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Incêndios na Califórnia: ''isso é mudança climática''

Os incêndios na costa oeste dos EUA queimam milhões de hectares e bloqueiam o sol

11/09/2020 16:47

(Reprodução/Democracy Now!)

Créditos da foto: (Reprodução/Democracy Now!)

 
Os céus da área da Baía de São Francisco e do norte da Califórnia ficaram laranja escuro quando 90 grandes incêndios ocorreram no oeste dos Estados Unidos, de San Diego à fronteira com o Canadá. Pelo menos sete pessoas morreram em consequência dos incêndios, que já queimaram 10 mil quilômetros quadrados somente na Califórnia. Apesar da ampla cobertura da grande mídia, no entanto, poucos veículos estão destacando a ligação entre os incêndios e a aceleração da crise climática. “O fato é que o noticiário da TV está abdicando completamente de sua responsabilidade quando se trata de dizer a verdade sobre com o que o Oeste está lidando agora”, diz Leah Stokes, professora assistente de ciência política da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e uma pesquisadora nas éreas de política climática e energética. “Isto é mudança climática: não se trata de um bicho de sete cabeças. Quando será que a mídia começará a usar o nome correto?”

Amy Goodman: Começamos o programa de hoje na Califórnia, onde as pessoas na área da Baía de São Francisco e em todo o norte da Califórnia acordaram na quarta-feira (9) com o céu laranja escuro enquanto um cobertor de fumaça dos grandes incêndios florestais do estado, alimentados pela mudança climática, sufocava a região. A espessa fumaça bloqueou tanto a luz do sol que as temperaturas caíram bem abaixo das previsões dos meteorologistas: eles compararam esse efeito a um inverno nuclear.

As condições sem precedentes surgiram no momento em que a Costa Oeste enfrenta uma temporada de incêndios que matou pelo menos sete pessoas, forçou grandes evacuações e já ardeu dez mil quilômetros quadrados só na Califórnia. Isso é 20 vezes a área queimada no ano passado, e ainda faltam meses para terminar a temporada cada vez maior de incêndios na Califórnia. Os ventos de alguns dos mais de 20 imensos incêndios na Califórnia e de queimadas que chegam a Oregon e Washington sopraram na direção da área da Baía criando as condições que alguns descreveram como "apocalípticas". Carljuan Anderson, residente de Oakland, diz:

Carljuan Anderson: Fiquei me perguntando que horas seriam e então olhei para fora. Parecia o Apocalipse. Quer dizer, você poderia dizer que algo está horrivelmente errado. E no que diz respeito a trabalhar e respirar tudo isso, essa poluição definitivamente não é saudável para nós na Área da Baía.

Amy Goodman: Os incêndios também tem devastado o Oregon, onde dezenas de incêndios florestais destruíram centenas de casas e até cidades inteiras. A governadora do Oregon, Kate Brown, disse que esta pode ser a maior perda de vidas e propriedades por incêndios na história do estado. Este é um vídeo postado no Twitter pela repórter Christine Pitawanich da KGW News de Oregon, mostra o centro de Stayton, que fica a cerca de uma hora ao sul de Portland, pouco depois do meio-dia de terça-feira. O céu está vermelho-sangue.

Christine Pitawanich: Este aqui é o centro de Stayton. Você pode ver o tom vermelho, o brilho laranja-avermelhado no céu. Há cinzas caindo visivelmente na frente de ... sabe, quando estávamos dirigindo para cá, na frente dos faróis do carro. Mas o centro da cidade, basicamente vazio aqui, além de algumas pessoas, alguns carros aqui, gente andando e carros. Mas o cheiro de fumaça é forte.

Amy Goodman: Enquanto isso, incêndios florestais no estado vizinho de Washington queimaram quase 2.500 quilômetros quadrados desde o Dia do Trabalho (7/9). Os incêndios que devastam o Oeste acontecem no momento em que onda recorde de calor, apagões em massa e a pandemia de coronavírus causam desequilíbrios na região. Os cientistas são inflexíveis em suas análises: a crise climática está aqui. E está afetando, em primeiro lugar e da forma mais dura, os trabalhadores rurais ainda forçados a trabalhar nos campos, os prisioneiros transformados em bombeiros e outras comunidades vulneráveis. Este é o governador da Califórnia, Gavin Newsom, falando na terça-feira:

Gov. Gavin Newson: Mas eu literalmente não tenho paciência com os que negam a mudança climática. Esse ponto de vista é simplesmente… completamente inconsistente com a realidade local, com os fatos que estamos vivenciando. Você pode não acreditar intelectualmente, mas seus próprios olhos, suas próprias experiências contam uma história diferente.

Amy Goodman: Bem, para sabermos mais, estamos acompanhados por Leah Stokes, professora assistente de ciência política na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, pesquisadora sobre clima e política energética. Ela é a autora da “Política de Curto Circuito: grupos de interesse e a batalha pela política de energia limpa e clima nos estados norte-americanos”.

Você pode descrever o que estamos vendo, da Califórnia a Oregon e Washington? A mídia fala sobre isso como bizarro e louco. Ainda assim, não usa muito a palavra “mudança climática”.

Leah Stokes: É isso mesmo, Amy É muito triste que seu programa e um apresentador da CBS News, chamado Jeff Berardelli, sejam praticamente as únicas estações de notícias de TV dispostas a usar a palavra "mudança climática". No mês passado, durante o mês de agosto, quando os incêndios, é claro, já haviam começado, havia mais de 100 notícias de TV sobre isso na ABC, NBC e CBS, conforme a organização Media Matters. E desses mais de 100 segmentos, estou falando de cinco segmentos completos - é isso - que até mencionaram a palavra "mudança climática". E três desses cinco foram feitos por uma pessoa, Jeff Berardelli, que é um meteorologista maravilhoso que realmente se preocupa em falar sobre as mudanças climáticas.

Mas o fato é que o noticiário da TV está abdicando completamente de sua responsabilidade quando se trata de dizer a verdade sobre a situação com a qual o Oeste está se defrontando agora, que é, é claro, não apenas esses incêndios, mas ondas de calor enormes e sem precedentes. Os incêndios que se agravaram no fim de semana foram alimentados em grande parte pelo calor sem precedentes em condados como o de Los Angeles, que estabeleceu recordes de ondas de calor de 121 graus Fahrenheit [49 graus Celsius], o de Ventura, o de Santa Barbara, no interior. Quer dizer, temperaturas nunca foram vistas antes na história humana moderna. Isto é mudança climática: não se trata de um bicho de sete cabeças. Quando será que a mídia começará a usar o nome correto?

Nermeen Shaikh: Professora Stokes, você também poderia falar sobre a justificativa que foi apontada? Porque alguns pensam que a razão pela qual as pessoas concluem que este é um efeito das mudanças climáticas é que agora se mantém registros, o que antes não acontecia. Mas, na verdade, na Califórnia, os registros de incêndio são mantidos desde 1932. E os piores incêndios ocorreram … os 10 piores incêndios ocorreram entre o ano 2000 e o presente.

Leah Stokes: Sim. E, infelizmente, essa estatística, que é realmente boa, provavelmente está ficando desatualizada neste momento. Sabe, como vocês mencionaram no início da matéria, estamos falando de 10 mil quilômetros quadrados que já foram queimados. Isso é, como Amy mencionou, 20 vezes o que havia queimado no ano passado. Sabemos, por causa da pesquisa, que a temporada de incêndios em todo o oeste dos Estados Unidos se alongou por dois meses e meio.

Portanto, não estamos mais em temporadas de incêndio; estamos na temporada de incêndios o ano todo. Sabe, esta não é uma questão de manutenção de registros modernos. É uma questão de queimar combustíveis fósseis, que é o que temos feito, que tem aquecido o planeta e, como dizem os cientistas, aumentou o risco de incêndio em 500%. Esse é o tipo de aumento que estamos vendo como resultado das mudanças climáticas.

Amy Goodman: Sabe, eu estava conversando com familiares ontem à noite, ontem à noite em Nova York, que era de tarde lá na Califórnia, e eles me mostraram, pelo Skype, o lado de fora das casas deles e estava escuro. Mas, Professora Stokes, você pode explicar as cores que estão aparecendo, do laranja abóbora ao roxo até a escuridão total? O que exatamente está causando tudo isso? E como você acha que o governador está lidando com isso? E então fale sobre o presidente Trump.

Leah Stokes: Claro. Então, o que aconteceu com esses incêndios florestais gigantes foi um conjunto de condições climáticas realmente sem precedentes que nunca tínhamos visto antes. Existe um maravilhoso cientista do clima, muito ativo no Twitter, chamado Daniel Swain. E ele tem falado sobre o quanto ele está esgotado por tentar rastrear a quantidade de incêndios que estão acontecendo agora.

Esses incêndios estão criando seu próprio clima. Eles estão criando nuvens e condições semelhantes às de um tornado. O que isso está fazendo é como uma erupção de vulcão. Está empurrando o material particulado para o alto da estratosfera, muito mais alto do que os aviões voam. Isso é como uma erupção vulcânica. Então, estamos lidando aqui com partículas bloqueando o sol. Assim, por exemplo, as pessoas postaram informações sobre seus painéis solares e mostraram que eles estavam recebendo radiação solar zero, nenhuma energia sendo produzida, porque o sol não estava fazendo seu caminho até o solo. Isso é o que aconteceu no passado, quando tivemos grandes erupções vulcânicas. É um efeito realmente perturbador, e posso entender por que as pessoas ficam tão assustadas.

Em relação ao governador da Califórnia, é ótimo vê-lo se empenhando e usando as palavras “mudança climática” de maneira muito ativa. Outros apontaram, no entanto, que ele aprovou licenças de fraturamento [fracking, em inglês, método para extrair, de modo hidráulico, combustíveis líquidos e gasosos do solo] nos últimos meses durante a pandemia, e há dúvidas sobre por que a Califórnia não está atuando mais agressivamente no bloqueio à extração de petróleo e gás.

E então, quando se trata de nosso negador-chefe do clima, Donald Trump, sabe, ele nem mesmo acredita nas mudanças climáticas. Ele não dá ouvidos aos cientistas, seja sobre a pandemia do coronavírus, e mente sobre isso e minimiza o número de mortes ou mudanças climáticas. Então, realmente, não temos liderança em Washington, DC, para esta emergência. Já passou da hora de termos um presidente que use as palavras “mudança climática” e que confie e acredite na ciência.

Nermenn Shaikh: Professora Stokes, você mencionou anteriormente o combustível fóssil, é claro, que é uma das principais causas da mudança climática acelerada. Em seu artigo na revista The Atlantic, "How Can We Plan for the Future in California?" você escreveu: “em uma virada irônica, queimar combustíveis fósseis se tornará menos confiável em nosso mundo mais quente.” Você pode explicar?

Leah Stokes: Claro. Então, essas ondas de calor com as quais temos lidado, realmente durante todo o verão, são sem precedentes. Isso porque a ciência nos disse que temos, novamente, 500% a mais de risco de termos ondas de calor em todo o oeste dos Estados Unidos, dada a quantidade de mudanças climáticas que já causamos. Aquecemos o planeta em um grau Celsius. Em certas partes da Califórnia, como onde moro, Santa Bárbara, o aquecimento é realmente maior. É de dois graus Fahrenheit - desculpe, dois graus Celsius, em Santa Bárbara e no condado de Ventura. Portanto, certas partes do nosso planeta são realmente mais vulneráveis às mudanças climáticas e aquecem mais rapidamente. E isso certamente acontece na Califórnia.

Então, o que está acontecendo é que o oeste, seja Arizona, Nevada, Califórnia, foi assado em uma grande onda de calor regional nas últimas semanas. Isso cria um grande estresse em nosso sistema elétrico, porque as pessoas em Phoenix precisam ligar seu ar condicionado, as pessoas em Los Angeles precisam ligá-lo… em toda a região. Isso significa que não temos tantos recursos de eletricidade como teríamos de outra forma. Assim, tem havido escassez regional de eletricidade, principalmente na Califórnia. E algumas semanas atrás, a grade realmente enfrentou apagões contínuos. Mesmo na semana passada, houve escassez e alguns fechamentos em algumas áreas.

Agora, o que aconteceu algumas semanas atrás ainda está sendo compreendido, mas um dos fatores é que várias usinas de gás - são usinas de gás fóssil que operam na Califórnia - ficaram fora do ar inesperadamente. E o que as pessoas apontaram é que quando a temperatura fica muito alta, como se você já estivesse em um aeroporto quando a temperatura está muito alta e os aviões não conseguem decolar… quando a temperatura fica muito alta, as plantas de geração de energia por combustíveis fósseis não conseguem produzir a mesma quantidade de eletricidade. Eles não conseguem operar. E assim, à medida que lidamos com mais e mais ondas de calor, nosso sistema elétrico vai se tornar muito menos confiável.

Amy Goodman: E a conexão do presidente Trump com as empresas de combustíveis fósseis? E, uma segunda pergunta, as pessoas que estão combatendo esses incêndios? Temos tratado extensivamente disso no Democracy Now! Mas, por exemplo, os prisioneiros bombeiros que estão lidando com a COVID, e depois os trabalhadores rurais que estão no campo sendo informados de que ainda precisam estar lá?

Leah Stokes: Sim. Há tantas partes trágicas dessa história, e tantas outras que você tocou no início. Vivemos dias muito sombrios.

Infelizmente, o que muitas pessoas não sabem é que a Lei CARES, que foi o projeto de estímulo ao coronavírus que Mitch McConnell ajudou a administrar no Congresso alguns meses atrás, foi em grande parte um resgate para empresas de combustíveis fósseis. Nem mesmo sabemos quanto do nosso dinheiro, como pessoas que vivem nos Estados Unidos, foi para empresas de combustíveis fósseis, porque o governo federal se recusa a nos dizer.

Mas sabemos, graças às reportagens realmente obstinadas de algumas mulheres, incluindo Antonia Juhasz, escrevendo para a revista Sierra, e Alexis Goldstein, escrevendo para a Truthout, que muito dinheiro - estamos falando de bilhões de dólares - vai para empresas de combustíveis fósseis. Alexis acaba de relatar, por exemplo, que o Federal Reserve literalmente comprou títulos corporativos, dívidas corporativas, de várias empresas de combustíveis fósseis. Então, você e eu agora somos detentoras de dívidas corporativas da ExxonMobil, Chevron, BP, Marathon Petroleum e da empresa de serviços de eletricidade Southern Company. Essas são corporações terríveis que negam as mudanças climáticas há décadas e não são atores corporativos responsáveis. E, no entanto, o que a administração Trump fez? Deu a eles uma tábua de salvação e uma esmola, em um momento em que não iam bem financeiramente, não por causa da COVID, mas por causa de suas próprias decisões erradas.

Então, realmente, o que estamos vivendo agora é um enorme resgate dos combustíveis fósseis. O que o governo federal está fazendo não é ajudar os norte-americanos comuns a se manterem empregados, pagarem o aluguel e as contas de eletricidade. O que eles estão fazendo é ajudar as empresas de combustíveis fósseis. E isso está muito errado.

Amy, você também mencionou, é claro, o problema do trabalho prisional quando se trata de combate a incêndios na Califórnia. E esse problema foi realmente agravado pela crise da COVID. No município de Santa Bárbara, onde moro, há uma prisão, onde quase 100% das pessoas, cerca de mil pessoas que estão naquela prisão, tiveram COVID. Nas primeiras partes da pandemia, este foi um dos piores surtos em todo o país. E as prisões em todo o país e na Califórnia estão realmente na linha de frente da COVID.

E então, uma coisa que o governador Newsom fez, em parte para ajudar as pessoas nas prisões, foram as libertações antecipadas. Infelizmente, isso significa que os bombeiros com os quais contamos através do trabalho prisional, que é uma situação problemática, não temos tantos como resultado, portanto, não temos a mesma quantidade de bombeiros. E também temos uma política terrível na Califórnia segundo a qual, depois que as pessoas são libertadas da prisão, elas não têm permissão para trabalhar como bombeiros por um salário real. Assim, o sistema que criamos para combater nossos incêndios é realmente antiético, não apenas explorando as pessoas quando estão na prisão, mas, depois de treiná-las e dar-lhes habilidades, não permitindo que usem essas habilidades de forma remunerada.

E, por fim, os trabalhadores rurais. Você em razão. Muitos hispânicos sem documentos que vivem neste país estão na linha de frente da COVID, na linha de frente da crise climática. E eles ainda estão trabalhando nos campos durante a pandemia e sob essa qualidade do ar absolutamente horrenda, o que, é claro, quando você respira aquele ar ruim, também torna mais provável que você morra de COVID.

Amy Goodman: E o futuro, Leah Stokes, o que precisa acontecer agora?

Leah Stokes: Precisamos eleger um novo presidente. Sabe, Joe Biden, com todas as suas falhas, apresentou um plano de mudança climática absolutamente sem precedentes, e ele tem como meta 100% de eletricidade limpa até 2035. Portanto, se pudermos elegê-lo presidente e formar uma maioria democrata no Senado, teremos realmente uma chance de enfrentar a crise climática.

Amy Goodman: Leah Stokes, quero agradecer a você por estar conosco, professora assistente de ciência política na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, pesquisadora nas áreas de clima e política energética. Faremos um link para o seu artigo no The Atlantic, intitulado “Como podemos planejar o futuro na Califórnia?” Ela é a autora do livro “Política de Curto Circuito: grupos de interesse e a batalha pela política de energia limpa e clima nos estados norte-americanos”.

*Publicado originalmente em 'Democracy Now!' | Tradução de César Locatelli

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