Mãe Terra

Rio Clima, a visão empresarial

14/06/2012 00:00

Najar Tubino

Rio de Janeiro - Esta é a discussão do momento no mundo, mas um tema árido demais para pessoas comuns. O planeta tem 7 bilhões de pessoas, uma minoria usufrui ótimas condições de conforto e modernidade como resultado do crescimento econômico nos países considerados ricos 65 que pertencem a Organização Cooperação Econômica(OCDE). Na Rio+20, o debate sobre clima é conseqüência, para dar novos rumos à economia e ao sistema capitalista mundial, pois o tema central é o desenvolvimento sustentável. Como subtítulo poderia colocar a “economia verde”.

As duas principais federações de industriais do país - a Firjan, do Rio e a Fiesp, de SP – se reuniram para montar um grande seminário sobre clima, com participação majoritária de cientistas e dirigentes de entidades internacionais, além de políticos nacionais. O objetivo é claro: sem as empresas, ou seja, a sua participação no comando das mudanças, não existirá mudanças. No Hotel Windsor, no centro do Rio, acontecerá o Business Day, além de um fórum empresaria de três entidades internacionais. As informações iniciais davam conta de uma participação de dois mil executivos-chefes e cerca de seis mil empresas na conferência.

Certamente é a maior participação histórica do empresariado na reunião mundial sobre os rumos da economia, sob a ótica das agressões realizadas pelo próprio sistema. No debate do dia 14, quatro grandes especialistas apresentaram conceitos e situações que precisam ser encaminhadas na conferência e para tomar decisões futuras internamente nos países, na sociedade, no mercado. A mais aplaudida, mesmo se tratando de uma platéia especializada e representativa de um setor, foi Tove Maria Ryding, coordenadora de política do clima do Greenpeace, na Dinamarca. Ela mora em Copenhague, sede da última conferência climática e que acabou em um retumbante fracasso, reconhecido por ela:

- É a primeira vez que venho ao Rio e não imaginei que a cidade fosse mais bonita que a minha, Copenhague, que ficou um pouco pior depois de 2009.
No Hemisfério Norte a questão climática soa como um problema sem urgência, talvez até fique melhor se esquentar um pouco, porque vivemos congelados. Mas isso é um engano. "Muitas consequências sociais e econômicas ocorrerão em função do aquecimento global”.

O argumento da mesa redonda onde participaram os norte-americanos, Thomas Heller, David Jhirad, da John Hopkins University, além da francesa, Laurence Tubiana, da Universidade Ciência PO, Paris e da cientista chinesa do Clima te Group, de Pequim, Changhua Wu, é a viabilidade de segurar as emissões de gases em 450( partes por milhão) o que poderia gerar um aumento de temperatura de dois graus. A média de aumento até agora usada pelos cientistas é de 0,8grau, sendo que em regiões como a Antártica o aumento pode chegar a quatro graus. No Ártico, este ano, foram constatas emissões de 400ppm, sendo que a média é 386ppm.

Ou seja, estão fazendo um exercício futuro, ou, construindo cenários, como disse o deputado federal Alfredo Sirkis, um dos coordenadores do encontro: “trabalhamos com três grupos que estão analisando as maneiras de mitigação, adaptação e investimentos futuros”. Os resultados eles apresentarão antes do final da Rio+20. Apenas para atualizar alguns dados referentes aos planos de ações de combate às agressões ambientais, recentemente o próprio PNUMA, programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – por sinal só conta com a ajuda de 58 países e vive de doações -, lançou um relatórios sobre as iniciativas globais nos últimos 40 anos. O resultado não é nada animador.

- Apenas quatro dos 90 objetivos ambientais importantes nesse período considerado tiveram avanços significativos, 24 não apresentaram nenhum progresso, outros 40 tiveram poucos avanços, 14 não tinham dados. Esforços para combater as mudanças climáticas e preservação de estoques pesqueiros não deram resultado. A proteção de recifes de corais teve retrocesso, desde 1980 sofreram redução de 30%”.

O diretor do Pnuma Achim Steiner, um alemão que nasceu no Rio Grande do Sul” considera chocante que o mundo não tenha conseguido avançar na maioria dos acordos ambientais”.

O discurso dos estadunidenses é mais ou menos o mesmo: parceria falta de liderança política, a iniciativa privada precisa atuar diretamente nas decisões sobre marcos regulatórios, dobre definição de valores de serviços ambientais, sobre os rumos do desenvolvimento sustentável, das tributações e dos incentivos aos investimentos “verdes”, digamos.

David Jhirad trabalha com a Fundação Rockfekker, uma herança de John Rockfeller, o sujeito que criou a Standard Oil, que desde o início da perfuração do primeiro poço na Pensilvânia, dominou o mercado de petróleo, na verade, primeiro de querosene, até o início do século XXI. Eles dizem que as fundações sabem fazer projetos, procuram tecnologia, inovação. Os governos são lentos, os políticos não entendem a urgência do problema. É preciso haver um acordo, juntar bancos, comunidade acadêmica, empresas e está encaminhado o problema.

Claro, que todos comentaram o crescimento dos países emergentes, os três bilhões de cidadãos que participarão da classe média, das necessidades de energia e alimentos – sem nunca esclarecer se o modelo continuará o mesmo, pois a FAO, outra agência da ONU, para alimentação e agricultura, divulgou dados estarrecedores sobre desperdício de alimentos no mundo. São 1,3 bilhão de toneladas por anos, a maioria nos países ricos, pelo consumo exagerado, nos pobres, por problemas na colheita e armazenagem. Sem contar perdas nas gôndolas dos supermercados, que chega a 7% no Brasil. A Ceagesp perde 100 toneladas de alimentos todo dia, maioria hortaliças, frutas e legumes. Os ricos desperdiçam 30% dos peixes e crustáceos.

Tove Ryding criticou a resposta dos governos aos problemas e a falta de ação, tendo como argumento maior a recessão econômica atual. Não tem dinheiro para energia renovável, mas investirão 400 bilhões de dólares em petróleo, que é a cifra das petrolíferas para os próximos anos.

- Os governos parecem animais sem cabeça numa loja de vidros, esbarrando em tudo. Os governos debatem muito, eu mesmo participei de muitas reuniões com dirigentes, mas é hora de vocês agirem. Até mesmo as crianças sabem quais os problemas que as mudanças climáticas acarretarão”.

Tove disse que as termelétricas movidas a carvão em determinado tempo terão que ser fechadas. Uma declaração explosiva para a chinesa Changhua Wu, pois a China ainda depende de 80% da sua energia gasta, proveniente do carvão. É a maior importadoras de carvão do mundo.
Changhua Wu fez questão de esclarecer que os dirigentes de seu país sabem muito bem o que acontecerá se não mudarem o rumo da economia, do crescimento ilimitado, até a invasão de produtos baratos mundo afora. Mas eles tem uma decisão: não vão abrir mão de manter o padrão de vida moderna conquistado, embora continue muito desigual. Quase a metade dos l,3 bilhão de chineses ainda continuam morando no campo, em precárias condições.

Os chineses, ressaltou ela, querem investir no rumo do desenvolvimento sustentável, da economia verde, ou do capitalismo verde, tanto faz a definição. Eles têm muitas oportunidades para investimentos em tecnologia. Entretanto, a comunidade internacional precisa ter paciência, porque o gigante ainda tem pés de barro, e se move lentamente. “Nos próximos 20 anos teremos melhores números”.

Não é uma questão fácil, muitos interesses contrariados, muito poder que precisa ser desbancado para termos alterações no rumo da economia mundial. Principalmente mudar a lógica do crescimento ilimitado. Na exposição no Forte Copacabana, faz parte da Rio+20, tem uma síntese sobre essa lógica. A destruição dos sistemas naturais não é um problema, diziam os economistas ortodoxos. Porque os recursos são ilimitados. Por isso perdemos grande parte da biodiversidade do planeta, intoxicamos a atmosfera, um dos pilares da vida e ainda temos que agüentar discursos de melhorias futuras.

A exposição tem recebido uma média de 15 mil visitantes por dia. Estive lá. Respirei uma brisa do Atlântico Sul no terraço do forte, a última etapa da mostra. Podemos ver meia dúzia de grandes navios iluminados esperando para descarregar contêineres, provavelmente da China. A Avenida Atlântica, às 19 horas virou um comboio, ao som de apitos sincronizados da guarda municipal. Tocava um sinfonia clássica no sistema de som, quando vislumbrei um personagem conhecido: Paulo Skaf, presidente da Fiesp.

Perguntei o que ele pensava sobre o futuro da humanidade, se vai rumo ao precipício ou não. Ele é um otimista, diz que não, temos muitos problemas, inclusive para fazer a própria exposição no forte, mas é preciso encarar as barreiras. Perguntei se ele acreditava em capitalismo verde, com o sistema financeiro atual. Disse que as empresas estão mudando o enfoque, não consideram mais um ônus investir em coisas sustentáveis, como melhorar a eficiência na área energética, consumo de água, insumos, essas coisas. E deixou claro que sem as empresas não haverá economia verde. Acabou a curta conversa, enquanto ele fazia uma foto com um futuro candidato prefeito no município de Colina, SP. Do outro lado da baia é bastante visível a iluminação que quase chega ao topo do morro. Não sei se eles irão à exposição.


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