Mãe Terra

Homenagem a Chico Mendes celebra ecologia social

09/12/2003 00:00

Rio de Janeiro - Mais do que um ato político, mais do que uma singela homenagem, o seminário Legado Chico Mendes - evento que lembrou nesta segunda-feira (8/12), no Rio, os 15 anos da morte do líder seringueiro - foi uma cerimônia de reafirmação dos princípios da ecologia social e da luta em defesa do meio ambiente. Num clima de intensa emoção, amigos que conviveram com Chico analisaram os avanços obtidos e as dificuldades enfrentadas pelos movimentos sociais dos povos da floresta desde aquele triste 22 de dezembro de 1988, quando o sindicalista foi assassinado na cidade de Xapuri.
O governador do Acre, Jorge Viana (PT), afirmou que o grande legado de Chico Mendes foi ter mostrado ao mundo a existência dos trabalhadores da floresta amazônica e suas formas de relação sustentável com os recursos naturais: “Ele acabou com o mito do vazio demográfico da Amazônia e foi o principal porta-voz de uma gente que sempre desejou trabalhar a viabilidade econômica da floresta, sem, no entanto, deixar de fazer sua defesa sob os mais variados pontos de vista”, disse.
Essa comunhão entre defesa do meio ambiente e desenvolvimento social e econômico, tão cara a Chico Mendes, se materializou na criação das reservas extrativistas controladas pelos seringueiros e organizadas sob a ótica da sustentabilidade ambiental: “Apenas por ter provocado o processo de criação das reservas extrativistas de borracha, Chico já seria uma figura histórica. As reservas são, na realidade, seringais sem patrão”, afirma Mary Allegretti, secretária da Amazônia do Ministério do Meio Ambiente e companheira de lutas do sindicalista nos anos 80.
O latifundiário Darly Alves da Silva, segundo seus próprios depoimentos à Polícia Federal, só decidiu levar adiante os velhos planos de matar Chico Mendes ao se deparar com a possibilidade de ver o Seringal Cachoeira, que ficava em suas terras, transformado em reserva extrativista sob controle dos seringueiros. Matou Chico, mas não a idéia revolucionária: em 2003, já são 19 as reservas extrativistas espalhadas pelos Estados amazônicos, sendo quatro delas no Acre. No resto do Brasil, a experiência se multiplicou e outras 15 reservas extrativistas - em sua maior parte, reservas marinhas - já estão consolidadas.
Os resultados das reservas extrativistas são claramente positivos, em termos de retorno econômico e de preservação da floresta. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, somente na Reserva Chico Mendes - a maior do Acre, englobando o Seringal Cachoeira - vivem e trabalham cerca de 8.000 pessoas. A idéia de Chico Mendes, hoje transformada em realidade, não era das mais complicadas: o Estado demarcaria áreas de extração da borracha e de outros diversos produtos da floresta (açaí, babaçu, mel, pupunha, castanha, etc.) e estes seriam comercializados por cooperativas de trabalhadores, sem nenhum objetivo de acumulação de capital e visando garantir a sobrevivência com dignidade destes trabalhadores. Nenhum deles teria título de propriedade individual, mas todos estariam comprometidos a manter a natureza preservada na área da reserva.
Novas formas de luta Para levar adiante a idéia das reservas extrativistas e pressionar o então reacionário governo do Acre a adotá-las, Chico Mendes correu o Brasil e o mundo, construindo relações políticas e fazendo a ponte entre o movimento ambientalista internacional e os povos da Amazônia. Segundo os participantes do seminário, este é um outro grande legado do líder seringueiro: “Antes de Chico Mendes, o debate ecológico era restrito a intelectuais. Tínhamos conhecimento de causa e boa vontade, mas a metade morava no Rio ou em São Paulo e a outra na Europa ou Estados Unidos. Quando conhecemos Chico, vimos que ele já fazia na prática, em plena Amazônia, aquilo que nós pensávamos”, afirmou o deputado federal Fernando Gabeira (sem partido-RJ), outro que conviveu com Chico Mendes.
Gabeira conta que Chico surpreendeu o movimento ambientalista, ainda nos anos 70, ao organizar os empates, método de luta que consistia em reunir um grande número de homens, mulheres e crianças para evitar a derrubada das árvores numa área que estaria destinada a pecuária. Usando apenas seus corpos para defender as árvores de onde tiravam seu sustento da ação predatória das motosserras dos latifundiários, os seringueiros inauguravam nova forma de luta: “Para boa parte dos ambientalistas, que haviam abandonado não fazia muito tempo a opção pela luta armada, foi muito enriquecedor o contato com essa forma pacífica de luta”, afirmou o deputado.
Aliança dos povos da floresta
O terceiro importante legado deixado por Chico Mendes, segundo os participantes do seminário, foi a consolidação da aliança dos povos da floresta. Usados, durante décadas, pelos fazendeiros para atacar os indígenas, os seringueiros eram vistos com extrema desconfiança pelos índios. O ódio entre seringueiros e índios, que não existia até os anos 60 e foi forjado pela visão desenvolvimentista dos latifundiários que chegaram ao Acre a partir da década de 70, foi dissipado pelo trabalho de Chico.
Dirigente da União dos Povos da Floresta (entidade criada por Chico Mendes) e da União das Nações Indígenas, Ailton Krenak afirmou que a “passagem de Chico entre nós” foi um presente: “Ele nos ensinou a todos a desenvolver um olhar de dentro da floresta, e não pautado pela cidade, pelo mercado. Com isso, vimos que índios, seringueiros, castanheiros, éramos todos irmãos, pois de fato o éramos. Chico foi o primeiro homem branco que chamamos de txai (metade de mim)”, contou.
Raimundo Barros, o Raimundão, que é primo de Chico Mendes, vereador do PT em Xapuri e líder histórico dos seringueiros, também ressaltou a aliança entre os povos da floresta como principal herança de Chico: “Ele teve a coragem de juntar os irmãos e companheiros e mostrar a eles uma situação em que estavam sendo explorados e destruídos junto com a floresta. Ele falou na mata o que aprendeu no exterior, e no exterior explicou nossa situação, sempre com linguagem de caboclo. Tinha uma sabedoria danada, sem praticamente ter ido à escola”, contou.
Desafios
Todos concordaram que ainda falta muito para se cumprir a trilha aberta por Chico Mendes. Mesmo reconhecendo os enormes avanços do Acre - que há dez anos era um Estado dominado pelo narcotráfico e agora tem o Governo da Floresta e aplica o princípio da Florestania - o governador Jorge Viana lembra que tudo ainda precisa se consolidar: “Ainda não achamos no Acre a resposta definitiva sobre como nos desenvolver economicamente de forma plena. Esse é o nosso desafio num Estado em que 48% do território está dentro de unidades de conservação ambiental”, disse.
Viana cita a conquista do governo do Acre - para o qual se reelegeu governador em 2002 - como etapa fundamental da consolidação das conquistas obtidas a partir da luta de Chico Mendes. Ele aposta no sucesso da administração petista para dar continuidade às políticas públicas de desenvolvimento sustentável praticadas no Estado: “Estamos nos desenvolvendo e organizando cada vez mais. Vivo angustiado, pois sei que corremos contra o relógio. A situação pode não estar tão favorável aos povos da floresta daqui a quatro ou cinco anos”, advertiu.
Mary Allegretti afirmou que a melhor homenagem a Chico seria o Brasil adotar uma legislação que permitisse remunerar os serviços ambientais prestados pelas comunidades que habitam a floresta amazônica. Presidente do Comitê Chico Mendes, Gomercindo Rodrigues pediu que o exemplo do líder seringueiro seja sempre lembrado como prova do poder da organização dos trabalhadores: “Eu preferiria que ele estivesse aqui. Mas, mesmo sem ele, vemos que a luta avançou. Os fazendeiros acharam que estavam sendo espertos ao matar o Chico... Como se diz lá no Acre, a esperteza quando é muita vira bicho e come o dono”, finalizou, com a sabedoria dos povos da floresta.


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