Memória

A ruptura de 1964: população aprovava Jango e as reformas

Emir Sader: pesquisas feitas pelo Ibope em 1964, mas reveladas muito depois, mostraram que o presidente João Goulart tinha apoio da maioria da população

11/09/2021 11:28

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
Amplo apoio popular ao presidente João Goulart é o que mostram pesquisas do Ibope realizadas pouco antes do golpe de 1964, mas que só foram tornadas públicas nos anos 2000. Mesmo na cidade de São Paulo, como apontam as barras azuis do gráfico abaixo, onde ocorreu uma grande “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, convocada pela igreja católica, o presidente gozava de 72% de aprovação, com apenas 19% das pessoas entrevistadas qualificando seu governo como ruim ou péssimo.



As Reformas de Base contavam também com alto nível de aprovação:

“O Ibope revelou que 59% dos entrevistados eram a favor das Reformas de Base anunciadas por Jango no comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março. As medidas incluíam a desapropriação de terras às margens de rodovias e ferrovias e a encampação das refinarias estrangeiras. Em mensagem ao Congresso, o presidente havia proposto a reforma universitária e a reforma eleitoral, que daria direito de voto aos soldados e aos analfabetos”, revela o Memorial da Democracia.

Emir Sader, filósofo e professor de ciência política e sociologia, participou do documentário Rupturas, publicado por Carta Maior, em 31 de agosto, por ocasião dos cinco anos do golpe de 2016. Reproduzimos trechos de sua exposição:

“O Golpe militar de 1964 não foi um raio num céu azul, ao contrário, ele foi preparado pelo menos 15 anos antes. O antecedente mais importante foi a fundação da Escola Superior de Guerra, por Golbery do Couto e Silva e por Humberto Castelo Branco, que foram os dois protagonistas diretos do golpe: Castelo Branco foi o primeiro ditador, e Golbery foi o grande ideólogo e ministro do governo.

A Escola Superior de Guerra foi uma experiência que os militares brasileiros que tinham ido à Itália trouxeram para o Brasil, depois do contato com os norte-americanos, e foi a grande protagonista da Doutrina de Segurança Nacional durante a Guerra Fria.”

Tentativas anteriores de golpe

O professor Emir Sader rememora as tentativas de golpe que precederam 1964:

“Houve várias tentativas de golpe antes de 1964. A primeira delas foi a tentativa de derrubar Getúlio, em 1954. Ele adiou o golpe, digamos, com seu suicídio, a democracia ganhou 10 anos mais.

Sua candidatura foi questionada por Carlos Lacerda, que era jornalista-diretor da Tribuna da Imprensa, o grande opositor ao Getúlio, que disse ‘ele não pode ser candidato, se for candidato não pode ganhar, se ganhar não pode governar’.

Ele acabou conseguindo tomar posse, houve um movimento militar que ajudou a posse dele. O governo dele foi relativamente tranquilo, houve 2 tentativas de militares, isoladamente, de articular um golpe que não deu certo”.

A renúncia de Jânio Quadros e a recusa de certos setores a aceitar a posse de João Goulart levam a segunda tentativa descrita por Sader:

“O capítulo seguinte foi a renúncia de Jânio Quadros, que criou um vazio, João Goulart estava na China, criou um espaço eventual para um golpe. A junta militar tentou tomar o poder naquele momento e [não teve sucesso devido à] combinação de 2 coisas: primeiro a resistência de Brizola com a polícia militar do Rio Grande do Sul, a Brigada do Rio Grande do Sul, e, em segundo lugar, uma atitude conciliadora de certos setores políticos. Tancredo Neves foi importante, conseguiu a posse do Jango, contanto que houvesse o parlamentarismo, portanto, ele [Jango] estaria com os poderes limitados.”

Mídia, grande empresariado, embaixada norte-americana e partidos de direita

Sader descreve a união que se deu para promover a tentativa seguinte. Diz ele que o golpe militar de 1964:

“foi uma combinação, uma conjugação da mídia, toda mídia estava a favor do golpe - a única exceção era a Última Hora, jornal do Samuel Wainer, fundado na época do Getúlio ainda, sozinho, não tinha grande importância, era do Rio de Janeiro - o grande empresariado, os partidos de direita, especialmente a UDN, e a embaixada norte-americana, cujo governo financiava dois centros que formavam o pessoal, formulavam ideologia, difundiam a propaganda do golpe.

O golpe se deu em 31 de março, a gente chama de primeiro de abril para coincidir com a ideia da mentira. Uma mobilização militar de Minas Gerais impediu um pequeno esquema nacionalista, favorável a Jango, de ter qualquer capacidade de ação”.

Para defender a democracia era preciso destruí-la

Mesmo políticos civis que ajudaram o golpe foram retirados da vida política: os militares ocuparam todos os espaços. Continua o professor Sader:

“Mesmo alguns que estavam vacilando acabaram aderindo. E, o golpe foi protagonizado institucionalmente pelas Forças Armadas. A tal ponto que aqueles políticos civis foram deslocados. O próprio Carlos Lacerda e outros acharam que os militares interviriam episodicamente, tirariam os comunistas do poder e convocariam eleições, impedindo Juscelino de ser candidato.

As eleições de 65, se houvesse, teria Carlos Lacerda, Juscelino e Brizola. Os civis, como Carlos Lacerda, achavam que tinham a avenida pronta. Ao contrário, os militares tomaram posse e vieram para ficar, e implementaram a doutrina de segurança nacional, a militarização do Estado. Doutrina de segurança nacional é aquela ideia de que qualquer divergência, qualquer conflito, qualquer diferença seria sinal da subversão.

Os editoriais de jornais tinham a ideia haver um sujeito, Petebo Castro Comunista, quer dizer, o PTB, partido do Jango, Castro de Cuba, e a União Soviética, a China e tudo mais. Então, haveria de limpar, paradoxalmente para defender a democracia, destruir a democracia para limpá-la, para poder mais adiante ter uma democracia liberada dos fatores de subversão.”

A repressão

“Houve uma coisa simbólica, Gregório Bezerra, líder negro, comunista nordestino foi preso e arrastado pelas ruas do Recife por uma corda amarrada num Jeep, para mostrar até onde a ditadura estava disposta a chegar”, relembra Sader.

Criou-se um clima de que haveria grande oposição popular a Jango, que o presidente estaria completamente isolado:

“A repressão afetou diretamente os partidos de esquerda, uma depuração do parlamento, judiciário que tinha apoiado o golpe também foi vítima disso, a igreja católica participou diretamente do golpe e das grandes marchas, que a igreja tinha um papel importante, de ‘Deus com a Família pela Liberdade’, especialmente em São Paulo e Minas, demonstrando que o golpe teria um grande apoio, que haveria o isolamento de João Goulart. Criaram este clima.”

Apoio popular a Jango

O Jornal de Unicamp, de fevereiro de 2003, informa que o acervo doado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp é composto por “dezenas de pesquisas realizadas no período imediatamente anterior e nos meses posteriores ao golpe militar” e complementa: “Nos últimos dez dias de governo civil antes do golpe militar de 1964, o Ibope creditava ao presidente João Goulart um apoio significativo dos eleitores da maior cidade do País.”

Emir Sader nos relembra do conteúdo dessas pesquisas do Ibope e das razões para o apoio popular a Jango:

“Pesquisas feitas pelo Ibope, mas reveladas muito depois, mostraram que Jango tinha um grande apoio, apoio majoritário, em termos populares, pelas políticas que ele levava adiante, políticas salariais, mas também pelas duas grandes reivindicações que encarnava o governo dele, a reforma agrária, que era uma agrária limitada, só uma reforma agrária de 50 km entorno das rodovias federais, e a limitação da exportação de lucros pelas grandes empresas multinacionais. Eram reformas limitadas mas encarnavam o nacionalismo daquela época e que foi caracterizado como sendo um programa subversivo, comunista, ligado a Cuba…

Aí se instalou a ditadura militar. Foi uma ditadura que destruiu tudo que havia de democracia, em termos de meio de expressão, liberdade de discussão, escolas públicas, universidades, debates, tudo isso… aí passou a haver uma militarização do Estado.

Os militares ocuparam todo a primeira plana dos ministérios com duas exceções, criaram uma iniciativa, que depois se reproduziu ao longo do tempo. Pegaram um economista, nesse caso Delfim Neto, da faculdade de economia da USP e Gama e Silva, um jurista da faculdade de direito da USP. Eles precisavam de um economista, pois não entendiam nada, e, um jurista que redigisse os atos institucionais para dar uma certa cobertura jurídica, para justificar o que eles estavam fazendo.

“O santo do milagre econômico foi o arrocho salarial”

A economia mundial, em crescimento desde o final da guerra, e o arrocho salarial criaram o ambiente para um período de rápido crescimento econômico no Brasil.

“Foi uma ditadura militar que se deu, ao contrário dos outros países, ainda na época do ciclo de expansão, ciclo expansivo do capitalismo que vinha do fim da Segunda Guerra Mundial, por isso a ditadura no Brasil teve uma possibilidade de expansão econômica.

Claro que o chamado milagre econômico, o santo do milagre foi o controle dos salários, o bloqueio dos salários, por isso que foi possível… imagine a felicidade dos empresários de não ter campanha salarial, intervenção e militarização dos sindicatos, militarização das universidades, repressão que atingia diretamente partidos políticos de esquerda.”

Os vestígios

“Um regime brutal como a ditadura militar, que tratou de erradicar da sociedade e do Estado brasileiros tudo o que lhe parecesse vinculado à democracia, que se constituiu em uma ditadura de classe contra os trabalhadores e suas organizações, que tratou de ser um subimperialismo, aliado privilegiado dos EUA na região – não poderia desaparecer sem deixar vestígios. Ainda mais que a ditadura militar brasileira não foi derrotada, como aconteceu nos países vizinhos”, pondera Emir Sader em As heranças malditas da ditadura.

*Assista a íntegra da exposição do professor e cientista social Emir Sader na TV Carta Maior.

**Transcrição da exposição de Emir Sader por Pedro Aguiar.

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