Mãe Terra

Denuncia urgente sobre a depredação da Amazônia

Davi Kopenawa, líder da etnia ianomâmi, acusou o Brasil na ONU, durante viagem na Suíça, na qual declarou Comissão de Direitos Humanos, presidida por Michelle Bachelet, e contou que os povos originários correm risco de genocídio pelas políticas de Jair Bolsonaro

05/03/2020 13:23

 

 
Os povos indígenas da Amazônia enfrentam o risco do genocídio. Uma delegação composta pelo líder do grupo étnico Ianomâni, Davi Kopenawa, e um grupo de ONGs brasileiras viajaram a Genebra, na Suíça, para alertar sobre a dramática situação na maior floresta tropical do mundo, devido à invasão de reservas, queimadas e assassinatos.

“Os homens brancos (…) se contentam em atacar nossa floresta, que não é a terra deles, mas declaram que pertence a eles, pensam: 'vamos arrancar o ouro deles e cortar suas árvores'”, disse Kopenawa ao plenário da 43ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos, na qual deplorou o a política indígena do presidente Jair Bolsonaro.

A agência, liderada pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet, já recebeu inúmeras denúncias das comunidades amazônicas sobre a política de terra arrasada e o risco de genocídio e etnocídio. Davi Kopenawa disse que, “o novo presidente do Brasil, prefiro não mencionar seu nome, mas desde que ele chegou ao Palácio do Planalto, se dedica a dizer que venha homens brancos que querem dinheiro para se enriquecer com a poluição de nossos rios e a queima das árvores”.

“O governo do ex-capitão do exército é o primeiro, desde o final da ditadura militar (em 1985), que realiza uma política abertamente hostil com relação às comunidades indígenas da Amazônia”, disse a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, que acompanha a delegação brasileira.

“O Poder Executivo realiza uma campanha ostensiva, incentivando ocupantes ilegais de terras, madeireiros e exploradores de recursos minerais, que ameaçam com promover o genocídio dos povos indígenas”, disse Carneiro da Cunha, e logo completou: “usamos a palavra genocídio porque é a palavra que define melhor a atual situação”.

As ONGs da Comissão Paulo Evaristo Arns e o Instituto Socioambiental acompanharam o cacique Kopenawa em sua visita a Genebra, e participaram nesta terça-feira (5) de uma reunião com outras entidades da sociedade civil internacional, onde a realidade dos povos originais foi tratada novamente. A situação mais séria é a enfrentada por “120 povos indígenas isolados, muito vulneráveis %u20B%u20Bao primeiro contato” com pessoas de fora de seus territórios, uma vez que podem transmitir doenças para as quais essas pessoas não têm defesas, segundo explica a pesquisadora Carneiro de Cunha.

Em novembro de 2019, a Comissão Arns solicitou ao TPI (Tribunal Penal Internacional), em Haia, a abertura de uma “investigação preliminar” sobre as medidas do governo brasileiro que ameaçam a sobrevivência dos povos indígenas.

Essa iniciativa teve o apoio do Coletivo de Advocacia e Direitos Humanos e pode levar a um processo que continuaria de pé “mesmo depois que Bolsonaro deixar a presidência”, diz a antropóloga. Devido a suas posições de extrema direita, insultos aos líderes indígenas e à devastação da Amazônia, Bolsonaro se tornou um dos líderes mais repudiados no mundo.

O que pode ser comprovado revisando sua agenda internacional. Ou sua não-agenda internacional. No ano passado, ele foi forçado a suspender uma viagem anunciada a Nova York para evitar lidar com protestos de ambientalistas e ativistas do movimento LGBT. Mais tarde ele prometeu uma viagem à Itália, a qual acabou adiando, devido à queda do seu amigo, o ex-ministro do Interior, Matteo Salvini, também de extrema-direita.

Em janeiro, ele cancelou sua participação no Fórum Econômico de Davos em cima da hora, possivelmente alertado de que a imprensa perguntaria sobre temas incômodos, como a destruição da Amazônia. O descrédito do presidente prejudica a sua credibilidade e a opinião pública do mundo sobre o Brasil, o que, certamente, o que também repercute em instâncias como o TPI e o Conselho de Direitos Humanos da ONU, “que ainda mantém sua força moral”, afirmou a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha.

A esse respeito, o pesquisador lembrou a controvérsia entre o mandatário brasileiro e o ator Leonardo DiCaprio, sobre as queimadas na Amazônia em 2019, que levaram a uma superfície afetada de 90%, bastante mais extensas do que as queimadas em 2018.

“Bolsonaro chegou a acusar DiCaprio de incentivar incêndios, algo que causou risos, e no mundo inteiro ninguém acreditou. Foi um comentário grosseiro, e cínico, até porque se sabe que Bolsonaro tem uma grande afinidade com os grupos que desmatam e queimam”, comenta a antropóloga brasileira.

*Publicado originalmente em 'Other News' | Tradução de Victor Farinelli



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