Mãe Terra

Empresas criticam o relatório da Defensoria da Água

23/09/2004 00:00

Rio de Janeiro - Líder no ranking das empresas que mais poluem as águas do país, a Petrobrás atraiu mais uma vez os holofotes por conta de sua participação no inacreditável Aterro Mantonvani, localizado na Região Metropolitana de Campinas (SP), onde 500 mil toneladas de dejetos químicos vem sendo depositadas desde 1974 por cerca de 30 empresas. Mesmo reconhecendo que “o que mais incomoda no relatório da Defensoria das Águas é o Mantovani”, o chefe do setor de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Petrobrás, Luiz Roberto Clauset, afirma que a empresa “não se considera co-responsável” pelos problemas ocorridos no aterro: “Nosso departamento jurídico estudou o caso e constatou que a co-responsabilidade recai sobre uma outra empresa, que a Petrobrás contratava para alguns serviços”, garante.

 

A empresa prestadora de serviços em questão se chama Lubrinasa, e seu trabalho consistia em processar algumas matérias-primas e revender para outras empresas, entre elas a Petrobrás: “Em alguns casos de terceirização, a Petrobrás fica responsável pelo armazenamento e tratamento de resíduos. Mas não era esse o caso do contrato com a Lubrinasa, que era responsável pelos resíduos de seus processamentos, que eram depositados no Aterro Mantovani”, afirma Clauset.

 

A direção da Petrobrás ressalta que a implementação do Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional (Pegaso) da empresa recebeu em quatro anos investimentos de R$ 6,2 bilhões e que em 2003 a empresa registrou um volume de óleo vazado de apenas 276 metros cúbicos: “A média anual de uma indústria de petróleo do nosso porte é de pelo menos mil metros cúbicos”, diz a nota da empresa. Esse número, segundo os dados do setor de Segurança, Meio Ambiente e Saúde, representa “uma redução de mais de 90% em relação aos volumes de vazamento verificados em 2000 (5.983 m3) e 2001 (2.619m3)”.

 

A direção da empresa respondeu a todos os pontos do relatório da Defensoria das Águas. Em relação aos citados vazamentos nos tanques da Refinaria de Paulínia (SP) e de eventuais problemas na construção do gasoduto que vai ligar essa refinaria ao Rio de Janeiro, a Petrobrás respondeu que essa refinaria “é a mais auditada, mais exigida e mais controlada” pelos órgãos de fiscalização ambiental: “A Refinaria de Paulínia é uma das mais bem gerenciadas do ponto de vista ambiental. Nos últimos dois anos, nela foram realizados investimentos de mais de R$ 35 milhões em tratamento de resíduos”, afirma a nota da empresa.

 

CSN Contesta Volta Grande


 

Outro passivo ambiental da moda é o de Volta Grande, na cidade de Volta Redonda (RJ), onde um condomínio de casas populares foi construído bem ao lado de um aterro onde a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) despeja seus resíduos industriais. A empresa ocupa o terceiro lugar no ranking das mais poluidoras. Considerado exemplo de morosidade da Justiça Ambiental pelo secretário-geral da Defensoria das Águas, Leonardo Morelli, o caso é visto com outros olhos pelo gerente-geral de Meio Ambiente da CSN, Luis Cláudio Ferreira Castro: “Lá não existe nada de irregular. É um passivo que recebemos, mas com o qual estamos lidando, inclusive com monitoramento do governo estadual e da Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente) desde 1999”, afirma.

 

Castro conta que, em 2000, a CSN detectou um “pequeno vazamento” do produto naftaleno nas proximidades do conjunto habitacional, mas que, desde então, a empresa acompanha o caso com cuidado: “Estamos atuando na remediação desse passivo ambiental e na recuperação da área. Estamos realizando análises de risco periódicas e sofremos recentemente a auditoria de uma empresa independente, do Canadá, que não constatou qualquer irregularidade”, disse. O gerente-geral, no entanto, reconhece que o processo é lento: “Recuperação de solo é um processo demorado, lento. Nossa expectativa é que o trabalho esteja concluído em sete anos”, avalia.

 

“Informações não Verdadeiras”


 

Quarto colocado no ranking de poluidores das águas, o Grupo Gerdau é apontado no relatório como responsável por depósitos irregulares de resíduos industriais nas cidades de São José dos Campos (SP), Cotia (SP), Santa Cruz (RJ), Araucária (PR) e Sapucaia do Sul (RS). Outra irregularidade cometida pela empresa, segundo o relatório, seria a “privatização das praias no sul do estado de Santa Catarina”, prejudicando comunidades tradicionais de pescadores e caiçaras.

 

O Grupo Gerdau diz que as informações do relatório “não são verdadeiras” e que o nível de recirculação das águas utilizadas pela empresa está entre os melhores do mundo no setor siderúrgico: “Nossas unidades desenvolvem alternativas para reduzir o consumo de água e a geração de efluentes. Como resultado, possuem sistemas que tratam e recirculam 95,3% do total de água necessária. Dos 4,7% restantes, uma pequeníssima parcela, depois de ser totalmente tratada, volta aos rios, enquanto outra parte evapora durante a produção siderúrgica”, afirma a nota do grupo industrial.

 

Resposta na Justiça


 

Segunda colocada no ranking das empresas mais poluidoras das águas, a Shell do Brasil também foi procurada pela Agência Carta Maior, mas até o momento da edição dessa reportagem não havia manifestado qualquer reação ao relatório. Uma pessoa próxima à direção da empresa informou, no entanto, que a Shell está estudando a melhor forma de contestar o relatório da Defensoria das Águas na Justiça.

 

O mesmo caminho pode ser seguido pela CSN, segundo Luis Cláudio Ferreira Castro, que afirma que a empresa não descarta uma possível ação judicial: “Estamos estudando isso”, afirma. Garantindo que já investiu R$ 252 milhões em ações ambientais, a siderúrgica se considera “injustiçada” e teve a reação mais veemente entre as empresas citadas pela Defensoria das Águas: “Estamos indignados. Este relatório foi uma surpresa danada, porque ele é incorreto e anacrônico. Ataca a CSN de forma leviana e não tem base em dados, em fatos, em coisa alguma”, afirma Castro.

 

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