Mãe Terra

Relatório aponta falta de transparência em empresas

22/09/2004 00:00

Rio de Janeiro – No Brasil, as principais empresas de setores produtivos potencialmente poluidores tratam de maneira transparente seus gastos e investimentos em ações de defesa do meio ambiente? A resposta para esta pergunta é não, de acordo com uma pesquisa desenvolvida pelo Observatório do Desempenho Sócio-Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Defensoria da Água e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Analisando grandes empresas de três setores – petróleo, siderúrgico e papel e celulose – os pesquisadores também chegaram à conclusão que nenhuma delas reconhece em suas informações contábeis qualquer passivo ou contingência ambiental.

O objetivo inicial do estudo era determinar qual a relação entre os níveis de poluição das águas, de atividade produtiva e de investimentos em meio ambiente apresentados por cada empresa. No entanto, ele não pode ser alcançado. “Verificamos uma falta de transparência muito grande quando o assunto é investimento ambiental”, afirma Araceli Ferreira, diretora da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFRJ e uma das responsáveis pelo relatório, divulgado nesta terça-feira (21), no Rio de Janeiro. As informações fornecidas pelas empresas estudadas, segundo a pesquisa, não determinam se os gastos efetuados se referem à prevenção de impactos e acidentes ambientais, a recuperação de passivos ambientais ou a compensação por acidentes já ocorridos.

A publicação de balanço ambiental, assim como a de balanço social, ainda é prática recente no Brasil. Mas, segundo a pesquisa, mesmo aquelas empresas estudadas que já fazem isso não informam corretamente suas ações. “As empresas dizem, e nós não estamos duvidando disso, que seus investimentos em meio ambiente vem aumentando nos últimos anos. O problema é que, ao não deixar claro em suas informações contábeis se esses investimentos foram feitos em ações de prevenção ou simplesmente de compensação, as empresas passam a sociedade informações inconsistentes sobre sua relação com o meio ambiente. Isso sem falar na porta aberta para a manipulação de marketing”, opina Leonardo Morelli, secretário-geral da Defensoria da Água.

Outro problema detectado pelos pesquisadores é a falta de reconhecimento de seus passivos ambientais, que jamais são citados nas informações contábeis e nos balanços das empresas. As empresas brasileiras do setor de petróleo, por exemplo, estariam entre aquelas que ignoram seus passivos. “A transnacional Exxon, por exemplo, em seu último balanço registrou US$ 4 bilhões no item passivos ambientais. As empresas de petróleo brasileiras não registram nada, parece que o impacto ambiental causado por elas é igual ao de uma loja de departamentos”, afirma a professora Araceli Ferreira.

Papel e Celulose
Uma pesquisa-piloto foi realizada no ano passado, com dados relativos a 2002, sobre o setor de papel e celulose. As empresas estudadas foram a Aracruz, a Votorantim e a Ripasa, e os pesquisadores constataram que “as informações divulgadas sobre investimentos e ações sobre o meio ambiente nos relatórios de gestão ambiental, também chamados de relatórios de desempenho socioambiental, não encontraram correspondência nos relatórios contábeis”. As três empresas também não informaram, segundo a pesquisa, “o passivo ambiental decorrente de suas atividades”. A única informação relativa a investimentos em meio ambiente detectada pela pesquisa foi fornecida pela Votorantim que, em seu relatório ambiental de 2003, registrou R$ 56 milhões.

Em 2004, já com o apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a pesquisa se estendeu para o setor de siderurgia, onde estudou as empresas Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), Usiminas S.A. e Gerdau S.A. Além delas, foi incluída na pesquisa a Petrobras, representando o setor de petróleo. A principal constatação foi que, em todos os casos, os investimentos em meio ambiente não apresentaram resultados significativos em relação à receita líquida e ao resultado operacional das empresas.

Investimento insignificante
Segundo a pesquisa, no setor de siderurgia as empresas Cosipa, CSN e Usiminas diminuíram o valor investido no meio ambiente de 2002 para 2003. A CST e a Gerdau divulgaram aumento nos investimentos, mas “apenas a primeira informa que houve melhoria no seu desempenho ambiental e a Gerdau não informa nenhuma melhoria”, diz o texto do relatório. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que devido à inconsistência nas informações prestadas pelas empresas, não foi possível estabelecer uma proporção clara entre esse aumento de investimentos, a receita líquida e o resultado operacional das mesmas.

Única empresa a prestar informações mais detalhadas para a pesquisa, a Petrobras, segundo o estudo, aumentou em 18% seus investimentos em meio ambiente de 2002 para 2003. No mesmo período, o aumento do resultado operacional da empresa foi de 143%, enquanto a receita líquida registrou um aumento de 38%. Os números apresentados pela pesquisa mostram que, no ano passado, os investimentos da Petrobras em meio ambiente “significaram menos de 1% sobre a receita e 3,4% sobre seu resultado operacional”. Apesar de, em números absolutos, o investimento da empresa detectado pela pesquisa em 2003 (R$ 948,2 milhões) ser maior do que o de 2002 (R$ 797,5 milhões), houve, segundo o estudo, “um decréscimo de cerca de 50%” na relação entre investimentos, resultado operacional e receita líquida no ano passado. 

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