Mãe Terra

Rússia aprova Protocolo de Quioto e isola Estados Unidos

30/09/2004 00:00

São Paulo – Depois de muitas idas e vindas, posicionando-se por vezes de modo contrário, por vezes em dúvida quanto à ratificação do Protocolo de Quioto, o governo russo finalmente bateu o martelo e decidiu, nesta quarta-feira (29), ratificar o principal acordo de controle do aquecimento global das Nações Unidas. Agora, falta apenas a aprovação da câmara baixa do Parlamento do país, onde o governo tem maioria.

Com a adesão russa, cumpre-se a cláusula do Protocolo de Quioto que exige que no mínimo 55 países signatários da Convenção do Clima da Eco-92 ratifiquem o acordo, sendo que, desse conjunto, façam parte países industrializados que juntos sejam responsáveis por 55% das emissões de poluentes no mundo. O protocolo de Quioto, que deve entrar em vigor três meses após a ratificação da Rússia, prevê, entre 2008 e 2012, a redução média de emissão de gás carbônico por parte dos países ricos em 5%, tomando como base os índices de 1990.

Para Sérgio Dialetachi, coordenador da Campanha Energia do Greenpeace, com a decisão russa o mundo deixa de ser refém dos Estados Unidos - responsável por 25% da poluição que está causando o aquecimento global e ferrenho opositor do Protocolo, por entender que as medidas de redução de emissão de CO2 limitam a produção e o crescimento industriais do país. Segundo ele, nos últimos 10 anos a Rússia esteve fazendo um jogo duplo com a União Européia, favorável ao Protocolo, e os EUA, contrários, procurando tirar vantagens de ambos os lados.

“Agora, com a adesão da Rússia ao Protocolo de Quioto, os EUA ficaram isolados de um processo que está se fortalecendo, um movimento global contra o aquecimento do planeta. A União Européia, por exemplo, já está incorporando várias diretrizes do Protocolo em suas relações comerciais, explicitando restrições nos acordos bi e multilaterais. Ou seja, para vender para a Europa, o fornecedor tem que se adequar a certas normas ambientais”, explica Dialetachi, para quem os EUA forçosamente terão que adotar mudanças no seu modelo produtivo.

Paulo Moutinho, coordenador de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), considera a decisão russa um referendo político do esforço da diplomacia internacional no enfrentamento das mudanças climáticas, mas também vê na validação definitiva do Protocolo uma abertura de boas oportunidades para o Brasil, país que, por constar da lista dos “em desenvolvimento”, não está obrigado a diminuir a emissão de gases mas que pode atrair investimentos externos em projetos de desenvolvimento limpo.

“Por um lado, o mercado de CO2 pode ser bastante promissor, no sentido de que os países industrializados podem cumprir suas cotas de eliminação de poluentes também com investimentos em mecanismos de desenvolvimento limpo em países como o Brasil. Se calcula hoje que a tonelada de gás carbônico, retirado da atmosfera ou evitado que seja produzido, possa valer de US$ 3 a US$ 7 no mercado internacional. Por outro lado, o Brasil, considerado um grande poluidor em função das queimadas na Amazônia, poderá entrar na lista dos que tem cotas a diminuir em 2012”, diz Moutinho. Isto poderá pressionar o país a diminuir o ritmo da destruição ambiental de suas florestas.


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