Mãe Terra

Pesquisadora canadense alerta que enviar bombardeiros de água para a Amazônia não resolverá os incêndios na floresta

 

03/09/2019 16:37

O agricultor brasileiro Aurelio Andrade percorre uma área queimada da floresta amazônica, perto de Porto Velho, Rondônia (Carl de Souza/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: O agricultor brasileiro Aurelio Andrade percorre uma área queimada da floresta amazônica, perto de Porto Velho, Rondônia (Carl de Souza/AFP/Getty Images)

 
Uma pesquisadora que passou décadas trabalhando na floresta amazônica com povos indígenas diz que enviar bombardeiros de água para o Brasil seria como um mero band-aid em face aos problemas sistêmicos.

Há pouco tempo, o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do país revelou que um total de 76.720 incêndios queimaram no país esse ano; um pouco mais da metade foi na região amazônica. O Instituto diz que não tem os números da área total queimada, mas que o desmatamento como um todo acelerou esse ano na Amazônia.

O primeiro-ministro francês Justin Trudeau prometeu $15 milhões e o uso de bombardeiros canadenses para ajudar a combater os incêndios contínuos.

Barbara Zimmerman é diretora do Projeto Kayapó do Fundo Internacional de Conservação do Canadá, uma entidade beneficente que procura preservar áreas de biodiversidade ao redor do mundo. Mesmo aplaudindo o anúncio do governo francês e seus esforços para atrair mais atenção aos incêndios na Amazônia, ela diz que as medidas são soluções de curto prazo.

“O problema todo é a falta de cumprimento da lei brasileira, e a não ser que isso mude, os incêndios acontecerão todos os anos”, disse Zimmerman.

Críticos como Zimmerman dizem que o grande número de incêndios foi alimentado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, que tem encorajado fazendeiros e madeireiros a depenarem a floresta. Tendo que lidar com pressão internacional, Bolsonaro, agora, prometeu proteger a área.

Os incêndios na floresta são, em sua maioria, causados pelo homem, disse Zimmerman, em contraste com os incêndios nas florestas canadenses, que são, em sua maioria, naturais durante as épocas secas. No ano passado, a Columbia Britânica viu mais de 2.100 incêndios queimarem 1.35 milhões de hectares de terra, um número record. A maioria foi iniciada por raios, mas quase um quarto foi iniciado pelo homem.

Na floresta amazônica, incêndios naturais são raros porque as árvores e vegetações detêm uma grande quantidade de “biomassa viva” ou água que diminui as chances de incêndios, mesmo em épocas secas, de acordo com Zimmerman.

“A ideia de enviar bombardeiros de água vem de uma experiência bem canadense, mas não é a experiência mais relevante no Brasil”, ela disse.

Baseado em sua experiência de apoio aos esforços dos bombeiros na Austrália, Blaine Wiggins, presidente da Associação Aborígene de Bombeiros do Canadá, disse que enviar bombardeiros de água pode aumentar os esforços em países que não têm robustos recursos de combate ao fogo.

“A maioria dos tanques aéreos não é necessariamente usada para apagar incêndios, mas somente para evitar o avanço do fogo de modo que a equipe no solo consiga assegurar o perímetro ... e uma vez com o controle, pode agir para extingui-lo”, disse Wiggins.

Aviões militares brasileiros começaram a despejar água nos incêndios no estado de Rondônia, e algumas centenas de tropas foram enviadas para a zona de incêndio. Mas muitos brasileiros foram às ruas no Rio de Janeiro e outras cidades para demandar mais ação da administração.

Depois de tomar posse em 1º de janeiro, Bolsonaro transferiu a responsabilidade de demarcação das terras indígenas do ministério da Justiça para o ministério da Agricultura, o que um político brasileiro descreveu como “deixar a raposa tomar conta do galinheiro”.

“O novo governo brasileiro essencialmente enfraqueceu suas agências ambientais, seu ministério do Meio-Ambiente, ao ponto de não poder ir à Amazônia e fazer valer as leis. Tendo em vista seus primeiros passos como presidente, que foram, entre outros, enfraquecer o poder das autoridades federais de aplicar a Constituição para reforçar os direitos indígenas. Então ele pegou ministérios que já eram fracos politicamente e os enfraqueceu ainda mais”, disse Zimmerman.

Zimmerman já trabalhou com o povo indígena Kayapó, que vive em uma faixa de terra dentro do estado do Pará, por três décadas. O estado é uma das regiões mais afetadas pelos incêndios.

As terras indígenas Kayapó não foram afetadas pelos incêndios em parte pelo apoio e monitoramento de ONGs internacionais, disse Zimmerman. Mas estão lidando com grande pressão do que ela chama de extração e mineração ilegais apoiadas pelo governo de Bolsonaro.

Bolsonaro já argumentou que a proteção das terras indígenas e reservas naturais está ajudando a sufocar a economia do país ao abafar seus principais setores de agricultura e mineração. Ele já expressou desejo de proteger o meio-ambiente, “mas sem criar dificuldades para o nosso progresso”.

Zimmerman agora está pressionando o governo canadense a considerar pressões diplomáticas, começando com sanções comerciais contra o Brasil.

*Publicado originalmente em thestar.com | Tradução de Isabela Palhares



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