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Revelado: como o 'centro de inteligência' da Monsanto orientou ações contra jornalistas e ativistas

Documentos internos mostram como a empresa trabalhou para desacreditar críticos e investigou o cantor Neil Young

14/08/2019 16:43

A Monsanto adotou uma estratégia multifacetada para atacar Carey Gillam, jornalista da Reuters que investigou um herbicida da empresa (Carey Gillam)

Créditos da foto: A Monsanto adotou uma estratégia multifacetada para atacar Carey Gillam, jornalista da Reuters que investigou um herbicida da empresa (Carey Gillam)

 
A Monsanto operou um “centro de fusão” para monitorar e descreditar jornalistas e ativistas, e orientou ações contra uma repórter que escreveu um livro criticando a empresa, revelam documentos. A corporação agroquímica também investigou o cantor Neil Young e escreveu um memorando interno sobre sua atividade nas redes sociais e sua música.

Os registros revisados pelo Guardian mostram que a Monsanto adotou uma estratégia em várias frentes para atacar Carey Gillam, jornalista da Reuters que investigou o herbicida da empresa e suas conexões com o câncer. A Monsanto, agora gerida pela corporação farmacêutica alemã Bayer, também monitorou uma organização de pesquisa alimentícia sem fins lucrativos por meio do seu “centro de fusão de inteligência”, um termo que o FBI e outras agências de aplicação da lei usam para operações focadas em vigilância e terrorismo.

Os documentos, em sua maioria de 2015 a 2017, foram divulgados como parte de uma batalha judicial em curso sobre os danos salutares do herbicida da empresa, o Roundup. Eles mostram:

- A Monsanto planejou uma série de “ações” para atacar um livro escrito por Gillam antes de sua publicação, incluindo escrever “tópicos de conversa” para “terceiros” criticarem o livro e direcionar “clientes da indústria e do campo” a compartilharem opiniões negativas.

-A Monsanto pagou o Google para promover resultados de pesquisas para “Monsanto Glifosato Carey Gillam” que criticassem seu trabalho. O setor de relações públicas da Monsanto também discutiu, internamente, sobre colocar pressão na Reuters, dizendo: “continuamos a afastar os editores de Gillam a cada chance que temos”, e que estavam esperando que ela fosse realocada.

Representantes do “centro de fusão” da Monsanto escreveram um longo relatório sobre o ativismo anti-Monsanto do cantor Neil Young, monitorando seu impacto nas redes sociais e, em um certo ponto, até considerando “ação legal”. O centro de fusão também monitorou a “US Right to Know” (USRTK), organização sem fins lucrativos, produzindo relatórios semanais sobre a atividade online da organização.

Representantes da Monsanto estavam constantemente preocupados com a divulgação de documentos sobre sua relação financeira com cientistas, o que poderia sustentar as alegações de que estariam “encobrindo pesquisas indelicadas”.

As comunicações internas adicionam gás às alegações contínuas dos tribunais de que a Monsanto estaria praticando bullying com críticos e cientistas e trabalhando para esconder os perigos do glifosato, o herbicida mais usado no mundo. No ano passado, dois júris dos EUA decretaram que a Monsanto era responsável pelo câncer do requerente, e ordenou que a corporação pagasse quantias significantes à pacientes com câncer. A Bayer continua a afirmar que o glifosato é seguro.

“Eu sempre soube que a Monsanto não gostava do meu trabalho... e que trabalhava para pressionar editores e me silenciar”, disse Gillam em uma entrevista. “Mas eu nunca imaginei uma companhia multibilionária gastando tanto tempo, energia e funcionários comigo. É um absurdo.”

Gillam, autora do livro Whitewash: A história de um herbicida, câncer e da corrupção da ciência, disse que os registros eram “apenas mais um exemplo de como a empresa trabalha nos bastidores para tentar manipular o que o público sabe sobre seus produtos e práticas”.

A Monsanto tinha uma planilha “Livro Carey Gillam”, com mais de 20 ações dedicadas a fazer oposição ao seu livro antes da publicação, incluindo trabalhar para “engajar terceiros pró-ciência” nas críticas, e fazer parceria com experts em optimização de veículos de busca para espalhar seus ataques. A estratégia de marketing da empresa envolvia taxar Gillam e outros críticos como “ativistas anti-glifosato e pró-organizações orgânicas capitalistas”.

Gillam, que trabalhou para a agência internacional de notícias Reuters por 17 anos, disse ao Guardian que uma onda de avaliações negativas apareceu na Amazon logo após a publicação oficial de Whitewash, muitas pareciam repetir tópicos de conversa quase idênticos.

“Esse é o meu primeiro livro. Acabou de ser lançado. Tem ótimas avaliações de revisores profissionais”, ela disse. Mas na Amazon, “estavam dizendo coisas horríveis sobre mim...era muito triste, mas eu sabia que era fake e que havia sido orquestrado pela indústria. Mas eu não sei se as outras pessoas sabiam disso”.

Um porta-voz da Bayer, Christopher Loder, se recusou a comentar sobre documentos específicos ou sobre o centro de fusão, mas disse em uma declaração ao Guardian que os registros mostram “que as atividades da Monsanto pretendiam assegurar que houvesse um diálogo justo, certeiro e científico sobre a empresa e seus produtos em resposta à significante desinformação, incluindo passos para responder à publicação de um livro escrito por uma pessoa que é uma crítica frequente de pesticidas e OGMs”.

Ele disse que os documentos “foram escolhidos a dedo pelos advogados dos requerentes e por seus substitutos” e que não contradiziam a ciência atual que apoiava o uso contínuo do glifosato, adicionando, “levamos a segurança dos nossos produtos e nossa reputação muito à sério e trabalhamos para garantir que todos...tenham informações equilibradas e certeiras”.

(Um porta-voz da Reuters disse que a agência “tem investigado a Monsanto de modo independente, justo e robusto”, adicionando, “confiamos em nossa reportagem”.)

‘Nos viam como ameaça’

Os registros internos não oferecem detalhes significantes sobre as atividades ou abrangência do centro de fusão, mas mostram que as operações de “inteligência” estavam envolvidas em monitorar Gillam e outros. Um representante com o título “Centro de Fusão de Engajamento Corporativo da Monsanto” forneceu análises detalhadas dos tuítes relacionados ao trabalho de Gillam em 2016.

O centro de fusão também produziu gráficos detalhados sobre a atividade de Neil Young no Twitter, que lançou um álbum em 2015 chamado “Monsanto Years”. O centro “avaliou as letras do álbum para desenvolver uma lista de 20 tópicos em potencial que ele poderia mirar” e criou um plano para “produzir conteúdo e respostas de prontidão”, escreveu um representante da empresa em 2015, adicionando que estava “monitorando discussões” sobre um show no qual cantariam Young, Willie Nelson, John Mellencamp e Dave Matthews.

“Falamos com a equipe judicial e estamos mantendo-os informados das atividades de Neil caso alguma ação legal seja apropriada”, lia o e-mail.

Uma página no LinkedIn de alguém que disse ser gerente de “inteligência global e investigações” da Monsanto disse que estabeleceu um “centro de fusão de inteligência interno” e gerenciou um “time responsável pela coleta e análise de atividades criminais, extremistas, terroristas e geopolíticas que afetassem as operações da empresa em 160 países”. Ele disse que criou o “programa interno de ameaças” da Monsanto, liderando analistas que colaboravam “em tempo real com riscos físicos, cibernéticos e de reputação”.

“Nos viam como ameaça”, disse Gary Ruskin, cofundador do USRTK. “Estavam conduzindo um tipo de inteligência sobre nós, e mais do que isso, não sabemos.”

Centros de fusão do governo têm aumentado a preocupação com privacidade em relação com a maneira que as agências de aplicação da lei coletam dados, vigiam cidadãos e compartilham informações. É provável que empresas privadas tenham centros de inteligência que monitorem ameaças criminais legitimas, como ataques cibernéticos, mas “se torna um problema quando você vê empresas gastando dinheiro investigando pessoas que estão exercendo seu direito constitucional”, disse Dave Maass, pesquisador investigativo sênior da Electronic Frontier Foundation.

David Levine, professor de Direito da Universidade da Califórnia Hastings, disse que nunca havia ouvido falar sobre corporações privadas conduzindo “centros de fusão”, mas disse que não o surpreendia que a Monsanto estivesse engajada nesse tipo de monitoramento digital intenso.

 Os registros mostraram que a Monsanto também estava preocupada com as exigências do Ato de Liberdade de Informação (Foia) de Ruskin mirando na empresa, escrever documentos sobre suas relações com pesquisadores tinha o “potencial de ser extremamente prejudicial” e poderia “impactar toda a indústria”.

Em 2016, um representante da empresa expressou frustração com críticas de que a empresa teria pago acadêmicos para escrever relatórios favoráveis sobre seus produtos: “a questão não era que queríamos pagar os experts mas o reconhecimento de que eles teriam que ser compensados pelo tempo que investiram rascunhando respostas para engajamento externo. Ninguém trabalha de graça!”

Michael Baum, um dos advogados envolvidos nos julgamentos do Roundup que revelaram os registros, disse que os registros eram “evidências da consciente falta de consideração com os direitos e segurança dos outros” e que iriam respaldar os danos contínuos das pessoas que pegaram câncer depois de usar o Roundup.

“Mostra o abuso do poder que haviam conquistado com o grande número de vendas”, ele adicionou. “Eles têm tanto dinheiro e muita coisa que estão tentando proteger.”

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Isabela Palhares

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