Mãe Terra

O presente que devemos dar ao mundo dos vivos? Tempo, muito tempo

Plantar 10 mudas não substitui um velho carvalho retorcido. 'Ecologia lenta' é a única maneira de preservar e restaurar habitats antigos

09/08/2021 17:13

Wistman's Wood, Dartmoor National Park, onde muitos carvalhos têm mais de 500 anos. (ASC Photography/Alamy)

Créditos da foto: Wistman's Wood, Dartmoor National Park, onde muitos carvalhos têm mais de 500 anos. (ASC Photography/Alamy)

 

Temos um movimento por "comida lenta" e outro por "viagem lenta". Mas estamos perdendo algo e sua ausência contribui para a escalada da nossa crise. Precisamos de um movimento “ecológico lento” e temos urgência dele.

A maioria das espécies do mundo não pode resistir a nenhuma interdição significativa de seu habitat pelos humanos. Ecossistemas saudáveis dependem, em grande parte, de lugares antigos e rugosos, que podem levar séculos para se desenvolver, e são ricos no que os ecologistas chamam de “heterogeneidade espacial”: arquitetura natural complexa.

Eles precisam, por exemplo, de árvores gigantes, cujas entranhas nodosas estão rachadas e apodrecidas; grandes recifes de coral ou ostras ou vermes do favo de mel; rios trançados e sinuosos cheios de obstáculos e barragens de castores; solos não perturbados alargados por raízes e buracos. A perda desses antigos habitats é um dos fatores que impulsionam a mudança global de criaturas grandes e de crescimento lento para espécies pequenas e de vida curta, capazes de sobreviver aos nossos ataques. A ecologia lenta protegeria e criaria nossos futuros habitats antigos.

No momento, estamos indo na direção oposta. Bobagens egoístas inventadas por governos e seus conselheiros, como “contabilidade do capital natural” e “ganho líquido de biodiversidade” tratam um habitat ou característica como intercambiável. Não lamente o velho carvalho retorcido que estamos derrubando: em seu lugar, plantaremos 10 mudas de cercado de coelho de plástico. Então, vamos chamar isso “ganho líquido”.

Mas não há substituto para uma árvore antiga, ou para qualquer outra coisa antiga. Árvores grandes e antigas são as “estruturas fundamentais” das florestas, das quais dependem muitas outras espécies. As mesmas árvores que os silvicultores tendem a eliminar - bifurcadas, retorcidas, atingidas por um raio, podres, mortas - são aquelas que abrigam mais vida. Por exemplo, uma única espécie de fungo braquete, que cresce em galhos podres (sela de Dríades), abriga 246 espécies de besouro.

Os morcegos abrigam-se em fendas no tronco. As forquilhas contêm pequenas poças de água ou bolsões de terra. Ferimentos ásperos onde galhos foram cortados, rebarbas e excrescências, arranhões por onde borbulham resina, hera, trepadeiras, líquenes e musgos, emaranhados de galhos e ninhos abandonados, pedaços descascados e cicatrizes de fogo são todos habitats cruciais da vida selvagem. Mas as características mais importantes das árvores antigas - e de muitos outros habitats - são os buracos.

Entre 10% e 40% dos pássaros e mamíferos florestais do mundo precisam de buracos nas árvores para fazer seus ninhos ou se empoleirar. Muitos outros animais - anfíbios, répteis, invertebrados - dependem deles. Mas essas espécies sofrem de um vazio de vazios, de uma ausência de ausências.

Os buracos assumem muitas formas: troncos ocos ou galhos, galerias exploradas por insetos, cavidades feitas por pica-paus. Os pica-paus são espécies-chave, cujos túneis abrigam outras aves e mamíferos que nidificam. Eles parecem espalhar esporos de fungos em seus bicos da mesma forma que as abelhas espalham pólen, e isso ajuda a criar a madeira macia na qual podem perfurar. As árvores de que precisam são grandes, velhas e podres.

Mas, em quase todos os lugares, árvores como essa estão desaparecendo. Pesquisas na Polônia, França, Escandinávia, Bálcãs e Cárpatos mostram que as florestas não administradas por pessoas têm um número muito maior de características cruciais do que mesmo aquelas cujas árvores são colhidas da maneira mais sensível. Na França, por exemplo, o número de forquilhas quebradas aumentou quase 300% nos 50 anos desde a última limpeza de florestas e os buracos feitos por pica-paus em 500%.

Um estudo na Austrália mostrou que, após um grande incêndio florestal, a grande maioria das árvores com buracos foi destruída. Levará até 120 anos sem novas perturbações para que sua complexidade ecológica total se recupere.

Nossa ideia de tentar organizar a floresta e nosso hábito de tratar as árvores como intercambiáveis são devastadores para a vida selvagem. “Substituir” uma velha árvore não faz mais sentido do que substituir um antigo mestre. O mesmo se aplica a todos os ecossistemas. Quando uma rede de arrastão remexe estruturas biológicas no fundo do mar, elas podem levar centenas de anos para se recuperar totalmente. Quando um rio é dragado e retificado, torna-se, em comparação com o que era, uma concha vazia.

Então, como seria um movimento ecológico lento? Como Henry David Thoreau disse, somos ricos em proporção ao número de coisas que podemos deixar de lado. Na medida do possível, devemos permitir que nossas complexas arquiteturas naturais se recuperem. Isso significa manter os arrastões fora de todos os lugares ridiculamente listados como “áreas marinhas protegidas”, a maioria dos quais nada mais são do que linhas no mapa. Isso significaria, nas reservas naturais, menos dependência do pastoreio do gado, que tende a manter os sistemas vivos em um estado de desenvolvimento interrompido. Significaria deixar os rios correrem livremente.

Sempre que possível, devemos permitir que as árvores mortas por fungos (como a chalaropse) e outras doenças permaneçam de pé. Se tem algo de bom no ataque dessas pragas, pode ser um aumento na quantidade de madeira morta em pé e caída, ambos habitats cruciais. A remoção de árvores mortas ou moribundas - é uma das atividades humanas mais prejudiciais. Talvez também signifique uma ordem de preservação geral para todas as árvores, vivas ou mortas, com mais de 100 anos: a necessidade de permissão expressa para derrubar uma. Isso significaria um respeito novo e mais profundo pelos entrelaçamentos da natureza.

Precisamos criar hoje os ecossistemas serrilhados e rugosos que somente nossos netos verão. Restaurar o mundo dos vivos significa restaurar a complexidade que leva anos para se desenvolver. Então é hora de começar.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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