Mãe Terra

Os bilhões de Joe Biden não vão impedir Bolsonaro de destruir a floresta Amazônica

Fundos oferecidos para persuadir o desastroso governo brasileiro a parar com o desmatamento são bem intencionados, mas mal calculados

23/04/2021 13:31

O governo de Jair Bolsonaro transformou o Brasil em um pária ambiental, o maior destruidor de florestas tropicais do mundo (Brasil2/Getty Images)

Créditos da foto: O governo de Jair Bolsonaro transformou o Brasil em um pária ambiental, o maior destruidor de florestas tropicais do mundo (Brasil2/Getty Images)

 
Ainda como candidato, Joe Biden alimentou as esperanças do mundo quando comprometeu os EUA a voltarem ao Acordo de Paris, confrontando o negacionismo climático do seu opositor e assinalando que ele estava pronto para tratar a crise climática como uma prioridade estratégica. Até agora, essa esperança se tornou certeza – e alívio para aqueles de nós que estão lutando para encontrar soluções estruturais e globais para a crise.

Para o governo brasileiro, presidido pelo cético descrente da mudança climática Jair Bolsonaro, a promessa de retorno ao Acordo de Paris soou como uma ameaça, ainda mais porque foi seguida de uma promessa feita durante os debates para mobilizar 20 bilhões de dólares em fundos internacionais para florestas tropicais – incluindo o Brasil – para parar com a destruição da Amazônia. Bolsonaro reagiu chamando os planos de “ameaças covardes”.

Ano passado, Biden pode não ter estado totalmente a par do quanto o atual governo brasileiro transformou o país em um pária ambiental, o maior destruidor global de florestas tropicais e a principal ameaça ao equilíbrio climático global já muito debilitado. Agora, enquanto acontece a cúpula climática de Biden, ele estará totalmente informado e repetidamente alertado sobre os riscos de fazer acordos que possam fortalecer o governo de Bolsonaro e permitir que avance cada vez mais com suas políticas destrutivas.

Ainda assim, a administração Biden, junto com ministros da Europa e Grã-Bretanha, vem negociando nas últimas semanas um acordo com o governo brasileiro. Por todo o falatório sobre ameaças covardes, Ricardo Salles, ministro do Meio-Ambiente de Bolsonaro, está pedindo um financiamento anual de 1 bilhão de dólares – em troca, segundo ele, o desmatamento será reduzido entre 30 e 40%. Existem preocupações de que parte desse fundo possa ser canalizado para os próprios posseiros que estão por trás da destruição da Amazônia.

Nosso alerta é baseado no seguinte fato: o desmatamento na Amazônia Brasileira não é resultado de falta de dinheiro, mas sim uma consequência de uma falta de cuidado deliberada do governo.

O recebimento de fundos internacionais para implementar medidas protetivas e o uso sustentável da floresta é uma transação normal e necessária. O Fundo Amazônico é o exemplo mais celebrado: operou com recursos alemães e noruegueses até recentemente quando, para o horror do mundo, foi desativado pelo ministério brasileiro do Meio-Ambiente. O governo tomou a decisão de descontinuar o fundo, que ainda tinha cerca de 500 milhões de dólares em doações futuras, porque queria restringir o uso do dinheiro.

Reduzir emissões de gases do efeito estufa nunca foi uma prioridade para o governo brasileiro. Como exemplo temos o fundo climático, que usou cerca de 100.000 dólares para medidas sanitárias ao invés de usá-los para a mitigação das emissões nacionais de carbono. É claro, a sanitarização é essencial para a saúde e bem-estar das nossas cidades, mas está longe de ser uma fonte significativa de emissões. O governo também cortou o orçamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o departamento dentro do ministério do Meio-Ambiente responsável pelo monitoramento do desmatamento. Na primeira metade de 2019, 2.2 milhões de libras esterlinas foram destinadas para inspeções; ano passado, o montante era de 700.000 libras esterlinas.

O que falta ao governo não é dinheiro, mas um comprometimento com a verdade. Negou a existência de incêndios na Amazônia enquanto as chamas estavam acesas e queimando. O noticiário brasileiro está saturado com escândalos que mostram ações governamentais persistentes para enfraquecer órgãos ambientais, anular leis e ignorar acordos internacionais. Dois anos atrás, demitiram o chefe do INPE – Instituto Nacional de Pesquisa Espacial – simplesmente por ter juntado dados sobre o aumento do desmatamento. Semana passada, demitiram o diretor-geral da Polícia Federal, que conduziu a maior investigação sobre extração ilegal de madeira na história da Amazônia. Substituiram servidores civis experientes por indivíduos sem nenhuma experiencia florestal em diversos departamentos, e pretendem efetivamente fechar a ICMBio, a principal instituição brasileira dedicada à proteção de reservas naturais.

Selar um acordo de um bilhão de dólares com o governo de Bolsonaro nesse momento crucial somente fortalecerá sua determinação: será um estímulo para os fazendeiros e posseiros que ocuparam ilegalmente florestas públicas e territórios indígenas e enviará precisamente uma mensagem contrária à necessidade atual desse ano que é crucial para o clima.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares





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