Mãe Terra

Lula e Marina Silva fortalecem presidente do Ibama

01/04/2004 00:00


Rio de Janeiro – O presidente do Ibama vai cair? Repetindo um processo de especulações e tentativas de desestabilização que, num passado recente, já foi dirigido a Carlos Lessa (BNDES) e Luiz Pinguelli Rosa (Eletrobrás), informações sobre uma iminente demissão do amazonense Marcus Barros vem ganhando espaço nos últimos dias. De acordo com algumas notinhas publicadas por colunistas dos principais jornais do país – e repercutida por alguns parlamentares em Brasília – a atuação do Ibama estaria desagradando ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nesta semana teria pedido a cabeça de Barros à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Segundo essas informações, Lula estaria inconformado com o fato de o Ibama estar travando uma série de projetos de infra-estrutura e desenvolvimento ao retardar a concessão das licenças ambientais necessárias.

Tudo fazia crer que Barros estivesse de fato com as horas na presidência do Ibama contadas, mas alguns gestos políticos recentes de Lula e Marina indicam que ele pode estar mais sólido do que muitos imaginam. Presente nesta terça-feira (30/3) a cerimônia de lançamento do Programa de Incentivo as Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), Lula refutou enfaticamente a idéia de que a área ambiental do governo esteja travando o desenvolvimento: "No Brasil, se tenta vender a idéia de que o Ministério do Meio Ambiente é contra o desenvolvimento ou que o Ibama ou o Ministério Público atrapalham o desenvolvimento do país, não permitindo que as coisas funcionem corretamente. Tanto na economia quanto na nossa vida privada, é sempre importante a gente tentar encontrar alguém para jogar a culpa, até de erros que nós mesmos cometemos em algum momento", disse.

O erro dos empresários, segundo o presidente da República, foi usar, nas últimas décadas, "o jeitinho brasileiro" para aprovar seus projetos, ao invés de fortalecer órgãos de fiscalização como o Ibama: "Lamentavelmente, no Brasil (...) era preciso adotar sempre a política do jeitinho, ou seja, quem é amigo do rei pode liberar alguma coisa e quem não é amigo do rei espera o resultado do caos, onde estão várias instituições brasileiras que tem que dar pareceres extremamente importantes", disse. Lula afirmou que ele e Marina "não podem nem querem" adotar a política do jeitinho: "Se tem lei, nós temos que cumprir. Se a lei está obsoleta, nós temos que mudá-la. O que não pode é a gente ficar brincando de enganar um ou outro, quando se trata de investimentos da monta, segundo eu ouvi dizer aqui, de quase R$ 8 bilhões", disse o presidente.

Ouvida pela Agência Carta Maior, uma pessoa da direção do Ibama que prefere não revelar sua identidade garante que o próprio Lula já recomendou a Marcus Barros que não desse importância aos boatos, pois mantém total confiança nele e aprova o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Ibama: "Barros é fundador do PT, fundador da CUT, Lula o conhece há muitos anos. Quando foi chamado para a presidência do Ibama, Barros disse a Lula que não poderia aceitar, pois havia acabado de assumir a presidência do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde passou por concurso. Lula ouviu e respondeu que não admitia recusa, porque tinha uma tarefa muito importante para ele e não o queria escondido na Amazônia. Barros só cai se acontecer um desastre político", afirma a fonte.

Gerente do Ibama nega crise
A ministra Marina Silva também defendeu o Ibama nesta terça-feira (31), durante a assinatura do acordo de cooperação entre os ministérios do Meio Ambiente e de Minas e Energia: "Não se pode criar no país uma cultura de que a legislação ambiental é um empecilho a ser removido. É, ao contrário, uma conquista a ser contemplada adequadamente e há um esforço de governo nesse sentido", disse. Procurada pela Agência Carta Maior, a ministra informou, por intermédio de sua assessoria de imprensa, que não responderá as especulações sobre a situação de Marcus Barros: "As notícias sobre mudanças no Ibama foram plantadas na imprensa por setores insatisfeitos com a política que vem sendo desenvolvida pelo órgão", informou a assessoria.

O gerente-executivo do Ibama no Rio de Janeiro, Edson Bedim, garantiu que não existe crise no órgão: "Estamos fazendo uma boa gestão, tocando projetos de uma maneira como nunca foi feito no Ibama. Não tenho dúvidas de que Marcus Barros goza da confiança e do respeito do presidente e da ministra", disse. Segundo Bedim, os boatos quanto à queda do presidente do Ibama fazem parte de uma tentativa de desgaste de todo o governo: "Todos se lembram que muitos disseram, e alguns jornais quase garantiram, que a ministra Marina Silva iria cair por conta da polêmica dos transgênicos, não é? Ela está aí até hoje. Isso mostra que estamos incomodando alguns setores", afirma.

Grupo Votorantim estaria por trás dos boatos
Segundo a fonte consultada no Ibama de Brasília, quem estaria por trás das notinhas e dos boatos pedindo a cabeça de Marcus Barros seria o Grupo Votorantim, do empresário Antonio Ermírio de Morais. O motivo da pressão seria a não liberação do projeto de construção de uma usina hidrelétrica do grupo no Vale da Ribeira, em São Paulo. O projeto está parado por falta de licenciamento ambiental há quase 15 anos: "Antonio Ermírio quer aproveitar a recente crise do governo para fazer pressão e conseguir a licença para um projeto que, na realidade, é ambientalmente inviável", afirmou a fonte. Procurada pela Agência Carta Maior para comentar essas informações, a diretoria da Votorantim Participações não respondeu a reportagem até o fechamento desta edição.

Ainda que indiretamente, Lula comentou durante o discurso do Proinfa o caso da usina hidrelétrica do Vale da Ribeira: "Os empresários se lembram que, quando nós tomamos posse aqui, tínhamos 35 hidrelétricas paralisadas desde 2001. Nós retomamos 17, existem 18 ainda com várias pendências e há hidrelétrica com empresário esperando parecer do governo há pelo menos 14 anos. E ele sabe que não vai sair, mas durante muito tempo se preferiu enganar o empresário, deixá-lo na fila de espera, criando uma expectativa, quando seria muito mais honesto dizer que tal ou qual projeto não vai sair porque fere todas as normas de proteção ambiental do Brasil", disse o presidente.



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