Memória

I Encontro Nacional de Familiares da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

 

09/12/2018 13:11

(Reprodução/Facebook)

Créditos da foto: (Reprodução/Facebook)

 

Nos dias 03 e 04 de dezembro deste ano foi realizado em Brasília o I Encontro Nacional de Familiares promovido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Desse encontro resultou a Carta de Brasília onde reiteramos, entre outras coisas, a necessidade de implementação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade, bem como defendemos, de forma intransigente, a continuidade dos trabalhos em termos plenos e a autonomia da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Sem o trabalho dos que a constituem, sob a presidência da incansável guerreira Dra. Eugênia Augusta Gonzaga, não só este encontro não teria sido realizado como não teríamos tido o reconhecimento dos restos mortais de mais um desaparecido político nem o primeiro caso de retificação de um atestado de óbito, que foi o de meu pai, José Jobim.

No primeiro dia do Encontro recebi, através da Dra. Eugênia, não só a  certidão de óbito atestando que o falecimento se deu “em razão de morte não natural, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição generalizada e sistemática á população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”, mas também, em nome do Estado brasileiro, um pedido formal de desculpas.

São reparações morais a que todos temos direito. Mais do que isso, são reparações morais que temos o DEVER de exigir. Cabe a nós, através da obtenção do reconhecimento oficial do que foi feito a nossos familiares, construir a memória deste país. Nossa obrigação não decorre apenas de laços de afeto com nossos mortos e desaparecidos. Decorre igualmente, e agora mais do que nunca, do compromisso que como cidadãos, temos com a construção de uma nova democracia.

Nessa ocasião ofereci, com as seguintes palavras, a homenagem prestada a meu pai a todos os familiares:

Antes de mais nada gostaria de agradecer à Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, na pessoa de sua presidente Eugênia Gonzaga, o trabalho realizado e que resultou no reconhecimento da verdadeira causa da morte de meu pai, morte esta provocada pelas sevícias que lhe foram impostas por agentes da ditadura militar.

O atestado de óbito que agora recebo passa a integrar a memória deste país, uma memória que muitos teimam em relegar ao esquecimento, mas que aqui estamos para manter viva.

O conhecimento do que se passou durante a ditadura deve ser tornado público impondo-se, para tanto, entre outras medidas, a abertura dos arquivos militares, sem o que a verdade restará sempre incompleta.

A justiça jamais será feita sem uma reinterpretação da Lei de Anistia de 1979, lei que, por contemplar também os agentes de estado responsáveis pelas barbáries cometidas permite que estes permaneçam impunes, que ditadores sejam homenageados com nomes em locais públicos e torturadores sejam louvados como heróis dentro do Congresso Nacional.

Por fim, em nome de meu pai, quero dizer que este momento não pertence apenas à família de José Jobim. Em nosso nome o dedicamos a todos os familiares das vítimas do que era então uma política de Estado,  pois não podemos esquecer que formamos uma única família.

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA.

Lygia Jobim é filha do embaixador José Jobim

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