Mãe Terra

Estudo revolucionário descobre 13.3 quadrilhões de fibras plásticas no meio ambiente da Califórnia

Exclusivo: relatório revela que existem tantas microfibras quanto existem estrelas na Via Láctea - e que elas podem facilmente entrar nos oceanos e vias hídricas

22/10/2020 11:59

As microfibras de plástico são uma das formas mais difundidas, embora amplamente invisíveis, de lixo plástico (Rachel Ricotta/AP)

Créditos da foto: As microfibras de plástico são uma das formas mais difundidas, embora amplamente invisíveis, de lixo plástico (Rachel Ricotta/AP)

 
Um estudo pioneiro na Califórnia tornou evidente a impressionante escala de poluição por microfibras plásticas contidas em roupas sintéticas – uma das formas de lixo plástico mais disseminadas e ainda assim uma das mais invisíveis.

O relatório, cujas descobertas foram divulgadas exclusivamente pelo Guardian, descobriu que em 2019 estimadas 4.000 toneladas métricas – ou 13.3 quadrilhões de fibras – foram liberadas no meio ambiente natural da Califórnia. As fibras plásticas, que possuem menos de 5mm de comprimento, são principalmente lançadas quando lavamos nossas calças de yoga, nossos jeans com elastano e nossas jaquetas de fleece e podem facilmente entrar nos oceanos e nas vias hídricas.

“As descobertas não foram nada menos que um choque”, disse Alexis Jackson, diretora de projetos de pesca no Instituto Conservação da Natureza na Califórnia, que comissionou o estudo de uma equipe de pesquisa da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. O estudo ainda não foi publicado ou avaliado pelos pares.

Muitos imaginam a poluição oceânica por plásticos como sendo a de grandes resíduos como sacolas, canudos e garrafas, mas na realidade a maior parte consiste em partículas minúsculas que acumulam em organismos pequenos e crescem na cadeia alimentar.

Seu tamanho facilita que grudem em tudo, desde plantas até plânctons. Um estudo recente descobriu que 73% dos peixes pegos em profundidades médias do oceano atlântico tinham microplásticos em seus estômagos.

É difícil digerir o número, – 13.3 quadrilhões - então os autores do estudo fizeram comparações mais assimiláveis: existem tantas microfibras quanto existem estrelas na Via Láctea. Também é equivalente a 80 milhões de patinhos de borracha poluindo o estado todo ano.

Milhares de microfibras de plástico são lançadas quando roupas sintéticas são lavadas. As microfibras então surfam pelas máquinas de lavar e acabam no fluxo de águas residuais. Um estudo de 2016 mostrou que uma pilha média de roupas sujas pode liberar mais de 700.000 fibras no fluxo de águas residuais, embora a quantidade lançada dependa de vários fatores: o tipo de vestimenta, materiais usados, a temperatura da lavagem e o sabão. Atualmente, não existem filtros de máquinas de lavar que segurem as partículas.

Esses materiais sintéticos não são conhecidos pelo meio ambiente natural, então os micróbios e outras criaturas não evoluíram para lidar com eles, diz Roland Geyer, ecologista industrial na UC-SB e que colaborou no relatório. “Estamos introduzindo esses materiais sintéticos no meio ambiente em uma escala muito maior do que foi pensado inicialmente. E isso tem preocupado as pessoas sobre as consequências a longo prazo para a saúde e para o meio ambiente.”

Para chegar ao número final, o time combinou dados de consumo de fibras sintéticas com estimativas da frequência com que as pessoas lavam suas roupas, e o quanto que essas roupas liberam em cada lavagem. Então, usaram informações de gerenciamento de fluxo de águas residuais e sedimentos especificamente da Califórnia para seguir as fibras e prever quantas acabam em vias hídricas, incineradores, aterros e quantas são lançadas na terra.

Estações de águas residuais possuem a habilidade de capturar as fibras, mas aí há um problema, também. As estações estão coletando os sedimentos e combinando-os com biosólidos – basicamente, esgoto – três quartos dos quais são tratados e então disseminados em áreas agrícolas. A partir daí, as fibras plásticas voltam diretamente para os fluxos de águas residuais. “Então estamos trocando um problema oceânico por um problema terrestre”, diz Geyer. “Ao invés de remover as fibras, apenas mudamos sua localização.”

Os efeitos na saúde humana ainda não estão inteiramente claros, mas um relatório recente descobriu que a pessoa média ingere mais de 5.800 partículas de resíduos sintéticos por ano – e fibras plásticas foram encontradas em comidas, bebidas e até mesmo no Ártico. E o problema está crescendo em magnitude: agora, 60% do material que compõe nossas roupas é sintético. Até 2050, é esperado que a produção global de sintéticos triplique, de acordo com Jackson.

Muitos estudos têm observado as condições que fazem com que as roupas liberem fibras no sistema hídrico – e no ar, algo conhecido como “dry shedding”. Tecidos de acrílico e poliéster liberam mais do que misturas de poli-algodão, de acordo com um estudo de 2016. Tecidos mais grossos também liberam mais que os tecidos mais finos, vestimentas mais novas liberam mais que as velhas, temperaturas de lavagem mais quentes liberam mais fibras do que temperaturas mais frias, e lavadoras com a abertura no topo fazem com que as roupas liberem mais do que as lavadoras com a abertura frontal. Poucos estudos tentaram avaliar o impacto global das microfibras de plástico no nosso meio ambiente.

A produção de plástico e incineração também é conectada à crise climática. A produção global de plástico é projetada para triplicar até 2050, somando 20% de todo o consumo de combustível fóssil e representando um aumento significativo nas emissões dos gases de efeito estufa, diz Jackson: “Como resultado do aumento do dióxido de carbono e outros gases do efeito estufa, estamos vendo ecossistemas oceânicos mais quentes, menos ácidos e menos produtivos”.

Sobre a resolução do problema, os autores do relatório dizem que as respostas devem vir de várias frentes. Se basear somente no tratamento das águas residuais não vai solucionar a questão. Mas avanços em tecnologia que capturem fibras para máquinas de lavar podem fazer uma grande diferença, evitando que as fibras escapem para o sistema hídrico em primeiro lugar. Além disso, empresas de roupas estão cada vez mais examinando o processo de produção e tentando criar tecidos com menores taxas de liberação de fibras. “Eu acho que o consumidor pode ajudar ao exigir certas ações”, diz Geyer.

Jackson aponta que as microfibras coletadas nas estações de água podem ser cuidadosamente colocadas em aterros que não vazam ao invés de serem liberadas em áreas agrícolas – ou até poderá haver soluções mais criativas no futuro. “Quando você olha para as redes de pescaria ou até para outros tipos de plástico, existem maneiras inovadoras de reutilizar ou reduzir esses materiais, então precisamos continuar procurando soluções inovadoras.”

Faz tempo que a Califórnia é líder em ação ambiental, diz Jackson, incluindo energia renovável e o banimento de sacolas plásticas. Mas até agora, não está claro o quanto a questão do microplástico tem prejudicado o estado. “É importante entender a nossa parte do problema, especialmente em um estado que se orgulha de ser pra frente.”

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares







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