Mãe Terra

Covid-19 é o chamado da natureza para uma civilização complacente

Uma bolha finalmente estourou - mas agora vamos nos atentar para as outras ameaças que a humanidade enfrenta?

26/03/2020 14:57

 Catedral de São Paulo, em Londres. (Vianney Le Caer/REX/Shutterstock)

Créditos da foto: Catedral de São Paulo, em Londres. (Vianney Le Caer/REX/Shutterstock)

 
Vivemos em uma bolha, uma bolha de falso conforto e negação. Nas nações ricas, começamos a acreditar que transcendemos o mundo material. A riqueza que acumulamos - geralmente às custas de outros - nos protegeu da realidade. Ao viver atrás das telas, passando entre cápsulas - nossas casas, carros, escritórios e shopping centers - nos convencemos de que o imprevisível havia recuado, de que havíamos chegado ao ponto que todas as civilizações buscam: o insulamento dos perigos naturais.

Agora a membrana se rompeu e nos encontramos nus e indignados, pois a biologia, que parecíamos ter banido, retorna como tempestade através das nossas vidas. A tentação, quando essa pandemia tiver passado, será encontrar outra bolha. Não podemos nos dar ao luxo de sucumbir a isso. A partir de agora, devemos expor nossas mentes às dolorosas realidades que negamos por tempo demasiado longo.

O planeta tem múltiplas morbidades, algumas das quais farão com que este coronavírus pareça fácil de ser tratado. Um, acima de todos os outros, me obcecou nos últimos anos: como nos alimentaremos? Brigas por papel higiênico são desagradáveis o suficiente: espero que nunca tenhamos que testemunhar brigas por comida. Mas está ficando difícil ver como as evitaremos.

Um grande conjunto de evidências está começando a se acumular, mostrando como o desarranjo do clima provavelmente afetará nosso suprimento de alimentos. A agricultura em algumas partes do mundo já está sendo castigada por secas, inundações, incêndios e gafanhotos (cujo ressurgimento nas últimas semanas parece ser o resultado de ciclones tropicais anômalos). Quando chamamos esses riscos de "bíblicos", queremos dizer que são o tipo de coisa que aconteceu há muito tempo, para pessoas cujas vidas mal podemos imaginar. Agora, com frequência crescente, eles estão acontecendo conosco.

Em seu próximo livro, Nosso Aviso Final, Mark Lynas explica o que é provável que aconteça ao nosso suprimento de alimentos a cada grau extra de aquecimento global. Ele acha que o perigo extremo entra em cena em algum lugar entre 3C e 4C acima dos níveis pré-industriais. Nesse ponto, uma série de impactos interligados ameaçam colocar a produção de alimentos em uma espiral da morte. As temperaturas externas se tornam muito altas para os humanos tolerarem, impossibilitando a agricultura de subsistência através do território africano e no sul da Ásia. Os animais criados nas fazendas morrem devido ao estresse térmico. As temperaturas começam a exceder os limiares letais para plantas cultivadas em grande parte do mundo, e as principais regiões produtoras de alimentos se transformam em bacias de poeira. A perda global simultânea das colheitas - algo que nunca aconteceu no mundo moderno - se torna altamente provável.

Em combinação com o aumento da população humana e a perda de água para irrigação, solo e polinizadores, isso poderia levar o mundo à fome estrutural. Ainda hoje, quando o mundo tem um excedente total de alimentos, centenas de milhões são desnutridos como resultado da distribuição desigual de riqueza e poder. Um déficit alimentar pode resultar em bilhões de pessoas morrendo de fome. A retenção e acumulação de alimentos acontecerá, como sempre aconteceu, em nível global, quando pessoas poderosas arrancam comida da boca dos pobres. No entanto, mesmo que todas as nações cumpram suas promessas sob o acordo de Paris, que atualmente parece improvável, o aquecimento global será de 3C a 4C.

Graças à nossa ilusão de segurança, não estamos fazendo quase nada para nos adiantarmos a essa catástrofe e muito menos evitá-la. Essa questão existencial quase não afeta nossa consciência. Todo setor produtor de alimentos afirma que suas práticas atuais são sustentáveis e não precisam mudar. Quando os desafio, me deparo com uma enxurrada de raiva e abuso, além de ameaças de um tipo que não sinto desde quando me opus à guerra do Iraque. Vacas sagradas e cordeiros sagrados estão por toda parte, e o pensamento necessário para desenvolver os novos sistemas alimentares de que precisamos, como alimentos cultivados em laboratório, mal existe.

Mas esta é apenas uma de nossas crises iminentes. A resistência aos antibióticos é potencialmente tão mortal quanto qualquer nova doença. Uma das causas é a maneira espantosamente irrestrita que esses preciosos medicamentos são usados em muitas fazendas de gado. Em locais onde um grande número de animais de fazenda é compactado, antibióticos são utilizados profilaticamente para prevenir surtos inevitáveis de doenças. Em algumas partes do mundo, eles são usados não apenas para prevenir doenças, mas também para acelerar o crescimento. Baixas doses são, rotineiramente, adicionadas à ração: uma estratégia que dificilmente poderia ser melhor projetada para desenvolver resistência bacteriana.

Nos EUA, onde 27 milhões de pessoas não têm cobertura médica, algumas pessoas agora estão se tratando com antibióticos veterinários, incluindo aqueles que são vendidos, sem receita médica, para medicar peixes de estimação. As empresas farmacêuticas não estão investindo o suficiente na busca de novos medicamentos. Se os antibióticos deixarem de ser eficazes, a cirurgia se torna quase impossível. O parto se torna, mais uma vez, um risco mortal. A quimioterapia não pode mais ser praticada com segurança. As doenças infecciosas de que, confortavelmente, nos esquecemos se tornam ameaças mortais. Deveríamos discutir esse assunto com a mesma assiduidade que falamos de futebol. Mas, novamente, isso quase não é percebido.

Nossas múltiplas crises, das quais essas são apenas duas, têm uma raiz comum. O problema é exemplificado pela resposta dos organizadores da Meia Maratona de Bath, um grande evento que ocorreu no dia 15 de março, e que muitas pessoas que imploraram para ser cancelado. “Agora é tarde demais para cancelar ou adiar o evento. O local do evento está construído, a infraestrutura está instalada, o espaço e nossos contratados estão prontos.” Em outras palavras, julgaram que os custos anteriormente realizados do evento pesavam mais do que quaisquer impactos futuros - a possível transmissão de doenças e possíveis mortes - que sua realização poderia causar.

A quantidade de tempo que o Comitê Olímpico Internacional levou para adiar os Jogos pode refletir julgamentos semelhantes - mas pelo menos eles chegaram lá no final. Os custos realizados no passado na indústria de combustíveis fósseis, agricultura, bancos, serviços de saúde privados e outros setores impedem as rápidas transformações de que precisamos. O dinheiro se torna mais importante que a vida.

Existem duas maneiras de isso acontecer. Poderíamos, como algumas pessoas fizeram, dobrar a aposta na negação. Alguns dos que rejeitaram outras ameaças, como a crise do clima, também tentam minimizar a ameaça do Covid-19. Vejam por si mesmos o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que afirma que o coronavírus nada mais é do que "uma pequena gripe". Os meios de comunicação e os políticos da oposição que pediram o confinamento são, aparentemente, parte de uma conspiração contra ele.

Ou pode ser o momento em que começamos a nos ver, mais uma vez, como governados pela biologia e pela física e dependentes de um planeta habitável. Nunca mais devemos ouvir os mentirosos e os negadores. Nunca mais devemos permitir que uma falsidade reconfortante derrote uma verdade dolorosa. Não podemos mais ser dominados por quem coloca dinheiro à frente da vida. Esse coronavírus nos lembra que pertencemos ao mundo material.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli



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