Mãe Terra

O último canudo: chegou a hora de aposentar os tubinhos de plástico?

Estima-se que oito milhões de toneladas de plástico cheguem aos oceanos a cada ano. Nesse ritmo, haverá mais plástico do que peixes nos oceanos em 2050

02/02/2018 09:21

 

Jacopo Prisco, CNN

Todos os dias, os americanos jogam fora 500 milhões de canudos de plástico – o suficiente para dar duas voltas na Terra ou encher 125 ônibus.

Isso significa que um americano médio vai usar mais de 35 mil canudos durante a vida. Há quem ache que o número seja subestimado, de acordo com o ator Adrian Grenier, da ONG Lonely Whale, criadora da campanha Strawless Ocean (oceano sem canudos).

"Numa estimativa conservadora, pode-se dizer que os americanos vão usar, em média, dois canudos de plástico por dia, então 500 milhões são um cálculo preciso. Meu desafio é começar a prestar atenção nos canudos que vêm com cada suco, refrigerante, café gelado e coquetel. Quando estou em Nova York ou Los Angeles, recebo cerca de 10 canudos por dia", conta o ator.

No mundo todo, os canudos de plástico são o sexto tipo mais comum de lixo, de acordo com o Litterati, aplicativo que identifica e mapeia o lixo, e estão entre os 10 principais itens de lixo marinho, de acordo com o grupo de defesa ambiental Ocean Conservacy.
Feitos a partir de combustíveis fósseis, quase nunca são reciclados por serem muito pequenos e compostos de vários tipos de plástico. Resultado: ao serem descartados, simplesmente contribuem para o enorme problema da poluição causada por todo tipo de plástico; estima-se que oito milhões de toneladas de plástico sejam lançadas nos oceanos por ano.

Torná-lo opcional

Os canudos de plástico são hoje alvo de um movimento crescente que visa a reduzir o seu uso. A primeira campanha foi, provavelmente, Be Straw Free (Livre-se do canudo), iniciada em 2011 por Milo Cress, que tinha apenas nove anos de idade na época. "Percebi que sempre que pedia uma bebida em um restaurante, geralmente viria com um canudo, mas eu geralmente não preciso de canudo", ele conta.

"Achei um grande desperdício. Os canudos são feitas de petróleo, um recurso caro e finito. Será que fazer canudos plásticos descartáveis, que serão usados por alguns minutos antes de serem jogados no lixo, é realmente um bom uso desse recurso?", pergunta Milo.

O menino começou a pedir que os restaurantes de Burlington, Vermont, onde morava na época, parassem de dar os canudos de forma automática aos clientes, tornando-os opcionais. Muitos concordaram e seu pedido reverberou em todo o país. Segundo Milo, os restaurantes que perguntam aos clientes se querem ou não canudos conseguem reduzir o seu uso entre 50% e 80%.

Canudos de plástico podem parecer um problema menor, mas, de acordo com Grenier, podem ajudar a resolver problemas maiores. "Um canudo pode parecer pouca coisa, mas carrega o DNA da falta de cuidado e pode ser uma chave para resolver o problema muito maior e mais geral da poluição por plásticos. Todos nós, não importa onde se viva, nem quanto dinheiro se ganhe, todos utilizamos canudos. Falar disso é uma oportunidade para começar uma conversa”.

Grenier lançou a campanha #stopsucking (que pode ser traduzida como #paredesugar ou #paredechupar, mas faz também um trocadilho, já que o verbo to suck também significa ser ruim, desagradável), cujo vídeo mostra um tentáculo de polvo gigante tirando canudos das bocas de pessoas famosas, desde o físico Neil DeGrasse Tyson à modelo Brooklyn Decker.

A abordagem leve é uma estratégia deliberada. "A destruição ambiental é um tema muito desanimador e encarar essa realidade pode levar a uma apatia que acaba não produzindo mudanças", afirma o ator. "Por isso a ideia de um movimento que seja positivo e leve. Está funcionando. A campanha Strawless In Seattle é a prova".

Essa campanha ajudou Seattle a deixar de usar 2,3 milhões de canudos de plástico em cerca de três meses, ao estimular empresas e restaurantes a optar por canudos biodegradáveis de papel. No fim deste ano, a cidade vai proibir oficialmente o uso de canudos, entre outros utensílios de plástico.

Alternativas melhores

O sentimento anticanudinho chegou também ao Reino Unido, onde os canudos foram incluídos em um plano do governo para acabar com os resíduos plásticos até 2042. No ano passado, a cadeia de pubs Wetherspoons anunciou que substituiria os canudos de plástico pela alternativa em papel em seus mais de 900 pontos de venda. Após o anúncio, muitas cadeias e pubs menores do país seguiram o exemplo. De acordo com o diretor do Wetherspoons, John Hutson, a mudança vai evitar o uso de 70 milhões de canudos de plástico por ano, e a reação dos clientes tem sido "muito positiva".

Oferecer alternativas ou tornar os canudos plásticos opcionais, em vez de proibi-los, é uma característica comum das campanhas. "Não queremos que as pessoas se sintam mal porque precisam ou mesmo querem usar um canudo", explica Jackie Nunez, fundadora da The Last Plastic Straw.

"Há muitas alternativas viáveis aos canudos de plástico descartáveis que são menos nocivas ao meio ambiente, à vida selvagem e aos seres humanos", lembra.

Algumas pessoas usam canudos para reduzir os danos aos dentes de bebidas açucaradas ou ácidas, ou por necessidades especiais. "Há pessoas com deficiência que me escrevem para contar que usam canudos reutilizáveis – muitos canudos reutilizáveis vêm com um recipiente para proteção", diz Milo Cress. “Há canudos reutilizáveis de vidro, aço inoxidável, cobre, bambu e vários outros materiais”.

Ao não demonizar o canudo como objeto, ele acha que os ativistas podem ser mais eficazes. "Não quero proibir os canudos. Acho muito mais eficaz estimular as pessoas a escolher não usá-los. A participação voluntária estimula as pessoas a compartilhar seu ponto de vista. Forçar as pessoas a fazer algo nem sempre é a maneira mais eficaz de promover uma mudança".

Tradução de Clarisse Meireles
 



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