Mãe Terra

Uma fazendeira malauiana visitando os EUA quer saber: ''Porque não fazer mais em relação à crise climática?''

O novo documentário ''The Ants and the Grasshopper'' (A Formiga e o Gafanhoto) segue a jornada de Anita Chitaya desde o seu vilarejo atingido pela seca até os EUA para conhecer fazendeiros e políticos

05/08/2021 09:53

Anita Chitaya com a família no Malawi (Kartemquin Films)

Créditos da foto: Anita Chitaya com a família no Malawi (Kartemquin Films)

 

O que nós devemos uns aos outros em face a uma crise existencial como a emergência climática? Essa é uma questão importante para o recém-lançado documentário que explora como o poder e o privilégio moldam a justiça climática e a justiça alimentar da África até as Américas – e como podemos avançar juntos.

O filme, codirigido por Raj Patel, autor e especialista em sistemas alimentares globais, é baseado em Anita Chitaya, uma pequena fazendeira e líder local no vilarejo de Bwabwa, no Malawi. Como em muitos outros países em desenvolvimento, ela está vivendo à mercê da crise climática. As chuvas, ela diz, diminuíram para três vezes ao ano, e as plantações não conseguem sobreviver. Tudo o que restou do rio Rukuru, localizado nas imediações, foi uma faixa de areia rastejando em terra seca. Todos os dias, mulheres retiram água de poços que levam cada vez mais tempo para reabastecer.

Chitaya não é uma vítima desafortunada. Trabalhando com uma organização local chamada Comunidades de Solos, Comida e Saúde (SFH), ela ajuda a implementar soluções pragmáticas para a crise climática, como fogões de argila que usam menos madeira e compartilha receitas que fazem uso das novas plantações. Em sua fazenda de um hectare, ela pratica as culturas intercalares – cultivar diversas plantações na mesma área – para ajudar a preservar o solo e maximizar o rendimento da terra ressecada. E ela é uma líder em igualdade de gênero, incrivelmente persuasiva, que está convencendo os homens do seu vilarejo a partilhar da carga de trabalho que é, normalmente, carregada pelas mulheres e que está cada vez mais pesada ao passo que elas têm que lidar com problemas climáticos.

Chitaya vê rastros das emissões de países como os EUA conectados com a falta de chuva no Malawi, e ela quer saber por que o país mais rico do mundo e o segundo maior emissor de gases do efeito estufa não está fazendo mais para evitar uma catástrofe climática que já está sufocando sua terra. “Ultimamente, parece que a chuva e o tempo estão acabando”, ela diz no filme. “Enquanto os ricos estão debatendo sobre o que fazer, os pobres sofrem.”

Os produtores do filme conseguiram levar Chitaya e outra líder comunitária, Esther Lupafya, médica e co-fundadora do SFHC, para os EUA para conversar com fazendeiros, e, elas esperam, oficiais eleitos. O objetivo, diz Chitaya, é “ser testemunha e contar o que está acontecendo conosco aqui”.



Ao redor dos EUA, elas encontram fazendeiros e ativistas que ilustram a intransigência estadunidense em relação à ação climática, à promessa de um sistema alimentar mais justo e às limitações que estão no meio de tudo isso.

Temos os Goodman em Wisconsin que comandam uma fazenda orgânica de laticínios e defendem a agricultura sustentável, mas seu filho nega as realidades da mudança climática dizendo: “está nas mãos de Deus”. Então, temos os Jackson, uma família conservadora cristã que mudou para a agricultura orgânica após seu filho nascer com uma cardiopatia, potencialmente devido à exposição a químicos agrícolas. Mas sua fazenda não é lucrativa e o pai trabalha em uma usina de energia movida a carvão para ter uma renda extra e plano de saúde. Eles atribuem a alteração dos padrões climáticos a mudanças cíclicas normais e veem a mudança climática como uma “agenda”.

Uma abstenção comum que ouvimos de muitos estadunidenses no filme é, mais ou menos: nós não experienciamos a crise climática aqui do mesmo jeito. Ou, se eles realmente veem as conexões, eles dizem que simplesmente é muito difícil cultivar a terra de outra maneira.

Chitaya e Lupafya negociam com paciência essas negações, claramente frustradas, mas determinadas. “A mudança começa pela negação”, diz a pragmática Lupafya.

Elas encontram um contraponto para a negação climática branca e para a inação em movimentos de base comandados por pessoas não brancas. Encontramos com fazendeiros negros, como o Coletivo Agrícola Black Dirt em Maryland, e a Fazenda D-Town em Detroit, que estão trabalhando para refazer séculos de políticas agrícolas e alimentares discriminatórias por meio da organização comunitária e agricultura regenerativa.

“Nessas fazendas e nesses movimentos, as pessoas não estão somente plantando comida, mas também estão se unindo, estão analisando o mundo ao seu redor, e estão agindo”, diz Patel em uma entrevista ao The Guardian.

São esses grupos que começam a costurar os fios do capitalismo, do racismo e do patriarcado que estão entrelaçados em meio às crises climática e de justiça alimentar. Eles também ecoam a abordagem comunitária e a conexão com a terra que Chitaya pratica no Malawi.

“Eu penso que existem movimentos nos EUA que reconhecem a necessidade de um tipo de ‘new deal preto e vermelho e verde’. E nessas conversas, existem diálogos acontecendo sobre reparações por genocídios e pela escravidão que eu acho que são absolutamente centrais para discussões sobre como deveriam ser sistemas alimentares sustentáveis”, diz Patel.

Mas enquanto o documentário claramente exibe práticas agrícolas menores e sustentáveis como sendo as abordagens preferidas, ao invés das mega fazendas “pulveriza e reza”, ele não procura prescrever políticas sobre como consertar um sistema global quebrado. Tampouco é um propulsor de culpa sobre racismo e inação climática. A culpa, diz Lupafya, “às vezes só nos desacelera”. E esse não é um luxo que as pessoas nas linhas de frente podem bancar.

Ao invés, Patel diz que a intenção por trás do filme era alcançar novos públicos para começar conversas mais profundas sobre exatamente o que nos trouxe até onde estamos hoje.

“Não queremos ter as conversas difíceis sobre se a terra é roubada, não temos conversas sobre se os trabalhadores da terra estão sendo bem remunerados, não queremos ter as conversas difíceis sobre se o que estamos fazendo está matando espécies aqui nos EUA, e tornando impossível para que outros fazendeiros cultivem em outro lugar”, ele diz. “O objetivo desse filme é ser uma porta de entrada para essas conversas, então temos essa confrontação com o poder, como o [movimento Black Lives Matter] fez no ano passado. É fácil para o sistema alimentar seguir fingindo que os negócios estão bem.”

Finalmente, a mensagem do filme, e de líderes como Chitaya e Lupafya, é uma chamada para as pessoas se importarem – umas com as outras – e para reconhecerem a interconectividade que nos conecta, pelo bem ou pelo mal, em um mundo ameaçado.

No final do filme, vemos alguns dos fazendeiros que um dia negaram a crise climática, começando a se antenar com a realidade da situação. É uma reflexão oportuna durante o verão, ao passo que ondas de clima extremo sem precedentes continuam a atingir áreas do mundo que estavam, há tempos, isoladas dos piores impactos do desastre climático.

Chitaya permanece otimista. Mesmo após as frustrações da sua viagem para os EUA, ela diz que ainda tem esperança no potencial da mudança a longo prazo, tendo em vista sua experiencia trabalhando com igualdade de gênero em seu vilarejo.

“Vendo que podemos ter paz, e que é possível viver em harmonia, igualmente e fazer a mudança acontecer, nos encoraja a espalhar a palavra”, ela diz via email. “Podemos ensinar uns aos outros... a mudar.”

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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