Mãe Terra

Por que a crise climática não nos parece tão urgente quanto o coronavírus?

Apesar das consequências absolutamente catastróficas, as mudanças climáticas não são tema de reuniões de emergência nem de discursos sombrios dos governantes

12/03/2020 12:16

 Uma casa em Moçambique destruída pelo ciclone Idai (Zohra Bensemra/Reuters)

Créditos da foto: Uma casa em Moçambique destruída pelo ciclone Idai (Zohra Bensemra/Reuters)

 

Trata-se de uma emergência global que já causou morte em grande escala e ameaça abreviar a vida de milhões de pessoas. À medida que seus efeitos se espalharem, poderá desestabilizar economias inteiras e sobrecarregar os países mais pobres, com poucos recursos e infraestrutura. Falo da crise climática, não do coronavírus. Mas, sobre as mudanças no clima, nem os governos estão montando planos nacionais de emergência nem você está recebendo notificações pelo telefone alertando sobre as reviravoltas dramáticas e os últimos acontecimentos desde a Coreia do Sul até a Itália.

Se mais de 4 mil pessoas já sucumbiram ao coronavírus, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, só a poluição do ar – apenas um aspecto da principal crise planetária – mata sete milhões de pessoas todos os anos. Não houve reuniões de emergência para tratar da crise climática e nenhuma declaração sombria do governo detalhando as ações tomadas para tranquilizar o público. Mais cedo ou mais tarde, uma pandemia de coronavírus será superada. Quanto à crise climática, já corremos contra o tempo, apenas tentando mitigar suas consequências inevitavelmente desastrosas.

Enquanto o coronavírus é, compreensivelmente, tratado como um perigo iminente, a crise climática ainda é apresentada como uma abstração cujas consequências estariam a décadas de distância. Ao contrário de uma doença, é mais difícil visualizar como o colapso climático nos afetará enquanto indivíduos. Talvez quando incêndios florestais sem precedentes devastaram partes do Ártico, no último verão, pudesse ter havido uma conversa urgente sobre como a crise climática leva a condições climáticas extremas. Mas não houve. Em 2018, mais de 60 milhões de pessoas sofreram as consequências de temperaturas extremas e mudanças climáticas, incluindo as mais de 1.600 que morreram na Europa, Japão e EUA por causa de ondas de calor e incêndios florestais. Moçambique, Malawi e Zimbábue foram devastados pelo ciclone Idai, enquanto os furacões Florence e Michael causaram perdas de 24 bilhões de dólares à economia dos EUA, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial.

Como ilustram as recentes inundações de Yorkshire, episódios climáticos extremos – com seus terríveis custos humanos e econômicos – tornaram-se parte da realidade britânica. O gelo antártico está derretendo mais de seis vezes mais rápido do que há quatro décadas e o manto de gelo da Groenlândia, quatro vezes mais rápido do que estimado anteriormente. Segundo a ONU, temos 10 anos para evitar um aumento de 1,5°C acima da temperatura pré-industrial, mas, o que quer que aconteça, é certo que sofreremos.

As pandemias e a crise climática também andam de mãos dadas: pesquisas sugerem que a mudança dos padrões climáticos pode levar algumas espécies a buscar maiores altitudes, colocando-as potencialmente em contato com doenças contra as quais têm pouca imunidade. "É estranho que as pessoas vejam a crise climática em um futuro distante, comparada ao coronavírus, que enfrentamos agora", diz Miriam Turner, codiretora executiva da rede Friends of the Earth. "Pode parecer distante para quem está em um escritório no centro de Londres, mas a emergência da crise climática já está sendo sentida por centenas de milhões de pessoas".

Imagine, então, que houvesse a mesma sensação de emergência em relação à crise climática que há sobre o coronavírus. Como agiríamos? Como aponta Alfie Stirling, da New Economic Foundation, uma distinção estrita entre as duas crises seria imprudente. Afinal, o coronavírus pode desencadear uma desaceleração global: as medidas econômicas em resposta a isso devem estar ligadas à solução da crise climática. “O que tende a acontecer em uma recessão é que os formuladores de políticas entram em pânico e adotam medidas rápidas para tentar apagar o incêndio”, diz. Durante o colapso de 2008, por exemplo, houve um corte imediato no IVA e nas taxas de juros, mas os gastos com investimentos não subiram suficientemente rápido e foram, em seguida, cortados em nome da austeridade. Segundo pesquisa do NEF, se o governo de coalizão tivesse então financiado uma infraestrutura de carbono zero adicional, não apenas teria impulsionado a economia, como poderia ter reduzido as emissões residenciais em 30%. Agora, há pouco espaço para reduzir as já baixas taxas de juros ou aumentar a flexibilização quantitativa; a prioridade deve ser uma política fiscal verde.

O que seria anunciado neste hipotético discurso solene do primeiro-ministro transmitido ao vivo pelas redes de TV? Que todas as casas e empresas seriam isoladas, criando empregos, reduzindo a exclusão energética* e as emissões. Pontos de recarga de carros elétricos seriam instalados em todo o país. A Grã-Bretanha hoje não tem capacidade técnica necessária para reformar a infraestrutura do país – para substituir, por exemplo, as bombas de combustível, diz Stirling. Seria então anunciado um programa de treinamento de emergência para a força de trabalho.

Seria introduzido um imposto para passageiros aéreos frequentes e muito ricos. Como lembra Turner, todas as políticas do governo agora serão analisadas pelo prisma do coronavírus. Uma lente climática semelhante será também aplicada, e de forma permanente.

Seria só o começo. A rede Friends of the Earth defende viagens gratuitas de ônibus para menores de 30 anos, além de investimentos urgentes na rede de ônibus. A energia renovável seria dobrada, produzindo também novos empregos, energia limpa e reduzindo a poluição do ar. O governo não mais utilizaria o dinheiro dos contribuintes para investir em infraestrutura de combustíveis fósseis e lançaria um novo programa de plantio de árvores para dobrar a superfície de florestas na Grã-Bretanha, um dos países da Europa com menor área de florestas.

Há uma diferença fundamental entre o coronavírus e a crise climática. "Não sabíamos que o coronavírus estava para chegar", diz Stirling. "Sabemos que a crise climática está aí há 30 ou 40 anos". E, no entanto – apesar de inadequadamente preparado por causa de um NHS (National Health Service/Serviço Nacional de Saúde britânico) com financiamento e recursos insuficientes – o governo é capaz de anunciar rapidamente um plano de pandemia de emergência.

O coronavírus traz muitos desafios e ameaças, e poucas oportunidades. Uma resposta criteriosa ao aquecimento global proporcionaria transporte acessível, casas bem isoladas, empregos “verdes” qualificados e ar puro. Uma ação imediata para evitar uma pandemia é obviamente necessária e urgente. Mas a crise climática representa uma ameaça existencial muito mais grave e potencialmente mortal, sem o mesmo senso de urgência. O coronavírus mostra o que pode ser feito – quando há determinação e força de vontade. Atributos de que, quando se trata do futuro do nosso planeta, carecemos desesperadamente.

*N.da T.: estima-se que cerca de dez mil britânicos morram a cada inverno em consequência do frio, por não conseguirem pagar o fornecimento de energia que garantiria um aquecimento adequado em casa.

**Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles

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