Mãe Terra

O Pantanal, no Brasil, é um paraíso de biodiversidade devastado pelas chamas

A zona úmida, com flora e fauna excepcionais, não é mais do que uma sombra de si mesma. Mais de 16.000 focos foram registrados na região desde o início do ano

01/10/2020 13:58

(Victor Moriyama para o 'Le Monde')

Créditos da foto: (Victor Moriyama para o 'Le Monde')

 
Aqui, um jacaré morreu carbonizado, seu eterno sorriso reptiliano nos lábios. Mais adiante, o crânio de um grande búfalo repousa sobre o solo rachado e cor de carvão. Em outro lugar, misturados com raízes e troncos de árvores chamuscados, estão os restos sinistros de uma cobra do pântano, calcinada em sua fuga desesperada das chamas.

No final da estação seca, o Pantanal brasileiro parece um cemitério. Assolada por gigantescos incêndios desde julho, essa área de excepcional biodiversidade, que abriga cerca de 650 espécies de aves, 98 de répteis e 159 de mamíferos, já perdeu, segundo especialistas, de 20% a 25% de sua área, ou 3 milhões a 4 milhões de hectares viraram fumaça. O equivalente à área da Bélgica ou Suíça.

Para entender a extensão do massacre, é preciso pegar a Transpantaneira, uma estrada lendária que, por 150 quilômetros, atravessa a região de norte a sul, da cidade de Poconé à Porto Jofre. Há ainda alguns meses, o visitante que passava era transportado por uma paisagem preservada, toda de turfa e lagoas, vasto pântano que lembra uma Camargue dos trópicos, reino das onças, antas, tamanduá-bandeira e sucuris, araras de plumagem azul meia-noite e tuiuiús com babados ruivos… Um paraíso do ecoturismo.

Ao longo da Transpantaneira, estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil, em 22 de setembro.Victor Moriyama para "Le Monde".

Tudo mudou neste ano com o início da seca. Nesse mês de setembro, sob 40 ° C, o Pantanal não passa de uma sombra de si mesmo: às matas carbonizadas, cor de carvão, sucedem-se rios e lagos secos, raiados como velhos pergaminhos.

Desde o início do ano, foram registrados 16.000 incêndios na região, contra apenas 6.000 no mesmo período de 2019. Apesar da calmaria recente, graças a chuvas escassas, podemos ainda ver aqui e ali muitos incêndios começarem. Uma espessa fumaça ocre cobre constantemente o horizonte, às vezes até o céu. Durante o dia, o sol é em muitos momentos invisível.

É impossível saber quantos milhares de animais morreram no desastre. Os sobreviventes, por sua vez, têm aparência lamentável. Macacos, lontras e aves de rapina esgotados e movidos pela seca vagam ao longo da estrada em busca de alimentos que não encontram. Na borda dos últimos pontos de água, muitas vezes grandes poças de lama, crocodilos e aves pernaltas se reúnem às dezenas, competindo ferozmente pelos últimos centímetros de remanso disponível. A menor carniça torna-se presa de urubus de barriga vazia.

Bombeiros combatem incêndios na ecorregião do Pantanal, onde mais de 2,9 milhões de hectares foram afetados pelos incêndios. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

"É o caos total"

Não são apenas os animais que sofrem. Os homens estão muito exaustos e esgotados, a começar pelos bombeiros da região, que vieram combater as chamas. Encontramos um grupo, ao cair da noite, bem perto de Poconé, em confronto com o fogo. Um pequeno caminhão-tanque descarregou rapidamente e uma escavadeira: os meios são irrisórios para esse punhado de bombeiros, confusos sobre o que fazer a seguir, sem estratégia ou proteção adequada.

“É o caos total”, descarrega irritado o coronel Paulo Barroso, carioca de 49 anos, carismático chefe dos bombeiros da região. “Não temos helicópteros, faltam pelo menos 20 tanques e tenho apenas algumas dezenas de homens para lidar com centenas de incêndios. Devemos apagar o fogo cuspindo nele! Declara furioso. Por falta de alternativa, os bombeiros ficam reduzidos a abrir aceiros, “corredores” cavados com retroescavadeira no mato e borrifados com água para cortar o caminho do incêndio e evitar que se alastre, na maior parte das vezes em vão.

Um dos muitos incêndios que devastaram o Pantanal, vasta área de biodiversidade que abriga 650 espécies de pássaros. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

“Esses incêndios são incontroláveis”, resmunga o Coronel Barroso, que detalha: “No Pantanal, as estradas são poucas e o acesso é muito difícil. O vento aqui muda constantemente de direção. Os lagos estão secos e você precisa viajar de 80 a 100 quilômetros para se abastecer de água. "

As chamas são particularmente traiçoeiras: “No Pantanal, temos o que chamamos de 'incêndios subterrâneos': com secas e inundações sucessivas, muita matéria orgânica altamente inflamável se acumula no subsolo. O fogo pode se espalhar, sob a superfície do solo e explodir em qualquer lugar, a qualquer hora! », explica o bombeiro.

O esqueleto de uma cobra em árvore carbonizada ao longo da Transpantaneira, estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

"O parque foi abandonado"

No parque regional Encontro das Águas, o maior santuário de onças pintadas do planeta, logo ao sul da Transpantaneira, próximo a Porto Jofre, a ajuda foi aguardada por semanas. Em vão, 85% dos 109.000 hectares da reserva viraram cinzas. “Ninguém, nenhum bombeiro veio nos ajudar. O parque foi abandonado. Tivemos que combater o incêndio sozinhos e fazer aceiros nós mesmos ”, disse Ailton Lara, 40, guia turístico e gerente da pousada Pantanal Jaguar Camp, considerado um dos melhores conhecedores da região.

 “Os bombeiros intervieram prioritariamente para salvar fazendas ao invés de parques. O governo defendeu o agronegócio em vez do turismo e da pecuária ”, lamenta o guia. Resultado: no encontro dos rios São Lourenço e Piquiri, quase tudo foi queimado, desde as florestas secas de palmeiras até a grama úmida na superfície da água. “O fogo era tão forte que podia saltar sobre rios [às vezes com mais de 200 metros de largura]”, disse Ailton Lara, surpreso. As onças, assustadas, geralmente ferozes, encontraram refúgio até nas casas e hotéis de Porto Jofre.

Um incêndio no coração do Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

Sem os turistas, os rios do parque agora são atravessados de barco %u20B%u20Bpor grupos veterinários, enviados pelo Estado de Mato Grosso, que vêm ver os estragos e salvar o que é possível. Sob um arbusto, eles avistam uma onça sonolenta com as patas queimadas. "Está tudo bem, a cicatrização é boa!" », Tranquiliza um dos zooterapeutas em traje camuflado. Rio acima, um búfalo com olhar opaco e cascos carbonizados não consegue mais levantar. Jogamos repolho, cenoura e mamão, que ele engole com dificuldade. Mais tarde, ao anoitecer, os cientistas retornarão para dar-lhe o tiro de misericórdia. “Ele estava condenado. Seu sofrimento foi abreviado ”, disse um deles.

Veterinários tratam de uma paca, roedor endêmico do Pantanal, cujas patas foram queimadas pelos incêndios de 22 de setembro. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

Meios muito limitados para salvar os animais

É difícil ajudar os animais. Perto dos últimos pontos de abastecimento de água, bombeiros e veterinários estão instalando dezenas de comedouros, latas azuis cheias de frutas e vegetais tropicais. “O problema número um é agora a fome, que pode matar mais do que as chamas”, insiste Luciana Cataldi, 46, veterinária voluntária que veio de São Paulo para apoiar o trabalho de socorro. A operação não é isenta de riscos: “Se você alimentar demais os animais, eles correm o risco de perder o instinto selvagem e se tornarem dependentes dos humanos. É um verdadeiro dilema ”, explica ela.

Um búfalo selvagem, cujas patas foram queimadas pelo fogo, recebe alimento no Parque Nacional Encontro das Águas, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA "Le Monde"

Às vezes, as equipes ainda conseguem capturar e resgatar um animal ferido. “Usamos zarabatanas e flechas embebidas em tranquilizante. Mas isso também é muito complicado ”, continua Luciana. O jaguar, nadador experiente, pode, após ser atingido por uma dessas flechas, mergulhar em um rio para fugir e se afogar, com os músculos paralisados %u20B%u20Bpelo sedativo.

Os raros animais sobreviventes são conduzidos a uma pequena estação de tratamento na entrada da Transpantaneira. Aqui, novamente, os meios são muito limitados: o local só pode acomodar um número pequeno de animais, colocados em um pequeno abrigo de concreto. No dia da nossa visita, um tuiuiú nervoso, com a asa quebrada, e um pequeno roedor, uma paca, queimada nas patas, dividiam o local. Os veterinários operam ali com os meios disponíveis, à luz de uma lâmpada de mesa e sobre uma toalha suja. “Os animais estão traumatizados, muito estressados. É comum eles morrerem depois de serem trazidos para cá ”, admite Luciana Cataldi.

Voluntários vêm em auxílio do jabiru americano, grande ave pernalta às vezes chamada de tuiuiú, símbolo do Pantanal. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

No entanto, há um animal que tem resistido ao fogo melhor do que outros: a vaca de pelo branco, cujas dezenas de milhares de cabeças ainda pastam pacificamente nas vastas planícies úmidas do Pantanal. Como se nada tivesse acontecido.

“A responsabilidade dos agricultores! "

Segundo as ONGs, isso está longe de ser um acaso: “Este desastre é antes de mais nada o resultado da ação humana e a responsabilidade dos agricultores é óbvia! ", Denuncia Alcides Faria, biólogo e diretor da organização ambientalista Ecoa.

Quatis, pequenos mamíferos próximos a guaxinins, em busca de alimento em área queimada do Pantanal, Brasil. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

“Todos os estudos mostram que esses incêndios começaram com queimadas [derrubadas de árvores pelo fogo] em várias fazendas próximas a Poconé”, continua, lembrando que “todos os dias, 70 km2 a 80 km2 de floresta pantaneira são devastados pelos criadores ”, ajudando a secar um pouco mais o solo.

Acusações rejeitadas em bloco pelos fazendeiros locais - os pantaneiros -, que apontam em primeiro lugar para a seca histórica em curso, provável consequência do aquecimento global. Durante a última estação chuvosa, entre outubro de 2019 e março de 2020, o nível de precipitação no Pantanal caiu 40% em relação à média. Como resultado, o rio Paraguai, principal "torneira" e fonte de água do grande pântano, secou repentinamente. Em junho, atingiu seu nível mais baixo em cinco décadas: 2,1 metros de profundidade, em comparação aos 5,6 metros ou mais usuais.

Uma área queimada ao longo da Transpantaneira, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA para "Le Monde"

“Não temos nada a ver com este drama! “, Insiste Arlindo Moraes, um forte e bronzeado dirigente do sindicato rural da região, que nos recebe em suas instalações em Poconé, cuidadosamente pintadas de verde. “O fazendeiro pantaneiro ama a natureza, ele a protege. Sua maior felicidade é ouvir o canto dos pássaros no início da manhã! “, explica ele, culpando os ambientalistas. “O boi é um bombeiro natural, limpa o solo de ervas daninhas, evita o acúmulo de biomassa, usada como combustível para incêndios. Ao contrário do que dizem as ONGs, esta região precisa de mais gado! "

O drama parece resultar de uma série de fatores. Mas se há um culpado quase unanimemente indicado, esse é o presidente Jair Bolsonaro. “O governo não tomou medidas preventivas para se antecipar aos incêndios e encerrou as operações de fiscalização dos órgãos ambientais, que intimidavam os agricultores”, lembra o biólogo Alcides Faria. Cientistas também apontam para o papel do desmatamento na Amazônia, incentivado pelo governo atual. Isso teria um impacto significativo no ciclo das chuvas no Brasil, em particular no centro e no sul do país.

Com o presidente Bolsonaro instalado firmemente no poder e a continuidade das mudanças climáticas, as perspectivas são sombrias para o Pantanal. “Vai demorar muito para a natureza se regenerar, não apenas dois ou três anos”, explica o guia Ailton Lara. Não tenho certeza se os pantaneiros vão esperar tanto tempo. “Para sobreviver ao declínio do turismo, as pessoas provavelmente se voltarão ainda mais para a pecuária. O desmatamento e as queimadas devem aumentar ... "Um círculo vicioso que pode transformar a região em deserto.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Aluisio Schumacher



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