Mãe Terra

Agricultores orgânicos denunciam contaminação de soja no PR

19/06/2007 00:00

SÃO PAULO - Pela primeira vez no país, agricultores denunciam oficialmente ao governo casos de contaminação de sua produção por variedades trasngênicas. Na última segunda-feira (18), produtores orgânicos do Paraná se reuniram com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, para denunciar a contaminação das suas plantações de soja. Cassel se comprometeu a levar o problema para o Conselho Nacional de Biossegurança a fim de obter medidas que possam evitar a contaminação genética.

“A questão é que os casos sirvam de alerta para liberação do milho transgênico. Se no caso da soja, em que a contaminação é mais difícil, esse problema aconteceu, imagine no caso do milho, cuja a polinização é cruzada”, compara Maria Rita Reis, assessoria jurídica da ONG Terra de Direito. Esta semana, entre terça e quinta-feira, a CTNBio se reúne em Brasília para apreciar solicitações de aprovação de novas variedades de milho geneticamente modificado, o que foi impedido pela Justiça na segunda.

Em função das contaminações no Estado, a Central de Associações da Agropecuária Familiar do Oeste do Paraná (Caopa) vai protocolar um pedido para análise de medidas de biossegurança pela CTNBio. De acordo com Maria Rita, a coexistência entre espécies de lavouras orgânicas e transgênicas é impossível por conta das condições atuais da cadeia produtiva. “A cadeia produtiva não está organizada para garantir a não contaminação”, diz a assessora da Terra de Direito.

“A única medida coerente da CTNBio seria a restrição das espécies transgênicas mesmo daquelas que já foram liberadas para comercialização”, explica Maria Rita. Segundo ela, os mecanismos do órgão permitem que as decisões sejam reavaliadas e anuladas.

Casos
Ademir e Vilma Ferronato desenvolvem a produção de soja e milho orgânicos em 16 hectares, na cidade de Medianeira (PR). Na vizinhança, há predomínio de produtores convencionais ou de soja geneticamente modificada.

Na safra de 2006/2007, parte da soja de Ferronato foi rejeitada pela empresa Gebana, que comercializa produtos orgânicos. Testes apontaram que havia soja transgênica misturada à produção dos agricultores.

Como as sementes da soja são fornecidas pela própria Gebana, Ademir e Vilma suspeitam que a contaminação aconteceu durante a colheita. Numa das etapas do processo, a colheitadeira havia sido usada em produções transgênicas. Apesar de a limpeza recomendada ter sido feita, ela não teria sido suficiente para evitar o problema. O prejuízo dos agricultores chegou a R$ 1,6 mil. “O governo precisa saber o que está acontecendo em campo. Não dá para liberar o transgênico sem garantir o direito de quem não quer plantar”, afirma Ademir Ferronato.

Um outro caso é o da família Guerini, de São Miguel Iguaçu (PR), que cultiva soja e milho orgânicos. Além de ter problemas com o contato com o agrotóxico das plantações vizinhas, na última safra, a produção foi contaminada por organismos geneticamente modificados.

A suspeita é de que a contaminação tenha acontecido durante o transporte realizado por um caminhão que já teria carregado uma produção transgênica, já que as sementes usadas eram certificadas como orgânicas e as máquinas de colheita são exclusivas da propriedade.

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