Mãe Terra

Greenpeace quer energia renovável para os “sem-luz”

06/10/2004 00:00

Verena Glass

Créditos da foto: Verena Glass

São Paulo – Um caminhão remodelado em laboratório de energias renováveis é, literalmente, o carro-chefe da nova expedição da ONG ambientalista Greenpeace que, a partir desta quarta-feira (6), sai de São Paulo e deve percorre 31 cidades do país nos próximos 80 dias para divulgar fontes e equipamentos de geração de energia limpa ou renovável. O objetivo principal da campanha, explica o coordenador Sergio Dialetachi, é apresentar uma série de tecnologias nacionais que, segundo o Greenpeace, poderiam suprir a demanda de energia dos 21 milhões de brasileiros “sem-luz”, a população ainda não atendida pelas políticas energéticas do governo.


As energias renováveis – biomassa, solar (fotovoltaica e térmica), eólica, pequenas hidrelétricas e gás de biodigestão – seriam uma alternativa às energias tradicionais (fósseis, nuclear e de grandes hidrelétricas) cujo impacto sócio-ambiental é,comparativamente, muito maior. Partindo deste princípio, explica Dialetachi, o Greenpeace não pretende polemizar politicamente com o Governo, mas apresentar as alternativas e sua viabilidade.

 

“O Governo costuma dizer que a adoção de políticas de geração de energias renováveis já acontece no país através do investimento nas grandes hidrelétricas, mas os impactos sobre a população e o meio ambiente são um custo caro. Caras, diz o governo, são as tecnologias de energia solar ou eólica, mas esquece-se neste cômputo que as tradicionais são todas subsidiadas. Tire-se este subsídio, ou subsidie-se as alternativas, e será possível ter um quadro verdadeiro dos custos”, diz o coordenador do Greenpeace.

 

Apesar de procurar despir a campanha de caráter político (“o caráter da expedição é pró-ativo, não político”), Dialetachi pondera que, além do “como” gerar, é preciso discutir para “quem” se gera energia no país. “A usina de Tucuruí, a maior do Brasil, construída e sustentada com o dinheiro do contribuinte, alimenta quase que exclusivamente duas empresas multinacionais de alumínio. A energia para elas é subsidiada, mas as comunidades do entorno continuam sem luz. O mesmo mecanismo se repete na Bahia, um dos maiores produtores de energia do Brasil, mas 4 milhões de pessoas no estado continuam no escuro. Sem contar as comunidades isoladas no interior do país. Para estes, a alternativa são as energias renováveis”.

 

Para comprovar esta tese, o Greenpeace deverá doar o container do caminhão usado na expedição a uma comunidade isolada em Iratapuru, às margens do Rio Jarí, no estado do Amapá. Equipado com 24 placas de energia solar – que produzem cerca de 240 watts de energia -, o container será transformado em gerador para o esmagamento de sementes da floresta, cujo óleo é comprado pela industria de cosméticos Natura.

 

“Este projeto faz parte de um maior, internacional, que já destinou um desses ‘containeres solares’ para uma comunidade isolada na África do Sul e deve, no ano que vem, repetir a experiência no México, na Índia, na China e na Tailândia como parte da campanha do Greenpeace Internacional pelo desenvolvimento sustentável”, diz Dialetachi.


Esta etapa da Campanha Energia do Greenpeace deve ser concluída com a apresentação ao presidente Lula de um estudo, realizado conjuntamente por nove universidades, sobre a demanda energética e a possibilidade de atendimento através da geração de renováveis de pequeno porte. A audiência com o presidente foi solicitada para 30 de novembro.



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