Mãe Terra

Consumo mundial de matéria-prima bate recorde de 100 bilhões de toneladas por ano

O uso insustentável de recursos está destruindo o planeta, enquanto a reciclagem vem caindo, aponta relatório

22/01/2020 11:16

 Metade das 100,6 bilhões de toneladas de materiais eram areia, argila, cascalho e cimento para construção, além de minerais extraídos para fertilizantes. (Zoonar GmbH/Alamy)

Créditos da foto: Metade das 100,6 bilhões de toneladas de materiais eram areia, argila, cascalho e cimento para construção, além de minerais extraídos para fertilizantes. (Zoonar GmbH/Alamy)

 
A quantidade de matéria-prima consumida pela humanidade já ultrapassa 100 bilhões de toneladas por ano, enquanto a proporção sendo reciclada está caindo, como revela relatório lançado no Fórum Econômico Mundial em Davos.

A emergência climática e o colapso da biodiversidade decorrem da extração insustentável de combustíveis fósseis, metais, materiais de construção e árvores. Segundo os autores do relatório, o uso dos recursos mundiais como se estes fossem ilimitados está levando o planeta a um desastre global.

A quantidade de matéria-prima utilizada pela economia global quadruplicou desde 1970, um crescimento muito mais rápido que o da população mundial, que dobrou. Nos últimos dois anos apenas, o consumo de recursos aumentou mais de 8%, mas sua reutilização caiu de 9,1% para 8,6%.

O relatório, do think tank Circle Economy, foi lançado no Fórum Econômico Mundial em Davos. O estudo mostra que, em média, cada pessoa na Terra usa mais de 13 toneladas de matéria-prima por ano. O relatório também revela que algumas nações estão dando passos importantes em direção a economias circulares, em que a energia renovável está na base de sistemas onde o lixo e a poluição são reduzidos a zero.

"Se continuarmos a tratar os recursos do mundo como se fossem ilimitados, corremos o risco de ver um desastre global", disse Harald Friedl, diretor da Circle Economy. "Os governos precisam adotar urgentemente soluções de economia circular de modo a garantir qualidade de vida para as cerca de 10 bilhões de pessoas que haverá no mundo até meados do século sem que os processos planetários críticos sejam desestabilizados".

Marc de Wit, principal autor do relatório, afirmou: “Ainda alimentamos nosso crescimento populacional e econômico através da extração de recursos virgens. Mas isso não pode ser feito indefinidamente – nossa fome de matéria virgem precisa ser contida”.

O relatório constatou que 100,6 bilhões de toneladas de matéria-prima foram consumidas em 2017, último ano em que há dados disponíveis. Metade deste total é composta por areia, argila, cascalho e cimento usados %u20B%u20Bna construção civil, juntamente com outros minerais extraídos para a produção de fertilizantes. Carvão, petróleo e gás somam 15% e os minérios são 10%. E um quarto são plantas e árvores usadas para alimentação e como combustível.

A maior parte da matéria-prima – 40% – é utilizada para a habitação. Outros setores de grande consumo de recursos naturais são as indústrias de alimentos, transporte, saúde, comunicações e bens de consumo, como roupas e móveis.

Quase um terço dos materiais utilizados a cada ano permanece em uso após um ano, como no caso de edifícios e veículos. Mas 15% são jogados na atmosfera, como gases que causam o aquecimento climático, e quase um quarto é descartado no meio ambiente, como os plásticos que se acumulam em rios e oceanos. Um terço das matérias-primas é tratado como lixo, a maioria indo para aterros sanitários e montanhas de rejeitos da mineração. Apenas 8,6% são reciclados.

"Este relatório dispara um alarme para todos os governos", diz Carolina Schmidt, ministra do Meio Ambiente do Chile. "É preciso implantar todas as políticas para realmente catalisar essa transformação [para uma economia circular]."

Cristianne Close, do grupo de conservação WWF, disse: "A economia circular oferece uma estratégia para que possamos reduzir nossos impactos, proteger ecossistemas e viver dentro das possibilidades de um planeta".

O relatório afirma que o crescimento da reciclagem pode tornar as economias mais competitivas, melhorar as condições de vida, colaborar para o cumprimento das metas de emissões e evitar desmatamento. O estudo aponta que 13 países europeus adotaram planos de ação para uma economia circular, entre eles França, Alemanha e Espanha, e que a Colômbia se tornou o primeiro país da América Latina a lançar uma política semelhante em 2019.

A proibição da China à importação de resíduos visa incentivar a reciclagem doméstica, afirma o relatório, mas também serviu para estimular o desenvolvimento de estratégias de economia circular na Austrália e em outros países que antes exportavam seus resíduos para a China.

Janez Poto%u00Dnik, ex-comissário europeu do meio ambiente e copresidente do painel internacional de recursos naturais do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, afirmou que o mundo precisa aprender a fazer mais com menos e substituir a propriedade pelo compartilhamento, como é cada vez mais comum com os carros, por exemplo.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles



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