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Um dos incêndios na Califórnia começou em uma das plantas de usina nuclear que já liberou a maior quantidade de iodo-131 da história

Usina de Santa Susana já liberou a [quarta] maior quantidade de iodo-131 da história

04/12/2018 08:39

 

 
Na minha coluna de 16 de novembro, eu reportei sobre os riscos potenciais de radiação impostos pelo incêndio Woolsey na Califórnia que queimou partes ou todo o laboratório Santa Susana Field – ao sul do Vale Simi, na Califórnia, 48 km de Los Angeles – local de, ao menos, quatro colapsos parciais ou totais de reatores nucleares.

O laboratório operava 10 reatores experimentais e conduzia testes de motor de foguetes. Em seu livro de 2014, Acidentes Atômicos, o pesquisador James Mahaffey escreve, “os núcleos em quatro reatores experimentais no loca...derreteram”. Derretimento de núcleo de reator sempre resulta na liberação de grandes quantidades de gases radioativos e partículas. A limpeza do local profundamente contaminado não foi conduzida mesmo com um acordo em 2010.

A KABC-7 TV de Los Angeles reportou em 13 de novembro que o local do laboratório Santa Susana “parece ser a origem do incêndio Woolsey” que queimou mais de 96 mil acres. A rádio pública do sul da Califórnia disse, “de acordo com a Cal Fire, o incêndio Woolsey começou na tarde de 8 de novembro...no Santa Susana”.  (https://abc7.com/sce-substation-outage-occurred-before-woolsey-fire-reported/4675611/)

Na minha coluna eu notei que o Dr. Arjun Makhijani, presidente do Instituto de Pesquisa Ambiental & Energética, estimou que o colapsou parcial do reator experimental de sódio (SRE) do laboratório em 1957, causou “a terceira maior liberação de iodo-131 na história da energia nuclear”, de acordo com Gar Smith em seu livro de 2012 Roleta Nuclear. Mas Makhijani falava em 2006, então agora, é claro, o colapso do SRE conta como a quarta maior liberação de iodo-131 – depois dos três colapsos em Fukushima no Japão em 2011, Chernobyl na Ucrânia em 1986, e Windscale na Inglaterra in 1957.

Operadores do Santa Susana causaram a destruição do SRE de sódio liquido resfriado em 12 de julho de 1959 – “regando as montanhas com uma fumaça de crômio e isótopos radioativos, incluindo iodo-131”, de acordo com Smith em Roleta. Foram essas montanhas que foram queimadas completamente pelo incêndio Woolsey.

“A fumaça de isótopos se espalhou provavelmente por comunidades próximas como o Vale Simi, Chatsworth e Canoga Park,” de acordo com Elina Shatkin da rádio pública do sul da Califórnia. Makhijani calculou que a precipitação radioativa do colapso continha “80 ou 100 vezes a quantidade de iodo-131 liberado em Three Mile Island” (em Harrisburg, Pensilvânia, em 1979), reportou Smith em Roleta. A escola de ensino médio de Canoga Park é um dos quatro centros de evacuação da Cruz Vermelha para o incêndio Woolsey.

Durante as duas semanas depois do colapso parcial do SRE, trabalhadores tentaram consertá-lo. “Quando não conseguiram, foram obrigados a abrir a grande porta do reator, liberando radiação no ar”, reportou Shatkin na rádio pública.

Materiais radioativos liberados pelo colapso nunca foram corretamente medidos em parte porque os monitores de dentro do SRE foram desnivelados. Ainda assim o derretimento de combustível não causou as únicas liberações de radiação do SRE – apenas a maior. Em seu livro de 2012 Mad Science, Joe Mangano escreve: “Todo dia, gases radioativos de tanques no prédio do reator eram liberados no ar – frequentemente a noite...às vezes duas vezes ao dia”. Em Acidentes Atômicos, Mahaffey descreve a mesma prática escrevendo, “os gases de fissão foram canalizados e comprimidos em tanques para uma liberação controlada no meio-ambiente...”

Depois que o derretimento de julho foi interrompido, a Atomics International, que comanda o SRE, inventou um relatório para a Comissão de Energia Atômica em 29 de agosto de 1957. O relatório declarava falsamente: “não ocorreu nenhuma liberação de materiais radioativos e os operadores não foram expostos à condições prejudiciais”.

No entanto, as condições dentro do prédio do reator eram extremamente perigosas para os trabalhadores, e é estimado que os níveis de radiação tenham chegado a entre 10.000 e 1 milhão a mais que o normal. De acordo com um trabalhador, os crachás medidores de radiação dos funcionários foram retirados. John Pace, um estagiário no laboratório, “antes de 13 de julho, usávamos crachás, e depois disso, em algum momento eles [Atomics International] os retiraram, já que sabiam que os níveis estariam muito altos”.

Com 10 reatores experimentais, radiação religiosamente liberada no ar, anos de acidentes, e quatro outros derretimentos de núcleo, as montanhas podem ser consideradas permanentemente comprometidas por toxinas que causam câncer. Dan Hirsh, presidente do Committee to Bridge the Gap, uma organização de política nuclear, disse à rádio pública que o solo do Santa Susana tinha, “uma mistura de materiais radioativos como plutônio, césio-137 e estrôncio-90” e talvez 100 químicos tóxicos como “PCB, dioxina, metais pesados como mercúrio e crômio-6 e compostos orgânicos voláteis como PCE”. Em 2012, a EPA dos EUA reportou que seus testes no solo acharam césio-137 radioativo 9,3x acima do nível usual.

Cidadãos vivendo na vizinhança de Santa Susana se tornaram duros críticos dos operadores do local – Boeing, Atomic International e Rocketdyne— que, por anos, queimaram lixo tóxico e radioativo em fossas abertas, pondo em risco todos os que moram a favor do vento. Em 2005, a Boeing pagou $30 milhões para compensar residentes próximos por mortalidades antecipadas e uma gama de doenças raras.

*Publicado originalmente no Counter Punch | Tradução de Isabela Palhares



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