Memória

Galeano: líder dos indignados - apresentação

 

13/04/2020 17:20

 

 
APRESENTAÇÃO

Ao ser convidado para escrever a apresentação desta homenagem, se assim podemos chamar, um Tributo a Eduardo Galeano (1940 – 2015), no dia do quinto aniversário de sua morte, deparei-me com uma tarefa (que mostrou-se) estranha, difícil e, ao mesmo tempo, prazerosa. Prazerosa porque, o que dele li, são textos de uma beleza ao mesmo tempo vibrante, calmamente sincera e muito contundente, um dizer muito franco e honesto, sem subterfúgios, e essas são características que nele aprecio muito e admiro muito; difícil, porque Galeano não é o tipo do escritor que se pode incluir em um determinado gênero literário, porque além de jornalista, ele trafegou à vontade por muitos gêneros, e não há com quem compará-lo, e nem como definir sua escrita, ela é simplesmente singular; estranha, porque com Eduardo também penetramos em um mundo de sutilezas, onde corpo e alma não são distintos, como ele mesmo afirmava, propondo-nos a junção desses dois estados, em um corpalma ou em um almorpo, sendo ele mesmo um sentipensante. Assim, tudo o que vai aqui adiante, vai assim, meio aos tropeços, e até timidamente. Não se pode enxergar completamente Eduardo Galeano, o poeta, o escritor e o jornalista, porque é algo que só se vê lendo e, lendo, é como entrar em uma conversa que sempre, saudavelmente, revela novos rumos e nos chama à ação.

João José de Melo Franco

Rio de Janeiro, 13 de maio de 2020

INDIGNAÇÃO É FUNDAMENTAL!

Todo mundo tem uma perna no inferno. Eduardo Galeano tinha as duas, segundo a direita cristã (esta que é abertamente contrária ao atual papa Francisco), os banqueiros e seus juros, a elite local, sempre subserviente aos mandos e desmandos dos países do norte, os pastores de carteirinha e de dízimos, os psicanalistas de balcão e suas igrejinhas de mercado, os filósofos copiadores e emendadores de textos, e os que gostam de dar porradas em quem ousa falar verdades.

Pois é assim que a coisa funciona aqui na nossa América Latina, com os mandos e desmandos dos defensores do neoliberalismo, que vem se lambuzando com o Estado Mínimo, o autoempreendedorismo indigente e a Informalidade persecutória. São eles nossos acusadores e os nossos juízes, e decidem quais devem ser as nossas virtudes sociais, políticas e econômicas, além de rirem do nosso amor pela vida, que para eles nada é além de cifra.

            Há muito a voz de Eduardo Galeano levantou-se entre as vozes dos povos latino-americanos, clara e lúcida, e eu tive a sorte de tê-la ouvido não muito tarde e a tempo de incluí-la em minha própria mirada e em meu horizonte. Muitos anos atrás, em um verso inspirado em As veias abertas da América Latina, seu livro mais famoso, escrevi: “A um homem, nada mais que a indignação/ e o amor pela vida”.

Amor pela vida! Amor e indignação! É o que Galeano tinha, disse e escreveu, com a simplicidade de quem sai de casa para comprar pão ou qualquer coisa que necessite, ou caminhar a esmo, como mais um entre tantos. Simplicidade tamanha, em As veias abertas, que qualquer um que saiba ler entender que nós, dos “países do sul do mundo”, nascemos desde sempre indignos, e a nós não é permitido distinguir Deus do Diabo, e se somos convidados para a festa do mercado mundial, devemos ser virtuosos na obediência aos donos da festa... No prefácio para a última edição brasileira de As veias abertas da América Latina (L&PM, Porto Alegre, 2010), ELE escreveu :

O autor lamenta que o livro não tenha perdido atualidade. A história não quer se repetir - o amanhã não quer ser outro nome do hoje -, mas a obrigamos a se converter em destino fatal quando nos negamos a aprender as lições que ela, senhora de muita paciência, nos ensina dia após dia.

Mais adiante, no mesmo prefácio, acrescenta:

Segundo voz de quem manda, os países do sul do mundo devem acreditar na liberdade do comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos (embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço).

           

            Em As veias abertas da América Latina não há o que não entender. É tudo muito claro. E não há como não nos identificarmos, pois é a nossa verdadeira história. Ali somos chamados para uma conversa onde, sobre a mesa entorno da qual nos sentamos, nos deparamos com os corpos de muitas pessoas que habitaram e ainda habitam a nossa geografia menos conhecida, mas muito imediata. A América Latina, lugar de dessa conversa, é a nossa própria casa, queiramos ou não. Aquele que conversa conosco vai ali pacientemente narrando, descrevendo, enfim, mostrando o que devemos olhar com coragem, ainda que muito nos aterrorize ver o que as histórias oficiais ainda tentam hoje esconder e apagar da memória dos latino-americanos, frequentemente mudando estrategicamente o nome da carnificina a que se sempre se dedicaram nossos patrões, que tantos, zumbis ainda encantados pela antiga cantiga de ninar da bem-aventurança dos ricos, creem ser benfeitores. No último parágrafo do último capítulo, acrescentado por Eduardo Galeano em 1978, ele diz e chama aos sonolentos:

Toda memória é subversiva...

Obriga-se o zumbi a comer sem sal: o sal, perigoso, poderia despertá-lo...

           

            Pelo pouco que até aqui se caminhou, e apenas em As veias abertas, pode-se imaginar o quando ainda nos faltaria para dar a ver uma dimensão maior do que Eduardo Galeano escreveu. Mas não é esse o nosso propósito, pois muitos outros também foram convidados para esta homenagem e devemos ouvi-los. Acelero meus passos com uns versos do homenageado:

Certa manhã, ganhamos de presente um coelhinho das Índias.
Chegou em casa numa gaiola. Ao meio-dia, abri a porta da gaiola.
Voltei para casa ao anoitecer e o encontrei tal e qual o havia deixado: gaiola adentro, grudado nas barras, tremendo por causa do susto da liberdade.

Para concluir, devo dizer que nada sei dos dias de homem comum de Eduardo Galeano, mas sei, por seu legado, que não era um homem comum, embora não demonstrasse nenhum desejo de ser incomum e dizia que, por não ter formação acadêmica, não se considerava um intelectual, e tudo o que aprendera, aprendera arriscando-se pelos caminhos que encontrou, e assim construiu seu ideário. E este seu caminhar, tão frutífero, é um bom motivo para que olhemos para ele agora e para os ditos e escritos que deixou. Galeano costumava exemplificar a motivação dessa sua caminhada, contando a história da resposta que seu amigo, o cineasta argentino Fernando Birre, dera à pergunta de um ouvinte em uma palestra:

Pergunta:

Para que serve a utopia?

Resposta:

A utopia está no horizonte e eu sei muito bem que nunca a alcançarei, pois se dou dez passos, ela se distancia dez passos. Quanto mais caminho e a busco, mais ela se distancia... Boa essa pergunta: Para que serve a utopia? Pois a utopia serve para isso... para caminhar!

No dia 13 de abril de 2015, Eduardo Galeano, que não fazia distinção entre a realidade e os sonhos, e os desejos, e o porvir, partiu como quem parte simplesmente para outra viagem, dentro da grande realidade que é a vida. E nos jornais desse dia bem poderiam ter sido estampadas primeiras páginas de jornais com manchetes como: “Eduardo Galeano saiu em viagem... Não sabemos para onde foi!”. E logo abaixo da grande notícia, um subtítulo em letras menores: “Nem o Céu e o Inferno se pronunciaram. Há um grande silêncio no continente...” .

Talvez uma pista para o destino de sua última viagem esteja no depoimento que Eduardo deu em uma entrevista para um documentário, poucos anos antes de sua partida:

Se há outro mundo possível, esse outro mundo possível está dentro da barriga deste (mundo) e temos que ajudá-lo a nascer. Esse parto não vai ser fácil, e para isso a energia da indignação é fundamental!

É como se o mundo estivesse grávido de outros “mundinhos”, de outros mundos bem melhores que este. Há que ajudá-los a nascer!

(João José de Melo Franco é poeta e editor.)






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