Memória

João Gilberto e o nacional como metáfora

 

14/07/2019 12:57

 

 

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∴ Leia também: João Gilberto e o passamento como metáfora
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O ciclo nacionalista na cultura e em especial na música brasileira acabou há tempos. Iniciou-se quase junto da Revolução de 1930, foi encampado por Villa Lobos no Ministério da Educação de Getúlio Vargas e pela Rádio Nacional com Ary Barroso. Não morreu com a substituição da Bossa Nova pelo Iê-Iê-Iê no início da ditadura militar, mas estava perto de acabar quando Chico Buarque gravou Bye Bye Brasil para o filme homônimo de Cacá Diegues em 1979.

João Gilberto odiava clichês, mas é difícil não sentir seu passamento como metáfora do enterro de uma época. Não é o último representante da segunda geração do ciclo nacionalista, pois Elza Soares está firme e forte. A terceira geração continua lotando shows na figura de Chico Buarque, Milton, Edu Lobo até mesmo nos tropicalistas baianos. A época é outra, contudo.

Com João Gilberto se foi um Brasil cada vez mais distante; não só no tempo, ainda mais no espírito. É verdade que ele nunca foi uma unanimidade nacional. Para os puristas do samba, ele levava o hibridismo brasileiro longe demais e era um traidor do verdadeiro espírito nacional. Eles desconsideram que João Gilberto não apenas conhecia mais e melhor o cancioneiro brasileiro do que eles, como contribuiu para torná-lo conhecido quando apresentou várias de suas pérolas ao voltar ao Brasil na década de 1980.

Para outros, no lado oposto, João, Vinicius e Tom eram mestiços em excesso: ao invés de repetir a “norma culta” ocidental, a azedavam com a mistura de nossas heranças coloniais e ritmos afro-brasileiros.

Para os primeiros, JG insistia que não cantava bossa-nova e sim samba. E para os esnobes “europeizados” ou “americanizados” de sempre, respondia com “Para que discutir com madame”, redescobrindo uma bela e esquecida música de 1945 como para mostrar que não era um lírico despolitizado:

Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba...
Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça mistura de cor,
Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor...
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno meu Deus que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.

É claro que João Gilberto, como músico, era mais lírico que político. Contudo, Sérgio Ricardo, o compositor de Zelão (1960) e o mais engajado dos compositores da Bossa Nova, diz e confirma que foi João Gilberto que o apresentou a Karl Marx para afastá-lo do espiritualismo e fazê-lo se interessar pelo próximo.

Em um tempo em que o mundo se dividia entre um bloco que idolatrava e outro que tinha pavor de Marx, João Gilberto resolveu se mudar para os Estados Unidos. Como se o cantador fosse tal qual a contradição sonora de seu jeito de tocar, condensando violão, tamborim, surdo e harmonia nas mesmas cordas.

O Brasil de sua época era em parte como ele. Um país que queria ser dono de seu destino, mas que não se fechava ao mundo d´além mar. Exalava a confiança de digerir de modo próprio o que vinha de fora.

Nem autossuficiente nem entreguista, pouco parece com a falta de dignidade do Brasil presente. Ou seu atual presidente, que comemora a independência dos EUA em 04 de julho e dá continência à sua bandeira.

JG se foi quando a nação mais precisa de seu espírito. Faleceu pelos dias em que o presidente JB cogitava nomear um intercambista fritador de hamburguer para nós representar, indignamente, na ilha onde João morou. Na semana em que se passam só seis anos e um mês daquele junho em que o povo parou tudo por 20 centavos, o mesmo povo ouviria a semi-confissão de um embaixador americano que conspirava com a Lava Jato. E, inerte, o povo assistiu bestializado o fim da aposentadoria.

Não é possível voltar no tempo nem na música, a não ser como inspiração. Para reinventar o que já fez muito melhor, no seu próximo ciclo o Brasil precisa de menos JB e muito mais João Gilberto.

Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor Associado de Economia na UNICAMP e músico amador nas horas mais válidas. Um primeiro artigo sobre o passamento de João Gilberto foi publicado pela Carta Maior em 07 de julho de 2019 (http://bit.ly/2JuCnfI). 



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