Memória

Exposição em São Paulo celebra vida, obra e legado do jornalista Vladimir Herzog

Mostra ocorre no Itaú Cultural até 20 de outubro e traz fotografias, reportagens e curta-metragem produzido por Vlado

13/09/2019 13:16

Uma das imagens expostas na Ocupação Vladimir Herzog; Exposição ocorrerá até 20 de outubro e tem entrada gratuita (Acervo do Instituto Vladimir Herzog)

Créditos da foto: Uma das imagens expostas na Ocupação Vladimir Herzog; Exposição ocorrerá até 20 de outubro e tem entrada gratuita (Acervo do Instituto Vladimir Herzog)

 
O Itaú Cultural da Avenida Paulista abriu as portas nesta quarta-feira (14) para a Ocupação Vladimir Herzog, exposição que celebra a vida e convida o público para conhecer a trajetória de "Vlado", como era conhecido na intimidade. O jornalista foi assassinado em outubro de 1975, durante a ditadura militar, e se tornou símbolo da luta pela redemocratização.

Realizada em parceria com o Instituto Vladimir Herzog, a mostra, que tem entrada franca e vai até 20 de outubro, traz fotografias, reportagens e dezenas de cartas trocadas entre Vlado e cineastas de todo o mundo.

O jornalista teve uma breve carreira no cinema e chegou a dirigir, em 1963, um curta-metragem chamado Marimbás. A obra, que pode ser vista na exposição, é resultado de um curso feito com o cineasta sueco Arne Sucksdorff e é considerada a primeira fita brasileira a utilizar som direto.

Os visitantes também entram em contato com outra característica pouco conhecida de Herzog: a mostra reúne uma série de fotografias tiradas pelo jornalista. Os registros apresentam tanto aspectos desconhecidos de sua vida familiar, quanto de suas viagens.

“É a primeira vez que a gente trata da temática da vida do meu pai e deixa de olhar um pouco a morte. A gente precisava – e a exposição faz isso muito bem – humanizar meu pai. Mostrar o ser humano, quem era a pessoa, como era a cara dele, o que ele usava, como escrevia”, afirma Ivo Herzog, filho de Vlado.

Ivo, que tinha apenas nove anos quando o pai foi assassinado, conta que não conhecia grande parte da composição do acervo. “Tem muita história que eu não conheço. Tem muito material que eu não conheço. Depois que meu pai morreu houve uma espécie de bloqueio. Não quis me envolver com essas coisas para me preservar. Então eu quero conhecer o meu pai. Eu vim aqui para conhecer o meu pai”.

Para Nemércio Nogueira, que foi colega de Herzog na TV Cultura e nos jornais O Estado de S. Paulo e BBC, “Vlado se tornou um nome conhecido pela sua morte, o que é muito cruel, porque ele tinha todo um trabalho feito antes. E o objetivo da exposição foi justamente mostrar isso, falar do ele fez, como fazia e como ele era. Isso é sensacional”.

O Caso Herzog, como ficou conhecido o assassinato do jornalista após ele se apresentar voluntariamente às autoridades do DOI-CODI, também tem espaço na exposição. Entre os documentos apresentados estão as duas certidões de óbito do jornalista. A primeira traz “suicídio como causa de sua morte. A mais recente, entregue à família em 2013, informa que o óbito foi causado por “sufocamento por asfixia mecânica”.

Sergio Gomes, jornalista que foi amigo de Vlado, elogia o olhar sobre "vida e não sobre a morte" e ressalta que "é preciso lembrar que ele morreu com 38 anos".

"Ele teve pouco tempo para fazer coisas, mas fez muitas. No meio de uma turbulência tão grande com a situação do Brasil, temos aqui uma grande confraternização que só o Vlado poderia produzir. A casa está cheia e só o Vlado poderia produzir uma reunião desse tipo”, diz.

A exposição é só um pontapé sobre a obra do jornalista. O Itaú Cultural e o Instituto Vladimir Herzog pretendem continuar investigando a produção de Vlado.

Segundo Ronald Sclavi, que trabalhou na pesquisa que compôs parte da exposição, “a investigação da obra de Vlado, ainda sobre o patrocínio do Itaú Cultural, irá virar um acervo no site do Instituto Vladimir Herzog. Estamos mergulhando nisso no detalhe. A exposição é o começo. Ela não encerra, mas é um bom início e fico emocionado de me fazer presente nesse trabalho”.

Vladimir Herzog

Herzog nasceu em 27 de junho de 1937, na Iugoslávia, em Osijek (atual Croácia). Vlado, seu nome de batismo, foi adaptado para Vladimir quando chegou em São Paulo aos 10 anos de idade. A vinda para o Brasil ocorreu como forma de escapar do antissemitismo em curso na Europa.

Ele se formou em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e se tornou jornalista, editor e professor, passando por diversas redações, entre elas as dos jornais O Estado de S. Paulo e BBC.

Foi assassinado em São Paulo em 25 outubro de 1975, após se apresentar voluntariamente às autoridades do DOI-CODI, centro de inteligência e repressão da ditadura. À época, ocupava o cargo de diretor de jornalismo da TV Cultura.

Seu assassinato provocou comoção imediata em seus colegas. O choque causado pelo assassinato representa um dos momentos de maior ruptura da ditadura militar. Um marco da época foi o ato ecumênico realizado na Catedral da Sé, cerca de uma semana após o assassinato. O ato inter-religioso reuniu milhares de pessoas para homenagear o jornalista.

O assassinato ainda reverbera. Em julho de 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o Estado brasileiro pela falta de investigação, julgamento e punição dos responsáveis pela prisão, tortura e morte de Vlado.

Serviço

A Ocupação Vladimir Herzog acontece no Itaú Cultural, que fica na Avenida Paulista, 149, São Paulo. A visitação ficará aberta até 20 de outubro e tem entrada gratuita. A mostra é livre para todos os públicos, exceto a seção Caso Herzog, que é indicada para maiores de 12 anos.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira

*Publicado originalmente no Brasil de Fato



Conteúdo Relacionado