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Trump nega o impacto da mudança climática menosprezando um relatório de mais de mil páginas, obra de 300 cientistas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contestou o recente relatório de seu governo ao afirmar que não acredita que a mudança climática possa ter um impacto negativo na economia desse país, nas próximas décadas. 'Não acredito'. Com essas palavras, o presidente menosprezou o relatório de mais de mil páginas, publicado na última sexta-feira, e no qual trabalharam 300 cientistas.

29/11/2018 13:34

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Créditos da foto: (Wikimedia Commons)

 

O texto alerta que se não forem tomadas medidas para mudar as tendências climáticas atuais, as consequências poderão custar centenas de milhares de milhões de dólares aos Estados Unidos. De acordo com o documento, o impacto do aquecimento global poderia fazer com que a economia estadunidense se contraísse quase 10%, o que representaria o dobro das perdas registradas durante a Grande Depressão, nos anos 1930.

“A mudança climática causará perdas crescentes para a infraestrutura e as propriedades estadunidenses e prejudicará a taxa de crescimento econômico durante este século”, adverte o relatório. Além disso, acrescenta que os efeitos podem se estender ao comércio global, o que afetaria os preços de importação e exportação e os negócios estadunidenses com operações e cadeias de fornecimento no estrangeiro.

Seguindo o caminho que traçou ao sair do Acordo de Paris, Trump negou estarem sendo nocivos ao meio ambiente: “Nunca estivemos mais limpos que agora, e isso é muito importante para mim, mas se nós estamos limpos e todos os outros lugares estão sujos, não é tão bom”, disse, culpando outros países como China e Japão pelo fenômeno.

Desde sua chegada à Casa Branca, Trump sustentou que desconfia do consenso que muitos cientistas do clima sustentam a respeito da relação entre a atividade humana e o aumento da temperatura. Além de deixar o Acordo do Clima de Paris, em 2016, Trump revogou uma série de leis e regulamentos de proteção ambiental. Pela primeira vez, no último mês de outubro, Trump admitiu a existência damudança climática. “Existe, é algo, provocado pelo homem ou não, mas não permanente, ao contrário, é algo que vai e vem”, vacilou. Trump também se mostrou cético diante da publicação de um importante relatório da ONU, em outubro, que advertiu sobre os casos que supõe o aquecimento global, dizendo: “Quero ver quem o fez, já sabem, quais grupos o fizeram, porque posso lhes dar informações que são fabulosas, e posso lhes dar informações que não são tão boas”.

A Casa Branca tinha sido obrigada por ordem do Congresso a publicar a mencionada avaliação, mas, segundo vários artigos na imprensa, Trump decidiu atrasar sua divulgação até a Black Friday, com a aparente expectativa de que passasse despercebida e ficasse ofuscada pela festividade de Ação de Graças.

Além disso, ontem, a Nações Unidas (ONU) divulgou seu relatório anual sobre a Brecha de Emissões e nele destacou que os compromissos para limitar o aquecimento global em dois graus, em fins do século, devem ser triplicados. Alertou que em 2017, após três anos de estabilidade, as emissões globais de gases atingiram níveis históricos devido ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Quanto às metas propostas, o relatório adverte que estão muito distantes dos objetivos. Nesse sentido, a intenção de limitar o crescimento a 1,5 graus é pouco provável. E mais, se continuar a tendência atual, o aquecimento será de três graus, em fins do século, e a partir de então, ainda maior.

A uma semana da Cúpula do Clima - COP24, que ocorrerá em Katowice (Polônia), o estudo destaca que apenas 57 países estão a caminho de iniciar uma tendência à baixa antes de 2030. Tanto a União Europeia, como Argentina, Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Arábia Saudita, África do Sul eEstados Unidos não chegam a atingir seus objetivos. Enquanto que Brasil, China e Japão estão a caminho de cumprir tais objetivos com as políticas atuais.

Segundo a ONU, daqui até o ano 2030, as emissões poderiam ser reduzidas até 10%, caso fossem suprimidos todos os subsídios a combustíveis fósseis e, além disso, destaca que algumas destas opções podem ser implantadas sem criar problemas econômicos e sociais. “A ciência é clara: os governos devem avançar mais rápido e com maior urgência. A boa notícia é que temos ao nosso alcance todos os meios para extinguir o incêndio”, defendeu a diretora executiva adjunta da ONU Meio Ambiente, Joyce Msuya. Nesta linha, a executiva destacou o papel chave dos governos municipais, estatais e regionais no desenho das políticas fiscais e ações inovadoras para estimular a mudança.

Para este ano, o relatório estabelece cinco pontos centrais que os governantes deveriam levar em conta como possíveis fatores de êxito, entre eles destaca: estar dispostos a assumir riscos em práticas onde o setor privado é mais cético ou estabelecer políticas verdes como uma direção para toda a economia, não para cada setor em separado.

“Felizmente, o potencial de usar a política fiscal como um incentivo é cada vez mais reconhecido. Já estão implementadas ou programadas 51 iniciativas de fixação de preços de carbono que cobrem aproximadamente 15% das emissões globais”, defendeu o cientista chefe da ONU Meio Ambiente, Jian Liu.

*Publicado originalmente no IHU On-Line

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