Memória

Homenagem a Chico de Oliveira

 

14/07/2019 12:47

 

 
Pois olhem, amig@s:

Desesperado pelas perdas acumuladas, recebi ajuda do próprio Chico de Oliveira. Sem cerimônia, ele entrou pela janela de meu quarto (ou teria sido através da parede, posto que janela estava fechada?) e foi dizendo, com aquela vozinha meio rouca e aflautada que ele tinha:

- E aí, Flavio? Como estão as coisas aqui por Berlim?

Eu, que estava dormindo, respondi, com a voz estremunhada, quase de além túmulo:

- Olha, Chico, não tão ruins como no Brasil, mas aqui as coisas também não vão nada bem. O Salvini e o Steve Bannon cavalgam contra o Papa Francisco, o Macron não sabe o que fazer  e a Merkel treme a cada dia que passa.

- Mas tu não vai desistir agora, não é?

- Chico, desistir?  Alguma vez nós desistimos?

- Sei lá, Flávio. Faz tanto tempo que a gente não se vê. E no Brasil hoje tanta gente desistiu de tanta coisa: da decência, da razão, da inteligência, da espinha dorsal…

- É verdade, Chico. Mas a gente nunca desistiu. Te lembras do tempo do Movimento?

- Claro que lembro! Tu, o Raimundo, o Bernardo, o Murilo, eu, mais aquela turma toda, todo mundo junto… Até o Sergião!!! E a a gente fazia reunião até com o FHC!!!!! E vinha o Alencar Furtado, o Chico Buarque, o Fernando Peixoto, o Hermilo Borba Filho...

- É, e depois veio o tempo da Carta Maior, com o BK, o Palhares, e mais um pacote de guris e gurias bons de luta… A gente se sentia como naquele filme, “Um punhado de bravos”, só que não estávamos cercados pelos índios, mas pela cavalaria americana… quem nem hoje…

- Tu sabe, Flavio, falando do jornal, nem sei o que me encanta mais, se a lembrança daquela luta ombro a ombro, teclado a teclado, ou se a daquela última festa, antes que tudo desandasse na brigalhada do racha divisionista. Te lembra? No meio do salão, nós, a turma toda, dançando xaxado junto, a gente punha algo no meio: a censura, o ministro, o policial, e pisava em cima no compasso do xaxado… Ai que me dói-me o coração só de pensar…

- Calma, Chico, não vai morrer de novo aqui no meu quarto. Não sei se o meu coração aguenta… É, mas eu lembro sim. Depois fomos cada um prum lado. Mas curioso: continuamos no mesmo barco, embora cada um achasse que ele ia pruma direção diferente.

- Daí a gente militou junto na USP, na Boitempo, na Carta, nas quebradas da vida, sempre amigo, isso é que é bonito! Reconhecer a diferença e continuar amigo! Eu me lembro de quando me deste o teu romance Anita preu ler. Aquelas passagens em que o tu falas do Frei Caneca e dos seus filhos, no Recife querido…

- Ô Chico, se continuar assim, eu me derreto e vou m’embora contigo! Porque eu me lembro da última vez em que a gente se viu. Foi lá na USP, tu tava recebendo o título de cidadão paulistano e cantavas o hino de Pernambuco!

- Não, a gente se viu depois, bem depois, lembro que estava frio, nós dois de casaco preto, e na despedida a gente se abraçou.

- Chico companheiro, guardo-te em meu peito e te asseguro, o nosso afastamento passageiro é sinal de um encontro no futuro! É do Iêssienin, o grande poeta russo.

- Segura aí Flavio. Não te apressa em vir para cá. Continua tua faina por aí.

- Pode deixar, Chico, eu juro que tu não vai te envergonhar de mim.

- Bom, tenho de ir. O Paulo Henrique Amorim me espera com uma cachacinha que ele trouxe junto, e o João Gilberto vai fazer o fundo musical… Adeus, Flavio!

- Chico, Adeus!

E puf! Ele se esfumou no ar. E eu… acordei? Ou voltei a ficar dormente neste cotidiano podre em que estamos vivendo?

Sei lá. Era de madrugada. E vi que fora da janela garoava e o Chico me olhava, sorrindo...

Nota da redação:

Chico de Oliveira foi um dos maiores colaboradores da Carta Maior, seus primeiros textos datam de 2001, ano da fundação do nosso veículo alternativo. Depois publicou dezenas de textos e participou da cobertura de dois Fóruns Social Mundial, com a tarefa de analisar as principais mesas de debates, bem como participar de debates e entrevistas com Flavio Aguiar, que foi diretor e apresentador da TV Carta Maior.

Todos os companheiros que trabalharam na Carta Maior nestes quase 20 anos de existência sentiram muito o falecimento do professor, como carinhosamente costumávamos chama-lo.

A seguir publicamos alguns links de textos do Chico onde fica definitivamente marcado a sua enorme capacidade de análise política, em especial

Boa leitura

Pois olhem, amig@s:

Desesperado pelas perdas acumuladas, recebi ajuda do próprio Chico de Oliveira. Sem cerimônia, ele entrou pela janela de meu quarto (ou teria sido através da parede, posto que janela estava fechada?) e foi dizendo, com aquela vozinha meio rouca e aflautada que ele tinha:

- E aí, Flavio? Como estão as coisas aqui por Berlim?

Eu, que estava dormindo, respondi, com a voz estremunhada, quase de além túmulo:

- Olha, Chico, não tão ruins como no Brasil, mas aqui as coisas também não vão nada bem. O Salvini e o Steve Bannon cavalgam contra o Papa Francisco, o Macron não sabe o que fazer  e a Merkel treme a cada dia que passa.

- Mas tu não vai desistir agora, não é?

- Chico, desistir?  Alguma vez nós desistimos?

- Sei lá, Flávio. Faz tanto tempo que a gente não se vê. E no Brasil hoje tanta gente desistiu de tanta coisa: da decência, da razão, da inteligência, da espinha dorsal…

- É verdade, Chico. Mas a gente nunca desistiu. Te lembras do tempo do Movimento?

- Claro que lembro! Tu, o Raimundo, o Bernardo, o Murilo, eu, mais aquela turma toda, todo mundo junto… Até o Sergião!!! E a a gente fazia reunião até com o FHC!!!!! E vinha o Alencar Furtado, o Chico Buarque, o Fernando Peixoto, o Hermilo Borba Filho...

- É, e depois veio o tempo da Carta Maior, com o BK, o Palhares, e mais um pacote de guris e gurias bons de luta… A gente se sentia como naquele filme, “Um punhado de bravos”, só que não estávamos cercados pelos índios, mas pela cavalaria americana… quem nem hoje…

- Tu sabe, Flavio, falando do jornal, nem sei o que me encanta mais, se a lembrança daquela luta ombro a ombro, teclado a teclado, ou se a daquela última festa, antes que tudo desandasse na brigalhada do racha divisionista. Te lembra? No meio do salão, nós, a turma toda, dançando xaxado junto, a gente punha algo no meio: a censura, o ministro, o policial, e pisava em cima no compasso do xaxado… Ai que me dói-me o coração só de pensar…

- Calma, Chico, não vai morrer de novo aqui no meu quarto. Não sei se o meu coração aguenta… É, mas eu lembro sim. Depois fomos cada um prum lado. Mas curioso: continuamos no mesmo barco, embora cada um achasse que ele ia pruma direção diferente.

- Daí a gente militou junto na USP, na Boitempo, na Carta, nas quebradas da vida, sempre amigo, isso é que é bonito! Reconhecer a diferença e continuar amigo! Eu me lembro de quando me deste o teu romance Anita preu ler. Aquelas passagens em que o tu falas do Frei Caneca e dos seus filhos, no Recife querido…

- Ô Chico, se continuar assim, eu me derreto e vou m’embora contigo! Porque eu me lembro da última vez em que a gente se viu. Foi lá na USP, tu tava recebendo o título de cidadão paulistano e cantavas o hino de Pernambuco!

- Não, a gente se viu depois, bem depois, lembro que estava frio, nós dois de casaco preto, e na despedida a gente se abraçou.

- Chico companheiro, guardo-te em meu peito e te asseguro, o nosso afastamento passageiro é sinal de um encontro no futuro! É do Iêssienin, o grande poeta russo.

- Segura aí Flavio. Não te apressa em vir para cá. Continua tua faina por aí.

- Pode deixar, Chico, eu juro que tu não vai te envergonhar de mim.

- Bom, tenho de ir. O Paulo Henrique Amorim me espera com uma cachacinha que ele trouxe junto, e o João Gilberto vai fazer o fundo musical… Adeus, Flavio!

- Chico, Adeus!

E puf! Ele se esfumou no ar. E eu… acordei? Ou voltei a ficar dormente neste cotidiano podre em que estamos vivendo?

Sei lá. Era de madrugada. E vi que fora da janela garoava e o Chico me olhava, sorrindo...

Nota do diretor da redação.

Agradeço ao meu querido amigo Flavio Aguiar ter aceitado a incumbência de escrever uma pequena homenagem ao grande companheiro que nos deixou, não teríamos alguém mais indicado para a tarefa.

Chico de Oliveira foi um dos maiores colaboradores da Carta Maior. Seus primeiros textos datam de 2001, ano de fundação  do nosso veículo alternativo.

Seguiram-se dezenas de textos, entrevistas e participações em coberturas jornalísticas que Carta Maior produziu sobre o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, onde além de analisar as principais mesas de debates, tinha um espaço especial na TV Carta Maior, onde era entrevistado, todos os dias, pelo então Diretor da TV Carta Maior, Flavio Aguiar.

As suas participações nas coberturas do Fórum são inesquecíveis, na primeira hora da manhã ele participava da reunião de pauta, que organizava a cobertura diária, juntamente com toda a equiipe de jornalistas e técnicos, onde se destacavam Flavio Aguiar, Bernardo Kucinsky, Emir Sader, Marco Weisheimer, Bia Barbosa, Verena Glass, Antonio Biondi, Marcel Gomes, Maurício Hashizume, Maria Rita Kehl, Marcio Pochmann, Francisco Carlos Teixeira da Silva, Beto Almeida, Eric Nepomuceno, Gilberto Maringoni, Juarez Guimarães, Laurindio Leal filho, Marcos Dantas Loureiro, Reginaldo Nasser, dentre outros que agora a memória me trai.

A reunião na verdade começava com o objetivo exclusivo de organizar a pauta do dia, mas pela qualidade dos participantes se transformava num grande debate político.

Foram grandes momentos, num período da história brasileira onde os sonhos do Chico e de todos nós pareciam que iriam se trransformar em realidade.

O Brasil deve muito a Chico de Oliveira e seu grande livro “ A crítica da razão dualista", de 2012, parece que foi escrito ontem.

Por todos os companheiros da Carta Maior, agradeço a possibilidade que a vida nos deu de conviver com uma pessoa tão admirável. Um dos maiores intelectuais brasileiros e um grande Socialista.

Joaquim Ernesto Palhares

Diretor da Carta Maior

Links:

Chico de Oliveira debate “A crítica da razão dualista” na USP (2012)
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Chico-de-Oliveira-debate-%27A-critica-da-razao-dualista%27-na-USP-/4/26025

A diferença entre a teoria e a prática do neoliberalismo
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia-Politica/A-diferenca-entre-a-teoria-e-a-pratica-do-neoliberalismo/7/15512

A Classe "C" vai ao paraíso!
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-Classe-C-vai-ao-paraiso-/4/15591

Por uma universidade pública
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Idades-da-Vida/Por-uma-universidade-publica/13/15738

Carta Maior lança debate: o Marxismo e o Século XXI
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Carta-Maior-lanca-debate-o-Marxismo-e-o-Seculo-XXI/4/15217

Crise financeira?
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Crise-financeira-/4/15120

Um par implausível: Alca e democracia?
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/x-Sem-editoria/Um-par-implausivel-Alca-e-democracia-/27/887

Bem-vindos ao Deserto de Mumbai: Durkheim e Marx contra Weber
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Movimentos-Sociais/Bem-vindos-ao-Deserto-de-Mumbai-Durkheim-e-Marx-contra-Weber/2/1238

Adeus Porto Alegre 2003, até o ano que vem na Índia!
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/x-Sem-editoria/Adeus-Porto-Alegre-2003-ate-o-ano-que-vem-na-india-/27/634





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