Memória

Alertas, fiascos e significados dos 100 anos do fim da Primeira Grande Guerra

A "Grande Guerra" foi muito mais do que um prelúdio, foi o fim de um mundo. Nas comemorações do centenário de seu fim, além do perigo iminente de um novo conflito mundial, as inconveniências de Trump

12/11/2018 14:51

Usando táticas de guerra do século 19, mas com armamentos do século 20, a Primeira Guerra Mundial foi um desastre militar (John Warwick Brooke)

Créditos da foto: Usando táticas de guerra do século 19, mas com armamentos do século 20, a Primeira Guerra Mundial foi um desastre militar (John Warwick Brooke)

 

No último fim de semana, em Paris, líderes de pelo menos 70 países comemoraram, em Paris, o fim da 1ª Guerra Mundial (28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918). A comemoração foi marcada por alertas e fiascos. Os alertas falaram da paz mundial em perigo, de como a situação de hoje lembra a do começo do século 20 e mesmo a da Segunda Guerra (1939-1944), com a emergência de disputas nacionalistas e as políticas de fomento à pobreza e à recessão, além da xenofobia.

Os fiascos ficaram – surpresa? – por conta de Trump, suas danças e contradanças. Atacou o anfitrião, Emanuel Macron, por este ter falado num hipotético “Exército Europeu”. Não foi à homenagem aos soldados norte-americanos mortos na defesa da França. Não foi à sessão de pronunciamentos de líderes mundiais sobre os perigos da situação atual em relação à paz. Esnobou-os, com desculpas pífias. Bom, esnobou também a memória dos soldados norte-americanos. Os que votaram nele nos Estados Unidos que engulam isto.

Mas a Primeira Guerra Mundial está longe de ser compreendida pelos jovens de hoje.

Comumente se pensa nela como um prelúdio da Segunda Guerra. Claro: no cinema, por exemplo, a exposição desta é muito maior. Também é difícil compara-las numericamente, embora todos os algarismos sejam espantosos.

Por exemplo: total de mortos na Primeira Guerra: 17 milhões, 10 milhões de militares e 7 milhões de civis; na Segunda Guerra, 73 milhões, 24 milhões de militares e 49 milhões de civis.

Armamentos: modernos e deslocando as táticas antigas na Primeira Guerra; na Segunda, letalidade beirando o genocídio (sem falar no Holocausto), cujo ápice foram as bombas atômicas lançadas contra o Japão.

Mas a Primeira Guerra foi muito mais do que um prelúdio.

Foi o fim de um mundo. Quatro impérios soçobraram nela: o alemão, o austro-húngaro, o otomano e o russo. O britânico se aguentou nas pernas, mas saiu avariado, começando a perder a liderança mundial para os EUA.

Foi o começo de outro: pela primeira vez desde as invasões muçulmanas a maciça presença de exércitos de outros continentes foi decisiva em batalhas na Europa. A saber, a dos norte-americanos, com tropas frescas diante dos esgotados exércitos europeus, a partir de 1917.

A aventura comunista começava na então futura União Soviética. Haveria um realinhamento ideológico geral.

Militarmente, o desastre foi enorme. Os exércitos lutavam com táticas herdadas das guerras do século 19 mas com armamentos do século 20: metralhadoras, bombardeios à distância, aviação, armas químicas. Resultado: a estagnação nas trincheiras. Milhares de mortos entre lama, fome, ratos, piolhos, pulgas, doenças, cargas inúteis. Mortos e feridos aos milhares sem que se ganhasse um palmo de terreno.

Quando terminou a guerra, o descrédito nas instituições era total. Houve a tentativa da revolução spartakista na Alemanha, com sua sufocação sangrenta pelos Freikorps, inaugurando o caminho que levaria às SA e SS do futuro. Fundou-se a Liga das Nações, que logo afundou nas suas contradições.

Uma curiosidade: a herança literária e artística imediata da Primeira Guerra, do ponto de vista temático, é relativamente pequena, dado o alcance do conflito. A reação mais imediata veio da proliferação dos movimentos de vanguarda, detonando os valores artísticos consagrados desde o Renascimento, a consagração do verso livre (sem métrica), anti-melódico, branco (sem rimas, nesta altura é bom explicar), o uso da respiração e de suas pausas naturais como condutora do ritmo poético, a implosão das estruturas narrativas tradicionais, a definitiva consagração do teatro como um reino diverso da literatura, em que a dramaturgia é apenas mais um acessório, por vezes até dispensável.

Para completar: o Brasil entrou na Guerra, depois do torpedeamento, por submarinos alemães, de alguns navios nacionais no Atlântico. Enviou uma equipe de saúde e alguns militares observadores à Europa, escoltados por navios britânicos. Mas o momento marcaria um turning point da diplomacia brasileira, aproximando-se mais dos Estados Unidos.

E o resto é história...

*Publicado originalmente no Blog do Velho Mundo, da Rede Brasil Atual

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