Mãe Terra

Urgência nas políticas de energia limpa e acessível

18/06/2012 00:00

Rodrigo Otávio

Rio de Janeiro - Se organismos internacionais e diferentes governos realmente querem um futuro sustentável, é mandatório rever os sistemas de produção e comércio de energia. E o objetivo, segundo especialistas apontaram durante o painel Energia para Todos: Igualdade como a Meta Fundamental, realizado na segunda-feira (18) no Riocentro em paralelo às negociações oficiais da conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, não será alcançado apenas com a mudança de uma matriz energética calcada em combustíveis fósseis, como o petróleo, para uma matriz de energia limpa. A chave do sucesso estará no acesso a essa energia limpa.

“É só uma questão de ter uma fiação instalada em casa? E o governo poder dizer que há eletricidade, será que isso basta?”, questionou Soumya Dutta, pesquisador do Fórum de Ciência dos Povos da Índia. “Claro que não! Precisamos ter clareza do que prometemos quando falamos em entregar energia. É necessário que ela chegue as pessoas”, afirmou ele.

Para o Dutta o caminho é conhecido. “É preciso descentralizar a energia”, diz, para em seguida tocar na ferida que estados e organismos reguladores e mediadores optam por não enxergar, “essa descentralização desafia o monopólio das empresas energéticas”. Os monopólios, segundo ele, só serão desafiados pelos estados quando também as populações dos países desenvolvidos, que a princípio são as primeiras beneficiadas, assumirem tal causa em busca do patamar de 100% de renovação nos sistemas energéticos até 2050.

O paralelo entre energia descentralizada e o florescimento de uma gama de benefícios sociais e econômicos é colocado pelo pesquisador como uma meta altamente tangível. “Podemos fortalecer as comunidades para um nível de produção maior, com escalas positivas em áreas correlatas, aproximando-se de uma equidade que possibilite falar em meios de desenvolvimento sustentável”, diz.

Desigualdade
O secretário do Centro para a Economia Comunitária e Sociedade de Consultas para o Desenvolvimento (Cecoedecon), também na Índia, Shrada Joshi, focou um caso local como exemplo de acesso à energia partilhado por vários países em desenvolvimento. A senhora indiana, dia sim, dia não, tem que sair de casa para colher madeira para acender fogo, percorrendo razoável distância. “9% dos lares indianos não têm acesso à energia para cozimento. Grande parte deles não tem conexão à energia elérica. E os que têm acesso a eletricidade, observamos que 33% da população consomem menos de 1,5 Khz por hora diariamente. E temos a parte da população que consome mais de 100 Khz por hora”, tabula ele. “Resumindo, os 20% de nível superior de renda na Índia correspondem à recepção de 53% de energia elétrica do país”.

Joshi vê a resposta a esse tipo de situação em seu país em programas como o Luz para Todos, do governo brasileiro. Mas denuncia que na Índia não estão sendo levados em conta os investimentos em energia renovável, a princípio com a desculpa de que é muito cara pelos formuladores das políticas públicas. “A reflexão deveria ser maior. Precisamos ter mais projetos pilotos para demonstrar um modelo de negócios e gerar investimento. Esses projetos devem ser a partir de negócios comunitários”.

Sem desculpas
Justin Goyan, professor da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e especialista em fluxos internacionais de energia, alertou para o imediatismo da necessidade de se fazer a troca de energias fósseis por energias limpas. Elea firma que governos e instituições financeiras estão sempre dizendo que o carvão é barato e que as energias renováveis são caras, portanto inviáveis. Só que o mercado energético mudou, é preciso admitir o atuais preços altos do carvão e transferir os investimentos para as iniciativas de energias renováveis, ainda que com lucros em prazos maiores . “Em termos geológicos o carvão é abundante, porém, economicamente falando, a energia oriunda dele não é. Então não há porque não acelerar essa troca”, afirma.

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