Memória

A Comuna de Paris, 1871

Como escreve Marx em 1871, ''essa nova Comuna, que destrói o poder do Estado moderno, foi obra de trabalhadores comuns que, pela primeira vez, ousaram mexer no privilégio de governar de seus 'superiores naturais', os ricos''

18/03/2020 18:27

 

 
1) A tradição dos oprimidos

Há no cemitério Père Lachaise em Paris, um muro conhecido como "O Muro dos Federados". Ali foram fuzilados pelas tropas de Versalhes, em maio de 1871, os últimos combatentes da Comuna de Paris. Todos os anos, milhares – e às vezes, como em 1971, dezenas de milhares – de franceses, mas também pessoas do mundo todo visitam esse importante lugar de memória do movimento operário. Eles vêm sós ou em grupos, com bandeiras vermelhas ou flores, e às vezes cantam uma antiga canção de amor que se transformou no hino dos communards: "Le Temps des Cérises". A homenagem não é a um homem, um herói ou um grande pensador, mas a uma multidão de anônimos que nos recusamos a esquecer.

Como afirma Walter Benjamin em suas teses "Sobre o conceito de história" (1940), a luta emancipatória é travada não apenas em nome do futuro, mas também em nome das gerações derrotadas; a memória dos ancestrais escravizados e de seus combates é uma das grandes fontes de inspiração moral e política do pensamento e da ação revolucionários.

A Comuna de Paris faz parte, portanto, do que Benjamin chama de "tradição dos oprimidos", ou seja, esses momentos privilegiados ("messiânicos") da história em que as classes subalternas conseguiram, por um momento, romper a continuidade da história, a continuidade da opressão; períodos curtos – curtos demais – de liberdade, emancipação e justiça, que sempre servirão de referência e serão exemplos para as novas batalhas. Desde 1871, a Comuna de Paris alimenta o pensamento e a prática dos revolucionários, a começar pelo próprio Marx – assim como Bakunin – e depois, no século 20, Trotsky e Lenin.

2) Marx e a comuna de 1871

Apesar de suas divergências na Primeira Internacional, marxistas e libertários cooperarão fraternalmente no apoio à Comuna de Paris, a primeira grande tentativa de "poder proletário" na história moderna. É claro que as análises de Marx e Bakunin sobre o evento revolucionário estavam em polos opostos. Podemos resumir as teses do primeiro nos seguintes termos:

"A situação do pequeno número de socialistas convictos que pertenciam à Comuna era extremamente difícil... Precisaram de um governo e um exército revolucionários para lutar contra o governo e o exército de Versalhes".

Em contraste com essa leitura da guerra civil na França que opõe dois governos e dois exércitos, o ponto de vista antiestado do segundo era bastante explícito:

"A Comuna de Paris foi uma revolução contra o próprio Estado, esta aberração sobrenatural da sociedade".

O leitor atento e informado terá, ele mesmo, feito a correção: a primeira opinião é de... Bakunin, em seu ensaio "A Comuna de Paris e a noção de Estado". Enquanto a segunda é uma citação de... Marx, no primeiro ensaio de "A Guerra Civil na França, 1871". Nós misturamos as cartas de propósito, para mostrar que as divergências – sem dúvida reais – entre Marx e Bakunin, marxistas e libertários, não são tão simples e evidentes como pensamos...

Marx, aliás, alegrou-se com o fato de os proudhonianos terem, durante a Comuna, esquecido as teses de seu mestre, enquanto certos libertários não escondem seu prazer ao observar que os escritos de Marx sobre a Comuna privilegiam o federalismo em detrimento do centralismo.

Karl Marx havia proposto, como palavra de ordem central da Associação Internacional dos Trabalhadores – a Primeira Internacional – esta fórmula que ele registrou no Discurso Inaugural da AIT, em 1864: “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores ”. A Comuna de 1871 era tão importante a seus olhos precisamente por ter sido a primeira manifestação revolucionária deste princípio fundador do movimento operário e socialista moderno.

A Comuna, afirma Marx no discurso que escreveu em nome da Primeira Internacional em 1871, "A Guerra Civil na França" (e nos textos preparatórios) não foi o poder de um partido ou um grupo, mas "essencialmente o governo da classe trabalhadora", um "governo do povo pelo povo", isto é, "a retomada pelo povo e para o povo de sua própria vocação social". Para isso, não poderíamos nos contentar em "conquistar" o aparato estatal existente: era necessário "rompê-lo" e substituí-lo por outra forma de poder político, como fizeram os communards desde seu primeiro decreto. – com a supressão do exército permanente e sua substituição pelo povo armado.

Eis o que escreve Marx em uma carta a seu amigo Kugelmann, em 17 de abril de 1871, durante as primeiras semanas da Comuna, portanto: "No último capítulo do meu O 18 de Brumário, noto, como você verá se o reler, que a próxima tentativa de revolução na França consistirá não em fazer a máquina burocrática e militar mudar de mãos, como tem sido o caso até agora, mas em destruí-la. É esta a condição primordial para qualquer revolução verdadeiramente popular no continente. Foi também o que fizeram nossos heroicos camaradas de Paris". O que parece decisivo para Marx não é só a legislação social da Comuna – que trazia algumas medidas com dinâmica socialista, como a transformação de fábricas abandonadas por proprietários em cooperativas operárias – mas, acima de tudo, seu significado político como poder dos trabalhadores. Como escreve no discurso de 1871, “essa nova Comuna, que destrói o poder do Estado moderno”, foi obra de "trabalhadores comuns" que, “pela primeira vez, ousaram mexer no privilégio de governar de seus 'superiores naturais', os ricos”.

A Comuna não era nem uma conspiração nem um golpe, mas "o povo agindo por si e para si". O correspondente do Daily News não encontra nenhum chefe exercitando a "autoridade suprema" por lá, o que suscita um comentário irônico de Marx: “Isso choca a burguesia, que tem imensa necessidade de ídolos políticos e de 'grandes homens'". É certo que os militantes da Primeira Internacional tiveram papel importante nos eventos, mas a Comuna não pode ser explicada pela intervenção de um grupo de vanguarda. Em resposta às calúnias da reação, que apresentou a revolta como uma conspiração tramada pela AIT, Marx escreveu: "O entendimento burguês, todo impregnado do espírito policial, naturalmente imagina a Associação Internacional dos Trabalhadores como uma conjuração secreta, cuja autoridade central ordena, de tempos em tempos, explosões em diferentes países. De fato, nossa Associação nada mais é do que o vínculo internacional que une os trabalhadores mais avançados dos vários países do mundo civilizado. Em qualquer lugar, sob qualquer forma e sob quaisquer condições que a luta de classes ganhe consistência, é bastante natural que os membros de nossa Associação estejam na linha de frente”.

Se Marx fala às vezes de trabalhadores e às vezes de "povo" é porque está ciente de que a Comuna não é obra apenas da classe proletária no sentido estrito, mas também de setores da classe média empobrecida, de intelectuais, de mulheres de várias classes sociais, de estudantes e soldados, todos unidos em torno da bandeira vermelha e do sonho de uma República social. Sem mencionar os camponeses, ausentes do movimento, mas sem cujo apoio a revolta de Paris teria fracassado.

Outro aspecto da Comuna em que Marx insiste é seu caráter internacionalista. É certo que o povo de Paris se rebela em 1871 contra os políticos burgueses que capitularam e se reconciliaram com Bismarck e o exército prussiano. Mas essa explosão nacional nunca assume uma forma nacionalista; não apenas pelo papel dos militantes da seção francesa da Primeira Internacional, mas também porque a Comuna convoca combatentes de todas as nações. A solidariedade da Associação Internacional dos Trabalhadores e as reuniões de apoio à Comuna, realizadas em Breslávia e outras cidades alemãs, por iniciativa dos trabalhadores socialistas, são demonstrações desse internacionalismo do levante do povo parisiense. Como Marx escreve em uma resolução adotada por uma reunião de comemoração do aniversário da Comuna, em março de 1872, os communards eram “a vanguarda heroica... do ameaçador exército do proletariado universal”.

Tradução de Clarisse Meireles






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