Mãe Terra

O desmatamento da Amazônia no Brasil ameaça o acordo Mercosul-União Européia

O plano de Bolsonaro de desenvolver a Amazônia está munindo os opositores europeus ao acordo comercial

20/08/2019 16:25

Desmatamento no Brasil acelerou no governo de Jair Bolsonaro, colocando em risco o recente acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul (Eraldo Peres/AP)

Créditos da foto: Desmatamento no Brasil acelerou no governo de Jair Bolsonaro, colocando em risco o recente acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul (Eraldo Peres/AP)

 

O recuo do Brasil na conservação da Amazônia sob o comando do presidente de direita, Jair Bolsonaro, e um provável retorno Peronista ao poder na Argentina, poderiam atrasar ou até descarrilhar a ratificação do acordo comercial Mersocul-União Europeia que levou duas décadas para ser negociado.

O desmatamento aumentou desde a eleição de Bolsonaro no ano passado. Seus planos de desenvolver a Amazônia e ações para enfraquecer a proteção da floresta têm alarmado ambientalistas e dado munição à opositores europeus ao acordo comercial com o mercado comum da América do Sul.

Dois ex-ministros do Meio Ambiente, Jose Sarney Filho e Izabella Teixeira, disseram que Bolsonaro rapidamente abalou a reputação brasileira de produtor alimentício responsável e de líder em fóruns ambientais mundiais.

“Ninguém imaginou que ele iria desmantelar os mecanismos brasileiros de controle de proteção ao meio ambiente tão rapidamente e efetivamente”, disse Sarney em uma entrevista.

Ele disse que Bolsonaro deliberadamente desmoralizou agências ambientais e concedeu incentivos à mineradores para cortarem árvores e invadirem reservas indígenas.

O gabinete da presidência não respondeu prontamente aos nossos pedidos de comentários.

Sarney apontou para um “alto risco” de que alguns membros do parlamento da União Europeia, particularmente em grandes países rurais como França, não ratifiquem o acordo concluído mês passado com o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

O presidente francês Emmanuel Macron alertou, em junho, que não assinaria o pacto se Bolsonaro tirasse o Brasil do Acordo de Paris.

Entre tensão profundas com a França sobre políticas de mudança climática e sobre o meio-ambiente, Bolsonaro repentinamente cancelou uma reunião com o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, em 29 de julho, e foi cortar o cabelo.

A Alemanha e a Noruega suspenderam doações à um fundo de $1 bilhão para apoiar projetos sustentáveis na Amazônia depois que o governo encerrou o comitê que seleciona os projetos e planejou usar o dinheiro para compensar fazendeiros que tinham terras expropriadas em áreas protegidas.

Bolsonaro, um nacionalista que já atacou a interferência estrangeira na Amazônia, replicou que o Brasil não tem nada a aprender com as nações europeias e que não precisa do dinheiro delas. Ele disse que os fundos deveriam ser usados para reflorestar a Alemanha.

Diplomatas e analistas europeus disseram que a posição de Bolsonaro sobre a Amazônia irá incitar oposição ao acordo do Mercosul, que já vem sofrendo protestos.

“Temos um presidente que está, basicamente, torpedeando esse acordo, não somente com sua política ambiental mas também com o modo como a apresenta para o mundo”, disse Oliver Stuenkel, expert em relações internacionais da FGV de São Paulo.

“Há um crescente número de vozes, particularmente na França e na Alemanha, dizendo que, ao menos que essa política mude, a UE não deveria ratificar esse acordo”, disse Stuenkel.

O agronegócio preocupado

O desmatamento no Brasil mais que triplicou em julho em relação ao ano passado, mostram dados do INPE. Bolsonaro atacou os dados como enganadores e demitiu o presidente da agência.

O poderoso setor do agronegócio brasileiro, que conseguiu convencer Bolsonaro a não sair do Acordo de Paris, está preocupado que sua posição sobre a Amazônia possa levar a um boicote contra suas exportações.

O magnata, fazendeiro e ex-ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse ao Valor Econômico que os discursos agressivos de Bolsonaro sobre o meio-ambiente poderiam afundar o acordo EU-Mercosul e destruir anos de trabalho para conseguir o selo de sustentabilidade às exportações alimentícias.

Walter Schalka, chefe executivo da Suzano Papel e Celulose SA, alertou os líderes do agronegócio a falarem contra o aumento do desmatamento na Amazônia.

“O Brasil terá que provar que consegue produzir seus produtos de maneira sustentável, sem somar ao desmatamento”, disse a ex-ministra Teixeira à Reuters. “Hoje, os países estão questionando a credibilidade brasileira.”

As primárias na Argentina colocam o acordo UE-Mercosul sob uma nova nuvem de incertezas enquanto o candidato peronista Alberto Fernandez surgiu como favorito a vencer a eleição presidencial em outubro.

Ele já disse que quer renegociar partes do acordo comercial que não se adequam à Argentina. Isso poderia desfazer o acordo tendo em vista a grande resistência na Europa.

“Se Fernandez for eleito e quiser renegociar partes do acordo, teria de ser reaberto inteiramente. Voltaríamos à estaca zero”, disse um diplomata europeu no Brasil em condição de anonimato.

Enquanto Fernandez é um peronista moderado, sua colega de corrida é a ex-presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner, uma protecionista que não é fã do acordo com a UE.

“A pressão sobre ele de não somente aceitar e acenar nesse acordo é bem significante”, disse Stuenkel.

O ministro das Relações Exteriores brasileiro se recusou a comentar sobre as perspectivas desse acordo caso Fernandez ganhe.

Marcos Troyjo, secretário do Comércio Exterior, defendeu a política brasileira na Amazônia , dizendo, “a política ambiental desse governo é o uso inteligente dos recursos naturais do nosso país”.

*Publicado originalmente no AlJazeera | Tradução de Isabela Palhares

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