Mãe Terra

Oleoduto na Baixada Fluminense recebe monitoramento ecológico

08/10/2004 00:00

Rio de Janeiro – No Brasil de hoje, as discussões entre os que defendem a necessidade de ampliação da capacidade de infra-estrutura do setor energético para alavancar o crescimento econômico e os que manifestam preocupações quanto às agressões que um crescimento desordenado pode trazer ao meio ambiente vêm ganhando corpo na sociedade e também no âmbito do poder público. Exemplo interessante para ajudar quem queira entrar nessa discussão, uma iniciativa na Baixada Fluminense demonstra que governo, academia, indústria e terceiro setor podem trabalhar em parceria para desenvolver maneiras de lidar corretamente com os impactos trazidos pela ampliação da infra-estrutura energética ao meio ambiente e à vida das populações das áreas tocadas.

Dentro da Reserva Biológica do Tinguá, no município de Nova Iguaçu, um projeto de levantamento e estudo ecológico da flora ao longo do oleoduto da Petrobras que corta a reserva está sendo realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), órgão que é diretamente ligado ao Ministério do Meio Ambiente. Apoiados por recursos financeiros da própria Petrobras, os pesquisadores realizam ainda um estudo específico sobre o efeito de borda causado pelo duto na vegetação de Mata Atlântica da reserva. O projeto faz parte do Programa Mata Atlântica, desenvolvido em convênio pela empresa e pelo instituto de pesquisas desde 1989 e que inclui diversos outros projetos em outras áreas cobertas por esse bioma.

Coordenador do Programa Mata Atlântica há dois anos e entusiasta do projeto de monitoramento ao longo do oleoduto no Tinguá, Pablo Pena Rodrigues afirma que o estudo é importante porque a faixa de floresta cortada pelo duto apresenta “a grande riqueza e diversidade biológica típica da Mata Atlântica”. Ele lembra que, no caso de um oleoduto, o efeito de borda – que é o processo de mudança, adaptação ou degradação das faixas de floresta que fazem interface com uma área desmatada – acontece de maneira diferenciada do normalmente observado em campos ou canaviais: “Por se tratar de um corte na mata diferente, não tão intenso, o efeito de borda do duto causa algumas mudanças bem peculiares, como a diminuição de porte de algumas espécies da flora ou o desaparecimento de outras”, explica Rodrigues.

Entender essas peculiaridades da mata, segundo Rodrigues, é fundamental para a elaboração de planos de ação, recuperação ou minimização de desgastes em caso de um eventual acidente ambiental com o duto dentro da reserva. “Como se trata de uma faixa de floresta com potencial risco ambiental, é fundamental saber como a natureza se comporta ali”, afirma.

O projeto de monitoramento ecológico do oleoduto do Tinguá tem uma face acadêmica, também desenvolvida pelo JBRJ, através da Escola Nacional de Botânica Tropical (ENBT). Acompanhando de perto o projeto, alguns alunos da pós-graduação já desenvolveram teses e monografias sobre o tema. Interessada em consolidar uma base científica que garanta o maior grau possível de segurança ambiental em suas atividades, a Petrobras também dá apoio aos alunos da ENBT, através da concessão de bolsas de estudo no âmbito do Programa Mata Atlântica.

Corredor ecológico
Uma outra parceria – dessa vez entre a Petrobras e a Prefeitura de Paracambi, cidade vizinha à Nova Iguaçu – fez com que o trabalho ao longo do oleoduto se estendesse também para o lado de fora da reserva do Tinguá. O secretário de Meio Ambiente de Paracambi, Hélio Vanderlei, conta que desde o início de 2003 realiza, com o apoio da empresa, um projeto de criação de um corredor ecológico de Mata Atlântica na chamada “área não edificante” do duto, que corresponde a uma faixa de 15 metros para cada lado ao longo de toda a canalização.

“Essas áreas muitas vezes são ocupadas por favelas ou por outras construções irregulares. Quando isso acontece, a Petrobras não tem poder de tirar as pessoas e é obrigada a recorrer às prefeituras. Aqui em Paracambi, encontramos uma solução conjunta que atende aos interesses da empresa, da administração municipal e, sobretudo, do meio ambiente”, afirma o secretário. Vanderlei conta que, no trecho de 600 metros ao longo do duto onde a criação do corredor ecológico foi realizada inicialmente, já podem ser vistas árvores com “dois metros e vinte de altura”.

Numa outra iniciativa, a ONG Onda Verde realiza em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) um programa de agroecologia junto a dez agricultores que têm propriedades ao longo do oleoduto da Petrobras. Além de dar aos agricultores instruções sobre segurança ambiental e sobre como agir em casos de acidente, os executores do programa desenvolvem projetos de criação de hortaliças, frutas cítricas, peixes, caprinos e suínos. “Esses proprietários rurais estão aprendendo a ver que a área do duto pode ser incorporada na produção”, avalia Hélio Vanderlei.



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