Memória

Com Francisco de Oliveira, vai-se muito de nossa imaginação

 

15/07/2019 15:12

 

 
Com a morte do sociólogo e economista Francisco de Oliveira, perdemos todos nós um pouco da imaginação. As ciências sociais e a esquerda sentirão falta de um de seus mais ativos e profundos pensadores, assim como um dos críticos mais mordazes do capitalismo brasileiro.

Militante socialista desde a sua juventude, na operária e revolucionária Recife, simpatizante do PCB, fundador do PT e do PSOL, a trajetória de Chico de Oliveira é marcada pela vivacidade de um marxismo aberto e não dogmático, que não deve ser confundido com ausência de rigor e radicalidade. Sua obra expressa de maneira estrepitosa essas características na reflexão da realidade brasileira. Esse caráter heterodoxo de seu pensamento inclusive permitiu com que mudasse de opinião muitas vezes, sem abrir mão de uma certa coerência, ecoando a famosa frase atribuída a Keynes: “quando os fatos mudam, eu mudo minha opinião. E o senhor, o que faz?”

Sua contribuição ao debate sobre o problema brasileiro se inicia ainda na década de 1950 como importante dirigente da SUDENE, onde permaneceu até os primeiros dias do golpe de 1964, quando foi preso em Recife. Como em Celso Furtado, a questão regional, a partir de sua vivência no nordeste, é a porta de entrada que utilizará para mudar a maneira como o pensamento crítico, particularmente o produzido em são Paulo, via o desenvolvimento do capitalismo no Brasil naqueles anos após o golpe empresarial-militar de 1964.

Curiosamente, seus acertos começaram dialeticamente com um erro, admitiria o próprio ao comentar o seu “O Plano de ação econômica do governo Castello Branco: por que não terá êxito” de 1965, onde suas previsões, como hoje sabemos, falharam.

Já a partir de 1970, em São Paulo, associa-se ao CEBRAP e ali desenvolve sua principal tese, expressa na sua obra mais importante: “A Crítica à Razão Dualista” (1972). Essa obra marca uma ruptura de Chico com a noção, muito presente no pensamento da CEPAL e de toda intelectualidade crítica brasileira naquele momento, de que aqui o capitalismo era marcado por uma divisão entre nichos econômicos modernos, associados ao capitalismo global, e amplos setores arcaicos que conviviam entre si e mantinham dinâmicas isoladas de reprodução social. Oliveira demonstrou, que, na realidade, essa divisão funcionalista, entre dois setores estanques era falsa, e que na realidade, eles se retroalimentavam no processo de reprodução do capital no Brasil e faziam parte da mesma dinâmica de modernização excludente em curso naqueles anos. O progresso se alimentava do atraso, no capitalismo do “milagre econômico”. Aliás, diga-se de passagem, foi outro membro do Cebrap, o professor Paul Singer, em “As Contradições do Milagre” (1973), ecoando o caminho aberto por Oliveira, a demonstrar que o Milagre Econômico se devia ao intenso arrocho salarial ali implementado, quando muitos, iludidos pelo crescimento daqueles anos, acreditavam que vivíamos um processo de melhoria da distribuição de renda em nosso país.

A crítica a Celso Furtado e à CEPAL levaram-no a reavaliar o tema já abordado em 1966 em “Condições Institucionais do Planejamento”: a questão regional, particularmente o planejamento regional e especificamente a experiência da SUDENE, em “Elegia para Uma Re(li)gião” de 1977 e trinta nos depois, na forma de memórias, em “A noiva da Revolução”. Nessas obras ele decifra o processo de integração subordinada do nordeste ao capitalismo brasileiro e a destruição da própria noção de região econômica autônoma. Ali apresenta uma crítica à ilusão do planejamento como panaceia para o desenvolvimento socioeconômico, tão presente nos escritos da CEPAL e na política econômica da ditadura.

Já na década de 1990, após uma experiência na França de Miterrand, se engaja em experiências reformistas que, acreditava, alargassem direitos para a classe trabalhadora. Apostou na participação nas Câmaras Setoriais e logo se desiludiu. O capitalismo varria mesmo tudo pela frente, concluiu Chico.

A partir dali se reaproxima da noção da necessidade de uma ruptura forte com o capitalismo brasileiro – ainda que cético de suas possibilidades concretas, já para isso haveria necessidade que a esquerda realmente o quisesse. Essa mudança de perspectiva o levou a um afastamento definitivo do PT a partir da eleição de Lula em 2003 e posterior entrada no PSOL.

Para Chico, a esquerda tem acima de tudo um papel civilizatório, e portanto, seus compromissos com a mudança de longo prazo não podem ser negociados ou mesmo abandonados no curto prazo da luta política conjuntural. Nesse sentido, a preocupação do sociólogo e economista estava mais diretamente associada à inexistência na esquerda brasileira de uma teoria da nova nação que queremos do que necessariamente ao grau de radicalidade do programa. Essa lacuna, recorrente desde o PCB – a falta de um diagnóstico do país e de um programa para a sua transformação devidamente associado a uma visão de futuro – ecoava a crítica de Lênin, que dizia que o México havia feito uma revolução sem teoria. Chico acreditava que a revolução brasileira não pode ocorrer sem esse projeto de nação.

Já na década de 1990, tendo feito as pazes com o legado intelectual de Celso Furtado, comparou o magistral “Formação Econômica do Brasil” ao “Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia”, do líder bolchevique. O que Chico e Lênin tinham em comum era o grande valor dado à ideia de que as transformações revolucionárias começam pela compreensão profunda de seu próprio país.

Em tempos tão sombrios como o que vivemos, são muitas as lições do marxista iconoclasta Chico de Oliveira. A larga conjuntura histórica de desmonte da identidade da classe trabalhadora a partir da fragmentação do trabalho e do individualismo, para não falar dos profundos ataques às suas conquistas, nos relembra que, apesar do seu pessimismo da razão, Chico nunca abandonou a militância pela urgente e histórica necessidade de constituição de agentes políticos comprometidos com a ruptura da barbárie que é o capitalismo brasileiro. Pensadores originais e com a radicalidade critica do nosso autor serão desde aqui uma necessidade urgente para que possamos transitar no atual túnel escuro em que nos encontramos, sendo a luminosidade de sua criatividade e seu engajamento político talvez o seu maior ensinamento para os que, mesmo em meio aos escombros, insistem em acreditar no futuro do Brasil.

Cláudio Puty é Professor da Faculdade de Economia, UFPA

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