Mãe Terra

Para evitar a próxima pandemia, precisamos de uma supervisão expressiva do agronegócio animal

Devemos agir agora para proteger os animais, trabalhadores e a saúde pública contra a indústria da carne

12/05/2020 18:16

O vasto número de animais amontoados, estressados em cativeiro nas fazendas industriais dos EUA representam amplas oportunidades para os patógenos praticarem a disseminação direta de animal para animal, e indireta por meio de moscas, roedores, adubos e trabalhadores que se movimentam entre um celeiro e outro (CC)

Créditos da foto: O vasto número de animais amontoados, estressados em cativeiro nas fazendas industriais dos EUA representam amplas oportunidades para os patógenos praticarem a disseminação direta de animal para animal, e indireta por meio de moscas, roedores, adubos e trabalhadores que se movimentam entre um celeiro e outro (CC)

 
Estamos todos esperando que a atual crise de Covid-19 diminua em alguns meses: que tratamentos, testes e suprimentos fiquem disponíveis e o distanciamento social rígido possa ir diminuindo. Isso pode acontecer, mas a ameaça de uma nova pandemia – e uma ainda mais mortal – está presente agora. Devemos reconhecer e abordar a raíz dessa ameaça. Devemos reformar a indústria que está nos colocando em risco em nome do lucro: a agricultura animal industrial.

A OMS disse que o primeiro caso humano de SARS-Cov-2 provavelmente veio de um morcego, por meio de um intermediário animal não identificado e que foi manuseado por humanos. Um cenário provável para essa transmissão foi o “mercado molhado” na China, onde várias espécies de animais têm contato entre si e com os humanos que os matam. Fomos avisados sobre morcegos carregando a próxima pandemia de SARS em 2013.

Também fomos avisados sobre o risco que surtos de gripe aviária em bandos de aves de capoeira ao redor do mundo possuem para a próxima pandemia humana. Entre os mais preocupantes da influenza aviária está o H7N9, um patógeno com 40% de taxa de fatalidade. O vasto número de animais amontoados, estressados em cativeiro nas fazendas industriais dos EUA representam amplas oportunidades para os patógenos praticarem a disseminação direta de animal para animal, e indireta por meio de moscas, roedores, adubos e trabalhadores que se movimentam entre um celeiro e outro. É até possível que patógenos aerossolizados se espalhem entre celeiros a quilômetros de distância através do ar.

Seria de se esperar que uma indústria que apresenta tal potencial enorme de ameaça à saúde pública levasse a sério a responsabilidade da segurança alimentar. Mas não leva, e parece estar fazendo de tudo para demonstrar isso. Privatizar inspeções de segurança com o propósito de aumentar a velocidade nos matadouros tem sido um objetivo conjunto da indústria da carne e do Departamento de Agricultura por décadas, mesmo com o risco que isso impõe à segurança alimentar. Mesmo com uma maior velocidade na linha de abate tornando o processo mais difícil para os animais e trabalhadores, e criando mais carcaças para serem inspecionadas em menos tempo, a indústria insiste nisso em nome do lucro. Surpreendentemente, o Departamento de Agricultura está, nesse momento, aprovando linhas de abate mais rápidas.

No início do mês, foi concedida uma autorização de linha de abate rápida para a Foster Farms, que tem histórico de produzir frango contaminado por salmonela, associado a surtos em 29 estados. Desde a última sexta-feira, o Serviço de Inspeção de Segurança Alimentar não está mais distribuindo autorizações, porque eles estão propondo um aumento para todos os estabelecimentos. As linhas de abate rápidas são a razão pela qual trabalhadores nos matadouros não conseguem se distanciar socialmente no trabalho, tornando ainda mais perigoso um dos empregos mais prejudiciais e mal remunerados do país. O mínimo que deveríamos exigir da indústria e do departamento é que as linhas de abate rápidas sejam limitadas para permitir distâncias seguras entre os trabalhadores e inspeções de segurança completas das carcaças dos animais.

Se uma indústria da carne menor e mais devagar for um resultado dessa pandemia, não seria uma crise, seria o progresso. As vendas das alternativas à carne aumentaram 200% durante a pandemia. Isso só vai aumentar enquanto mais pessoas perceberem que a carne não é essencial. É esperado que doenças com origem animal como a Covid-19 conduzam um crescimento de 17% no mercado de carne de base vegetal entre agora e 2021.

Finalmente, devemos modernizar nosso sistema alimentar desmantelando a agricultura animal e transicionando para alternativas de carne limpa e de carne de base vegetal. Mas em curto prazo, a produção de carne não vai a lugar nenhum, e a indústria da carne demonstrou que não possui intenção de agir de maneira responsável quando o assunto são animais, trabalhadores ou saúde pública. Devemos ouvir os alertas dessa vez. Precisamos de uma supervisão adequada agora.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares



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