Mãe Terra

O povo da queixada, no coração da Amazônia

14/06/2012 00:00

Biraci Júnior Yawanawa (Foto de Marcos Lopes/Divulgação)

Créditos da foto: Biraci Júnior Yawanawa (Foto de Marcos Lopes/Divulgação)
Rio de Janeiro - Na abertura da Rio+20, uma mostra de fotografia, de Marcos Lopes, conta a história do povo Yawanawa, do Acre, vivem numa reserva cortada pelo rio Gregório, quase na fronteira com o Peru. Ao lado de outro povo indígena, Hyuniki, ambos lutando para conservar a sua identidade cultural, seus costumes, sua espiritualidade, e a floresta que os mantém vivos e lúcidos há séculos. A Rio+20 também será a sede da Cúpula dos Povos Indígenas, concentrados a 5 km do Riocentro, onde as delegações de quase 200 países tentaram dar uma cara nova para a tal sustentabilidade do planeta. São esperados 600 representantes, incluindo canadenses e os representantes da cordilheira dos Andes, do Equador à Argentina.

A Conferência é um retrato do mundo atual, com suas tecnologias e interesses, suas políticas e seus mais de mil eventos. Nesse contexto que encontramos personagens reais, com suas histórias, como a Page Putãnny, Yawanawa, mulher do cacique Biraci, um líder que reconstruiu a vida de seu povo nos últimos vinte anos, convivendo desde muito cedo com Chico Mendes, Marina Silva e outros personagens da política ambiental e da luta pala preservação da floresta e seus habitantes seculares.

Antes da Eco 92, Biraci travou uma guerra sem medir conseqüências, expulsando uma missão americana da aldeia, norte-americanos travestidos numa entidade evangélica chamada Novas Tribos do Brasil, muito interessado em levantar os recursos minerais e florestais dos povos indígenas em suas reservas. Quase foi preso pela Polícia Federal, na época. Conseguiu com o tempo comprovar que estava certo. Os yawanawa deixaram de ser escravos modernos dos seringalistas, que mantinham a exploração da borracha nos limites da reserva, do outro lado do rio Gregório. Na verdade, a reserva não estava demarcada.

Vinte anos depois eles conseguiram demarcar, na primeira etapa 93 mil hectares, e logo em seguida, chegaram a 213 mil hectares, uma titulação só reconhecida pelo governo estadual. E aqui entra um outro personagem: Biraci Brasil Jr Isso kA, filho do cacique e que tinha um ano na Eco 92. Agora aos 21, está na Rio+20. Se prepara para assumir a posição de Page, junto com outros quatro jovens da mesma idade. A preparação dura um ano. E assumir esta condição não é apenas cumprir com desígnios espirituais. É muito mais que isso.

- “Decidimos desde o início que tínhamos que mostrar que precisávamos encarar a realidade, manter a história dos antepassados, os conhecimentos da floresta, das plantas medicinais, do nosso rapé, feito com a caca da Tsunin junto com tabaco, um costume tradicional”, diz Biraci Brasil.

Muito mais expressiva será a sua participação, junto com o pai, na cúpula dos povos indígenas, porque, continua ele analisando, precisamos saber se 20 anos depois não teríamos que estar mais unidos para lutar pela posse da terra e enfrentar tantos problemas conhecidos da realidade amazônica.

- “O momento é de abrir a boca. Nós continuamos enfrentado as tentativas de invasão contra nossa reserva, como agora, que parece que descobriram gás na região e as petrolíferas estão interessadas, inclusive a Petrobras. Desde que aconteceu esse fato não conseguimos avançar mais na homologação da nossa reserva. Está trancada em Brasília. Não queremos saber de exploração de petróleo na nossa terra, mesmo que ofereçam compensações”.

A vida do indiozinho Yawanawa, que recém dava os primeiros passos pelas matas e águas do rio Gregório, há mais ou menos 5 horas de barco, na época das cheias, depois de andar outras três horas de carro pela BR-364, quase na fronteira com o Peru, comprova a possibilidade de transformação. Não é somente a luta pela preservação da floresta, é pela identidade de um povo muito antigo, o povo da queixada. A queixada, explica a pagé Putãnny, é um animal que não abandona ninguém, andam sempre em grupo, tem um líder, são fortes e nós observamos cada passo que eles dão na mata.

Mas não pensem que os Yawanawa estão apenas desfilando seus cocares, e suas pinturas de urucum, o vermelho mais tradicional do Brasil. Eles avançaram. Fizeram intercâmbio com seus vizinhos, por intermédio do Festiva Yawa, onde todos dançam, cantam e refazem as trilhas dos antepassados, seguem seus rastros pela floresta. Este ano, inauguraram uma escola de ensino médio dentro da aldeia. Quatro deles já completaram cursos na universidade de Rio Branco ee em Cruzeiro do Sul- formados em matemática, biologia e história, além de duas índias que estão há quatro anos em Cuba, estudando Medicina. O projeto é manter um posto de saúde na reserva.

Outros quatro Yawanawa visitarão o povo Maputi, no Chile. Faz parte do intercâmbio. Vários povos já participaram do festival cultural – está na 11ª edição, ocorre em outubro de 25 a 30.

Inclusive os Dakotas dos Estados Unidos. Fortalecer os povos, abrir a boca, esta a mensagem do Yawanawa. O resto é conferir na exposição do Galpão da Cidadania, um prédio muito bem recuperado, perto do porto carioca. Aliás, Kari-oca, quer dizer casa dos brancos em tupi guarani.

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