Mãe Terra

Conferência discute papel da Amazônia na mudança do clima

20/07/2004 00:00

Rio de Janeiro – A influência exercida pelo desmatamento da Amazônia no processo de mudanças climáticas e sua conseqüência para a perda de biodiversidade e o aumento do aquecimento global, dentro e fora da maior floresta do mundo, serão discutidos durante uma conferência internacional que deve reunir em Brasília cerca de mil e quinhentos participantes entre os dias 27 e 29 de julho. Trata-se da terceira conferência de climatologia do Projeto Experimento de Grande Escala para a Salvação da Biosfera/Atmosfera da Amazônia (LBA, na sigla em inglês), evento que, nos últimos anos, tornou-se uma referência na troca de informações científicas sobre a floresta e suas peculiaridades climáticas.

Coordenada pela Universidade de São Paulo (USP), a 3ª conferência do LBA vai reunir cerca de 800 cientistas brasileiros e estrangeiros. A estimativa da organização é de que os resultados de pelo menos 500 trabalhos ou pesquisas sejam divulgados durante os três dias do evento. Instituições brasileiras como a Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), entre outras, tomarão parte ativa nas mesas de discussão. Além da USP, o universo acadêmico brasileiro estará representado no LBA pelas universidades federais do Pará, do Amazonas e do Rio de Janeiro, entre outras. Algumas universidades estrangeiras de peso, como Harvard, Washington e Oxford, também confirmaram presença. 

As discussões na Academia de Tênis de Brasília, onde acontecerá a conferência, serão focadas nos efeitos perversos ao clima provocados pelo desmatamento, sobretudo aquele causado por queimadas. Os organizadores esperam que a troca de informações seja intensa, pois o verdadeiro papel da Amazônia nas mudanças climáticas globais jamais foi definido com precisão pelos cientistas. “Esperamos que novas informações possam contribuir para o desenvolvimento sustentável da Amazônia”, afirma o professor Paulo Artaxo, da USP e também da coordenação da conferência. 

Membro da direção do Greenpeace no Brasil e autor de uma tese de doutorado sobre o projeto LBA, Carlos Rittl afirma que a prioridade de sua organização durante a conferência será fortalecer a campanha pela preservação da Amazônia através do intercâmbio com outros atores. “Nossa intenção é trazer ao conhecimento público o máximo de informações científicas”, explica. O Greenpeace também aproveitará os três dias de evento para denunciar as queimadas. “As queimadas na Amazônia representam uma alteração climática que não se reflete somente na região, mas também em lugares distantes. É o que está acontecendo atualmente com a mudança no regime de chuvas nas regiões Sul e Sudeste”. 

Regiões Sul e Sudeste afetadas
Rittl faz referência a pesquisas que demonstram que a grande quantidade de gás carbônico lançado na atmosfera pelas queimadas amazônicas provoca em médio prazo a redução da incidência de chuvas no sul do país. Um desses estudos, realizado pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inpe, em parceria com a USP, mostra que o regime de chuvas nas regiões Sul e Sudeste depende muito da umidade que é trazida da Amazônia pelos ventos. Com a redução dessa umidade pelas constantes queimadas, a tendência é que o volume de chuva nessas regiões caia ainda mais nos próximos anos, o que aumentaria consideravelmente a poluição atmosférica nos grandes centros urbanos. 

Outra área que deve ser objeto de estudos durante o LBA é o chamado arco do desmatamento da Amazônia, que se estende da fronteira do Brasil com o Peru até o Maranhão, passando pelos Estados do Acre, Amazonas, Rondônia, Pará, Tocantins e Mato Grosso. As queimadas dentro do arco, que vem se intensificando nos últimos anos sem sofrer quase nenhuma repressão dos órgãos de fiscalização governamentais, tornam a estação seca cada vez mais severa na região. “No sul, sudeste e leste da Amazônia, o clima já se parece com o do Cerrado”, afirma Maria Assunção Dias, coordenadora-geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inpe. 

Governo marcha a passos lentos
Estudos internacionais recentes afirmam que as queimadas provocadas pela mão do homem na Amazônia lançam anualmente na atmosfera cerca de 200 milhões de toneladas de carbono, o que coloca o Brasil entre os dez maiores emissores de CO² do planeta. Apesar disso, o governo brasileiro retarda a divulgação do Inventário Brasileiro de Emissões de Gases do Efeito Estufa, que vem sendo elaborado desde a administração passada e pretende trazer um diagnóstico definitivo sobre esse tema no Brasil. Ambientalistas afirmam que o inventário já está pronto desde 2002 e vem sendo atualizado a cada ano. O problema é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assim como fez o seu antecessor Fernando Henrique Cardoso, estaria protelando a divulgação do documento por considerar que ele traz dados danosos à imagem do país no exterior. 

A lentidão do governo não pára por aí. Carlos Rittl lamenta “que muito pouco tenha saído do papel” no programa de combate ao desmatamento da Amazônia lançado pelo Ministério do Meio Ambiente. “O programa contra o desmatamento tinha dotação orçamentária de R$ 380 milhões, mas o governo só liberou verba para o que já estava acertado em projetos anteriores que foram incorporados ao programa”, disse. Segundo informações obtidas pelo Greenpeace, somente este mês começou a chegar ao Ibama a verba destinada ao monitoramento e fiscalização do desmatamento na Amazônia. “Acho que a medição do desmatamento entre agosto de 2003 e agosto de 2004, que será feita em breve, mostrará que tivemos um ano ainda pior que o anterior”, constata Rittl.



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