindo a demanda por recursos naturais, e reduzindo emissões de gases de efeito estufa. Ainda que seu sucesso esteja senso enfraquecido pelas tecnologias de transformação de lixo em energia”.

Esse é um trecho de um informativo da Aliança Global. A política de reduzir os lixões, transformando em aterros controlados, que futuramente serão explorados por empresas de energia. Transformarão CH4(gás metano), em eletricidade.

- Nós não queremos é ficar sem matéria-prima para trabalhar. Se for todo o material para o aterro, ou para o incinerador, não teremos como reciclar”, explica Alex Cardoso, um dos coordenadores do movimento.

No Brasil, em agosto de 2010, foi aprovada a lei 11.445, que define a Política Nacional de Resíduos Sólidos. O prazo para adequação, que definiu o fim dos lixões e aterros sem controle, é 2014. Toda cidade com 30 mil habitante para cima tem que implantar a coleta seletiva. E dar espaço, através de contratos com as cooperativas de catadores, sem necessidade de licitação, para criar a estrutura necessária à reciclagem. Inclui, sede, equipamento e tecnologia.

Isso está na lei. No mês de agosto acaba o prazo para os municípios entregarem seus projetos de utilização e seleta coletiva do lixo. Segundo Alex Cardoso, até agora apenas 40 municípios dos mais de cinco mil cumpriram a etapa.

- Existe uma distância muito grande entre o que diz a lei, e o que está acontecendo na realidade. Várias capitais do país, como Porto Alegre, Brasília, Manaus, Recife e Belo Horizonte estão com projetos de incineradores na mesa dos prefeitos. A usina de incineração queira tudo, plástico, metal, precisa de material que sustente a combustão. Só tiram a parte orgânica. Sobram os gases e as cinzas.”

No Brasil não existem incineradores, a não ser um em teste na Ilha do Fundão, no Rio de Janeira. Na Europa foram implantados em alguns países, o mais moderno está na França, é a Usina de Incineração de Isseane, em Paris, queima lixo de um milhão de pessoas, apenas 15% é transformado em energia. Os Países Baixos proibiram a incineração, assim como as Filipinas.

A queima de metais, material plástico e outros resíduos produz gases não somente de efeito estufa, como o CO2, gás carbônico. Gases tóxicos, como sulfídrico, contém enxofre, óxidos de nitrogênio, e ácido fluorídrico, são expelidos. As organizações dos catadores sustentam que a emissão é 30% maior que uma termelétrica movida a carvão. Ainda piora com as cinzas formada por partículas minúsculas, contém metais pesados, que são comprovadamente cancerígenos.

- “Mesmo em países desenvolvidos, a reciclagem fornece 10 vezes mais trabalho por tonelada de resíduos do que os incineradores e aterros sanitários. A reciclagem ainda reduz 25 vezes mais as emissões do que a incineração. Os esforços dos catadores de materiais recicláveis para expandir e formalizar as operações deveriam ser apoiados”, registra o boletim da Aliança Global.

Alex Cardoso, que é gaúcho, mas trabalha na sede do movimento em São Paulo, dá o exemplo da coleta coletiva de Porto Alegre, onde a prefeitura gasta R$500 mil por mês, com um custo per capita de R$1.100, enquanto o salário dos catadores nas cooperativas é de R$600. O argumento dos catadores é que o trabalho deles gera mais emprego, ajuda no combate às emissões, reduz a agressão ao ambiente, porque recicla a matéria-prima e combate o desperdício.

Todos esses problemas também estão sendo discutidos por catadores de Nicarágua, Colômbia, Uruguai, República Dominicana e Pune, na Índia, presentes na Cúpula dos Povos. Silvio Ruiz é o representante da Colômbia e acrescentou mais um tema:

- “Em nosso país há um projeto de construir um grande incinerador em Sem Andres, que é uma reserva ecológica, para queimar o lixo da Nicarágua, Costa Rica e El Salvador. É um a parceria de empresas com os paramilitares. Os nossos problemas são os mesmos, de discriminação da sociedade e pela implementação de políticas públicas que garantam a reciclagem e o emprego dos catadores”.

Desde 1985 mantém cooperativas de catadores na Colômbia. No Uruguai, conta Eduardo Perez, se organizaram em um sindicato. Reciclam 30 toneladas de cada 600 recolhidas dos caminhões em Montevidéu, onde trabalham 150 catadores. Na Nicarágua são 10.500 catadores e a briga é a mesma.


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