Memória

Buscando o Comandante Ramón

 

14/06/2021 12:24

Médico, jornalista, escritor, diplomata e líder revolucionário, Che nasceu nasceu em Rosário, na Argentina (René Burri)

Créditos da foto: Médico, jornalista, escritor, diplomata e líder revolucionário, Che nasceu nasceu em Rosário, na Argentina (René Burri)

 
Quem leu meu último romance, O legado de Capitu, há de lembrar dois personagens, o co-protagonista Aroeira, ex-policial aposentado, e o figurante professor Paco, que aparece nas páginas iniciais. Para quem não leu, recapitulo: Aroeira e Paco encontravam-se, nos anos de chumbo da Ditadura Militar de 1964, num campo de futebol, nas proximidades do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e enquanto a garotada juvenil (nós) corria atras da bola, trocavam informações várias: quem fora preso, quem estava para ser preso, quem ia fugir por onde e precisava de apoio, etc. O professor Paco participava de uma rede de organização de fugas de perseguidos pela Ditadura para o Uruguai. Não poucas vidas foram salvas por essa rede e por aquela troca de informações no meio do campo, espaço onde eles atuavam.

Pois bem: Paco e Aroeira são transposições ficcionais de personagens da vida real, que conheci. Em especial, o professor Paco me contou esta e outras histórias durante um encontro, num boteco de Porto Alegre, regado a uma dose de caninha e um tanto de copas de vinho. E o que vou contar a seguir, com floreios e desfloreios de alguma ficção, é uma das histórias que ele me contou.

Nos idos dos começos de 1967 ninguém sabia ao certo qual era o paradeiro do Comandante Ernesto Che Guevara. Só se sabia ao certo - por parte de alguns iniciados - que ele tinha divergências com a orientação dominante no governo cubano - encabeçado por seu amigo e companheiro Fidel Castro - que era a de privilegiar o vínculo dependente com a União Soviética. Depois de fracassar na tentativa de estabelecer cabeças de ponte revolucionárias na África, Guevara sumira.

Mas os iniciados sabiam: Guevara estava envolvido em nova tentativa revolucionária, qual seja, a de estabelecer uma base guerrilheira no coração da América do Sul, a Bolívia, então dominada pela ditadura de René Barrientos. Só que entre estes iniciados se contava a CIA norte-americana, que informava os governos “aliados” da Bolívia, do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Em suma: o destino de Guevara estava traçado.

Como esta trama chegou aos ouvidos do professor Paco - o da vida real? Não sei. De que coletivo fazia parte o professor, naquela altura dos acontecimentos? Também não sei. O que escutei é que de alguma forma chegou aos ouvidos daquele coletivo a notícia de que Ernesto Che Guevara - agora com o nome de Comandante Ramón - estava na Bolívia, e de que seu destino estava traçado: a morte.

Seguiu-se daí uma decisão que pode parecer tresloucada hoje em dia. Mas lembremos: aqueles dias eram dias tresloucados. Não que os de hoje não o sejam, mas a treslouquice é outra. Qual a decisão? Enviar um emissário à Bolívia, encontrar Guevara, convence-lo a abandonar a aventura fadada ao fracasso, vir para o Rio Grande do Sul, onde já havia planos para acoberta-lo até que pudesse partir para outros destinos. Quem foi o encarregado desta tresloucada aventura? O professor Paco.

E lá se foi ele. Tinha uma cobertura institucional. Protocolarmente, viajava pelo norte da Argentina (área de ação conjunta dos guerrilheiros de Guevara) e pela Bolívia para preparar futura ida de um dos melhores corais que o Rio Grande do Sul e o Brasil já tiveram. Além disto, levava livros e livros de literatura brasileira para serem doados a bibliotecas destas regiões. Origem dos livros? O Instituto Nacional do Livro, presidido por um eminente intelectual gaúcho, excelente poeta e grande crítico literário, que tinha boas relações com o professor Paco. Saberia ele da missão secreta de Paco? Duvido. Mas não elimino a possibilidade.

Em sua missão, o professor Paco encontrou demasiados problemas. Primeiro, encontrar Guevara, e em missão secreta, não era fácil. Segundo, o que não era claro: os contatos que o professor Paco levava consigo dependiam do Partido Comunista da Bolívia, e as relações do cúpula deste com os guerrilheiros não eram boas. Havia contenciosos entre Guevara e o líder comunista, Mario Monte. Motivos? Desde disputas de comando até divergências de fundo, porque o PC boliviano era profundamente ligado a Moscou, que não via com bons olhos o “aventureirismo” do Comandante Ramón.

O resultado foi que, de fato preparando a viagem do coral e entregando livros a bibliotecas, o professor Paco ficou tentando em vão fazer um contato com o grupo de Guevara. Tentou em todas as frentes: os aguerridos mineiros bolivianos, movimentos campesinos, indígenas, e nada. Contou-me ele que algumas das pessoas contactadas diziam que sim, Guevara poderia estar perto dali, mas se recusavam a abrir o contato, por… disciplina.

Guevara mesmo tentara furar o bloqueio a que estava submetido, circulando “em oito”, como me descreveu Paco, em torno das minas ou de outros grupos. Sem resultado.

Foi uma tortura. Paco voltou ao Rio Grande de mãos vazias. Bem, nem tanto. A viagem do Coral, algum tempo depois, foi um sucesso. Se há livros de literatura brasileira nas bibliotecas do norte da Argentina e na Bolívia, isto se deve à tresloucada tentativa de salvar Guevara de seu destino trágico.

O resto é História.



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