Memória

David Graeber (In memoriam): Como a dívida moldou a humanidade

Nos últimos 5.000 anos, o que tornou o conceito de dívida tão estranhamente poderoso?

08/09/2020 12:09

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A dívida dos consumidores é o sangue vital de nossa economia. Todos os estados-nação modernos são construídos sobre orçamentos deficitários.

A dívida passou a ser a questão central da política internacional. Mas ninguém parece saber exatamente o que é, ou como pensar a respeito.

O poder da dívida sobre os humanos

O próprio fato de não sabermos o que é dívida, a própria flexibilidade do conceito, é a base de seu poder. Se a história mostra alguma coisa, é que não há melhor maneira de justificar relações fundadas na violência, de fazer essas relações parecerem morais, do que reformulá-las na linguagem da dívida. Acima de tudo, porque imediatamente parece que é a vítima quem está fazendo algo errado.

Você me deve

Os mafiosos entendem isso. O mesmo acontece com os comandantes de exércitos conquistadores. Por milhares de anos, homens violentos puderam dizer às suas vítimas que elas lhes devem algo.

No mínimo, eles “devem suas vidas” (uma frase reveladora) por não simplesmente matá-los.

Hoje, por exemplo, agressão militar é definida como crime contra a humanidade. Os tribunais internacionais, quando acionados, geralmente exigem que os agressores paguem uma indenização.

A Alemanha teve que pagar indenizações massivas após a Primeira Guerra Mundial, e o Iraque ainda está pagando ao Kuwait pela invasão de Saddam Hussein em 1990.

Um debate sem fim

As discussões sobre dívidas acontecem há pelo menos 5.000 anos. Durante a maior parte da história humana - pelo menos, a história de estados e impérios – a maior parte dos seres humanos foi informada de que eram devedores.

Por milhares de anos, a luta entre ricos e pobres assumiu, em grande parte, a forma de conflitos entre credores e devedores. As discussões versavam sobre os acertos e erros no pagamento de juros, servidão por dívidas, anistia, reintegração de posse, restituição, sequestro de ovelhas, apreensão de vinhas e venda de filhos de devedores como escravos.

Dívida e insurreição

Da mesma forma, nos últimos 5.000 anos, com notável regularidade, as insurreições populares começaram da mesma maneira: com a destruição ritual dos registros de dívidas - tábuas, papiros, livros, qualquer forma que pudessem ter assumido em qualquer época e lugar específicos .

Se olharmos para a história da dívida, então, o que descobriremos antes de tudo é uma profunda confusão moral.

Sua manifestação mais óbvia é que, em quase todos os lugares, encontramos que a maioria dos seres humanos acredita simultaneamente que, primeiro, devolver o dinheiro emprestado é uma simples questão de moralidade e, segundo, qualquer pessoa que tenha o hábito de emprestar dinheiro é má.

Igreja católica e dívida

A Igreja Católica sempre proibiu a prática de emprestar dinheiro a juros. No entanto, essas regras muitas vezes caíram em desuso. Isso fez com que a hierarquia da Igreja autorizasse campanhas de pregação, enviando frades mendicantes para viajar de cidade em cidade avisando os usurários que, a menos que se arrependessem e fizessem a restituição total de todos os juros extraídos de suas vítimas, eles certamente iriam para o Inferno.

Esses sermões, muitos dos quais sobreviveram, estão cheios de histórias de terror do julgamento de Deus sobre credores impenitentes.

São histórias de homens ricos abatidos pela loucura ou doenças terríveis, assombrados por pesadelos no leito de morte de cobras ou demônios que logo rasgariam ou comeriam sua carne. No século 12, quando tais campanhas atingiram seu auge, sanções mais diretas começaram a ser empregadas.

O papado deu instruções às paróquias locais para que todos os usurários conhecidos fossem excomungados.

Eles não deveriam receber os sacramentos, e sob nenhuma condição seus corpos poderiam ser enterrados em solo sagrado.

Olhando para a vastidão da literatura mundial, é quase impossível encontrar uma representação simpática de um agiota - ou mais certamente, de um agiota profissional, o que significa por definição aquele que cobra juros. Não tenho certeza se existe outra profissão (carrascos?) com uma imagem tão consistentemente ruim.

É especialmente notável quando se considera que, ao contrário dos algozes, os usurários geralmente estão entre as pessoas mais ricas e poderosas de suas comunidades. No entanto, o próprio nome, “usurário”, evoca imagens de agiotas, dinheiro de sangue, libras de carne, a venda de almas.

Diabo e dívida

E por trás de todos eles está o Diabo, frequentemente representado como uma espécie de usurário, um mau contador com seus livros e registros diários.

Ou, alternativamente, como a figura que surge logo atrás do usurário, aguardando até que possa reaver a alma de um vilão que, por sua própria ocupação, claramente fez um pacto com o Inferno.

Dívida e outras religiões

Outras tradições religiosas têm perspectivas diferentes. Nos códigos de leis medievais hindus, não eram apenas permitidos empréstimos com juros (a principal estipulação era que os juros nunca deveriam exceder o principal). Mas era frequentemente enfatizado que um devedor que não pagasse renasceria como escravo na casa de seu credor - ou, em códigos posteriores, renasceria como seu cavalo ou boi.

A questão central então se torna esta: o que exatamente significa dizer que nosso senso de moralidade e de justiça é reduzido à linguagem de um negócio? O que significa quando reduzimos as obrigações morais a dívidas?

Dinheiro e moralidade

O fator crucial é a capacidade do dinheiro de transformar a moralidade em uma questão de aritmética impessoal - e, ao fazer isso, justificar coisas que, de outra forma, pareceriam ultrajantes ou obscenas.

Se você acabar tendo que abandonar sua casa e vagar por outras províncias, se sua filha acabar em um campo de mineração trabalhando como prostituta, bem, isso é uma pena - mas é apenas acidental para o credor. Esse é realmente o mundo em que queremos viver?

Nota do editor: este texto foi adaptado de “Debt: the first 5.000 years”, de David Graeber.

[Diz o jornal The Guardian: o antropólogo David Graeber, que morreu repentinamente aos 59 anos, em 2/9/20, foi marcadamente bem sucedido em unir a pesquisa com a ação direta. Ele teve grande influência no movimento Occupy Wall Street e é tido como o criador da afirmação: “Nos somos os 99%.”]

*Publicado originalmente em 'The Globalist' | Tradução de César Locatelli

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