Memória

Alejandro Nadal, gigante da preservação global

 

02/04/2020 13:56

 

 
Carta Maior lamenta profundamente a perda de um dos nossos melhores colaboradores internacionais, o economista mexicano Alejandro Nadal, autor de artigos majestosos e um dos economistas mais críticos do modelo neoliberal. Nascido na Cidade do México, formado doutor em Economia pela Universidade de Paris X, Nadal publicou seus últimos artigos em diversos sites espanhóis e mexicanos, e temos o orgulho de dizer que em Carta Maior, seu trabalho sempre teve um espaço de destaque. Em sua homenagem, reproduzimos este texto de um dos nossos parceiros internacionais, o diário mexicano La Jornada, com uma ode a este grande intelectual.

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Em 13 de abril de 2012, o então rei da Espanha, Juan Carlos de Borbón, foi caçar elefantes em Botsuana, tropeçou, quebrou o quadril e amassou a coroa. O revés iniciou o declínio político que culminaria com sua abdicação ao trono. O monarca estava em um safari naquele país africano acompanhado por sua amante.

Matar elefantes não é crime em vários países africanos. Todos os anos, 35 mil paquidermes são mortos no continente, em média um a cada 15 minutos. Este número, ao qual deve ser adicionada a mortalidade natural, já excede a taxa de natalidade de elefantes, que estão em risco de extinção.

Esses paquidermes – segundo explicava o economista Alejandro Nadal Egea, que morreu no último dia 16 de março – não são caçados. Na verdade, estão sendo exterminados. São animais que vivem em sociedade, são muito inteligentes, com um modo de vida exemplar, excepcional no reino animal, do qual deveríamos aprender. Eles sofrem por seus mortos, têm uma história. Por exemplo, uma matriarca é capaz de se lembrar do poço de água que sua família usou há 30 anos, quando requer recursos para sua manada.

A opinião de Alejandro não era improvisada nem romântica. Ele conhecia bem a vida do paquiderme, o comércio de marfim e a biodiversidade. Suas contribuições com Francisco Aguayo foram fundamentais para desmascarar o mito de que legalizar o comércio da vida selvagem é uma solução para proteger espécies ameaçadas de extinção. Ele denunciou a falsidade, sustentada em algumas esferas “ambientalistas”, de que a legalização desse negócio atua como um freio às transações ilegais, baseada na suposição de que, isso faria com que os preços caíssem. Pelo contrário, ele demonstrou como o comércio legal faz aumentar também a caça ilegal e a caça recreativa, uma vez que a demanda real por esses bens é maior que a oferta lícita. Pior ainda, se presta como cobertura para a ilegalidade.

Segundo Nadal, o comércio milionário de marfim por trás do assassinato de milhares de elefantes é uma metáfora da natureza predatória do capitalismo, que procura transformar qualquer coisa que o cruze em um espaço de lucratividade. De fato, o único uso do marfim é como um símbolo de status. Não produz nenhum dispositivo tecnológico sofisticado ou remédio para curar.

É também um negócio intimamente ligado ao comércio de escravos. Agora se fala em China – dizia ele –, mas no Século XIX, a Europa era o grande mercado de marfim. De onde veio? Os elefantes estavam na savana, no interior, não nos portos da África. Os empresários tiveram que ir lá para matar o animal, remover as presas e transportá-las. Eles fizeram isso através do comércio de escravos. O transporte do marfim foi possível graças às costas dos escravos, do seu sangue e da sua exploração.

Alejandro levou essa metáfora ainda mais longe, e argumentou que ela simbolizava os problemas de rentabilidade dos quais o capitalismo mundial sofre atualmente. Ele explicava que nós temos um problema de estagnação da rentabilidade do capital desde 2000. Antes disso, havia alguma recuperação, mas entre 1966, 1980 e 1985 havia uma tendência a quedas muito acentuadas nas atividades industriais e de serviços. Temos visto uma tendência de estagnação na economia global há 40 anos, uma queda na taxa de rentabilidade que levou ao aumento do capital financeiro.

Segundo ele, o capital financeiro procura todos os tipos de oportunidades de rentabilidade na especulação, e quando elas se esgotam, este se aventura no que foi chamado de “financeirização da natureza”.

Alejandro Nadal descobriu a economia quando terminou o curso de direito. Então, estudou doutorado em economia na Universidade de Paris X. Ensinou teoria econômica comparada no Colégio do México. Trabalhou em microeconomia, que é a teoria do mercado, de como os preços funcionam, de como a famosa mão invisível se comporta. Em seguida, se aventurou na macroeconomia, ou seja, na análise de economias capitalistas inteiras. Simultaneamente, conduziu vários estudos aprofundados sobre diferentes setores.

Também se preocupava com o que fazemos com o planeta, ele investigou e se dedicou a defender o meio ambiente. Documentou minuciosamente (como no caso dos elefantes) as forças econômicas que impulsionam a destruição do meio ambiente, das mudanças climáticas aos recursos genéticos. também foi membro do Conselho de Administração do The Bulletin of the Atomic Scientists.

Por mais de 20 anos, publicou religiosamente um artigo semanal em La Jornada, no qual explicava com rigor e relativa simplicidade questões complexas da economia nacional e internacional. “Eu acho que é muito importante tentar mostrar ao público em geral as coisas alarmantes que descobri em minha pesquisa”, disse em uma entrevista à revista In Motion. Aquelas colunas eram sua paixão. Ele escreveu o último artigo quando já estava gravemente doente, apenas uma semana antes de morrer.

No obituário de Alejandro Nadal, escrito pelo Dr. Adam Cruice no Journal of African Elephants, ele o descreve como “um gigante da conservação da vida selvagem global”, com um “legado colossal”. Segundo ele, seu imenso conhecimento ajudou a denunciar o comércio legal e o tráfico ilegal de espécies selvagens. No entanto, também é verdade que suas contribuições para a crítica do capitalismo contemporâneo foram além desse terreno. Desde já, vamos sentir sua falta.






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