Mãe Terra

Como o aquecimento dos oceanos está acelerando a crise climática

Os seres humanos conquistaram ao menos seis metros de aumento do nível do mar - ainda podemos consertar?

16/04/2021 12:49

De acordo com pesquisadores da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, a combinação da elevação das águas e do afundamento da Louisiana proporciona uma das maiores taxas de aumento relativo do nível do mar do planeta. (Drew Angerer / Getty Images)

Créditos da foto: De acordo com pesquisadores da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, a combinação da elevação das águas e do afundamento da Louisiana proporciona uma das maiores taxas de aumento relativo do nível do mar do planeta. (Drew Angerer / Getty Images)

 
A emergência climática é maior do que muitos experts, oficiais eleitos e ativistas pensam. As emissões dos gases de efeito estufa da humanidade superaqueceram a atmosfera da Terra, liberando ondas de calor punitivas, furacões, e outros eventos climáticos extremos – isso já é sabido. O problema maior é que a atmosfera superaquecida por sua vez superaqueceu os oceanos, assegurando uma quantidade catastrófica de aumento do nível do mar no futuro.

Ao passo que os oceanos aquecem, as águas sobem – em parte porque a água quente expande, mas também porque as águas mais quentes iniciaram um grande derretimento de camadas polares de gelo. Como resultado, níveis oceânicos médios ao redor do mundo certamente irão aumentar de seis a dez metros. Isso é suficiente para colocar grandes porções de cidades costeiras, casas de centenas de milhares de pessoas, debaixo d’água.

As perguntas chave são quão rápido esse aumento irá acontecer e se os humanos podem resfriar a atmosfera e os oceanos rapidamente para evitar parte dessa catástrofe.

Se os oceanos subirem seis metros nos próximos 2.000 anos, nossas crianças e descendentes podem achar modos de se adaptarem. Mas se os oceanos subirem seis metros ou mais nos próximos 100 ou 200 anos – que é a nossa trajetória atual – a perspectiva é sombria. Nesse cenário, pode ocorrer um aumento de 0,6 cm até 2040, 1 m até 2050, e muito mais a caminho.

Um aumento de um metro ou menos no nível do mar pode não parecer muito, mas transformará as sociedades humanas de todo o mundo. No sul da Flórida, onde eu moro, os moradores perderão acesso à água potável. As estações de tratamento de esgoto irão falhar. Muitas áreas sofrerão com enchentes persistentes, e Miami Beach e outras ilhas-barreira serão amplamente abandonadas. Na China, Índia, Egito e outros países com grandes rios deltas, um aumento de um metro ou menos provocará uma evacuação forçada de dezenas de milhões de pessoas e a perda de vastas terras de plantio.

Tentar limitar o aumento do nível do mar, portanto, deve se tornar uma prioridade urgente para todos os líderes mundiais que o presidente dos EUA Joe Biden está convidando para a conferência climática no Dia da Terra, em 22 de abril. Devemos reformular como a emergência climática é entendida e o que significa combatê-la. Certamente, é essencial alcançar o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura para 1.5 e 2 graus celsius – mas isso não será suficiente.

A solução para o aumento rápido do nível do mar é dupla: os seres humanos devem parar de injetar mais gases que retêm calor na atmosfera, e devemos extrair a maior parte do que já colocamos lá. Desde a Revolução Industrial 250 anos atrás, a quantidade de CO2 na atmosfera tem aumentado por causa das atividades humanas, principalmente por causa da queima de combustíveis fósseis provenientes do carvão. Para minimizar o futuro aumento do nível do mar, precisamos abaixar essa quantidade atual de 417 partes por milhão para os 280 ppm que prevaleciam antes da industrialização.

Interromper as emissões de gases do efeito estufa exige que rapidamente troquemos a economia baseada em combustíveis fósseis para uma economia de energia renovável bem como pôr fim ao desmatamento, mudando para uma agricultura que seja positiva para o clima, plantando florestas e muito mais. Mas mesmo se tivermos êxito nessa frente – e até agora, estamos falhando miseravelmente – somente a atmosfera iria parar de aquecer.

Resfriar os oceanos será mais difícil. Isso exige tirar grandes quantidades de CO2 de ambos a atmosfera e os oceanos e armazená-las onde não possam vazar.

Existem protótipos dessas tais tecnologias de “carbono negativo”. Métodos como a incorporação de lava basáltica pulverizadas em fertilizantes podem levar à remoção de CO2; outras abordagens devem ser desenvolvidas agressivamente. É crucial que ambas as estratégias – interromper as emissões de CO2 futuras e extrair o CO2 que já foi lançado – sejam perseguidas. Fazer uma não pode servir de desculpa para não fazer a outra, caso contrário, iremos fracassar.

Nosso dilema tem raízes na física básica. Uma vez que o CO2 é emitido, ele permanece na atmosfera por milênios, retendo calor e aquecendo o planeta como cobertores aquecem o corpo humano. O que é insuficientemente analisada é que a maior parte desse aquecimento – mais de 93% - foi transferia para os oceanos e os aqueceu significativamente. Isso está acelerando o degelo polar e o aumento do nível do mar e continuará nesse caminho por séculos.

E o aumento do nível do mar está acelerando em um ritmo perigoso. Em 1900, os níveis oceânicos globais estavam aumentando 0.6 mm por ano. Depois de 1930, ao passo que a expansão das águas e o aquecimento dos oceanos ficaram mais fortes, a taxa de aumento do nível do mar dobrou e dobrou de novo, chegando a 3.1 mm por ano em 1990. Desde então, oceanos cada vez mais aquecidos levaram a crescentes degelos polares e a taxa aumentou. Hoje, os oceanos estão aumentando 6 mm por ano e esse ritmo continuará acelerando dramaticamente.

Um crescimento de cinco centímetros por década pode parecer pouco, mas lembre-se: só estamos no início dessa aceleração. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA projetou em 2017 que o nível global médio de aumento poderia aumentar para 2.7 metros até 2100. Quatro anos depois, é claro que 2.5 metros é, na realidade, uma projeção moderada. E influências regionais – mudança das correntes marítimas, redistribuição da massa da Terra devido ao degelo e a subsidência – causarão alguns aumentos locais do nível do mar por volta de 20 a 70% maiores do que a média global.

Um aumento de 2.5 metros no nível do mar seria catastrófico. Sem medidas de adaptação extensivas e caríssimas, colocaria boa parte de Nova Iorque e Washington, capital, Xangai e Bangkok, Lagos, Alexandria e inúmeras outras cidades costeiras debaixo d’água. Iria submergir o sul da Flórida. E construir muros nas costas não ajudaria o sul da Flórida: a terra está em cima de calcário poroso, portanto os oceanos irão simplesmente se infiltrar por baixo. Mesmo a Holanda protegida por diques de contenção e Nova Orleans estarão em apuros.

Ou pior, nas tendencias atuais, teremos sorte se os oceanos subirem “somente” 2.5 metros até 2100. O motivo é que os modelos computacionais usados pelo NOAA e outros não refletem o que sabemos sobre como os níveis do mar subiram no passado. Esses modelos presumem que o aumento do nível do mar se desdobra gradualmente, mas o histórico geológico mostra que, na realidade, pode ocorrer em ondas rápidas. Temperaturas mais quentes depois da última era glacial causaram a desintegração de um setor de gelo polar após o outro, causando o aumento do nível do mar em ondas de um a dez metros por século. Hoje, a aceleração de degelos na Groelândia e na Antártida são quase certamente o início de uma nova onda de aumento rápido do nível do mar.

É urgente que a humanidade transicione para a energia renovável, pare com a queima de combustíveis fósseis e desenvolva e empregue tecnologias de extração de CO2 dos céus e mares. Devemos também ser realistas sobre uma adaptação ao aumento do nível do mar que não pode mais ser evitado. Ao invés de construir mais em regiões de baixa altitude e gastar dinheiro público em defesas costeiras que são propensas a fracassar, devemos nos preparar para atender à eventual realocação de pessoas e infraestrutura das áreas mais ameaçadas (e limpar a terra antes da inundação).

Sem essas medidas, chegaremos em um ponto, mais cedo do que as pessoas imaginam, no qual a civilização como a conhecemos será enormemente enfraquecida ou entrará em colapso. Somente podemos evitar tal cenário com um planejamento sério, financiamento e esforços. Nossos filhos e os filhos deles merecem uma vida melhor do que a que temos hoje.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado