Memória

Lembrando do nosso amigo e camarada Michael Brooks

Perdemos uma parte insubstituível da família Jacobin nesta segunda (20). Vamos honrar a vida e o legado de Michael Brooks

22/07/2020 13:04

Michael Brooks (1983-2020) teve a chance de conhecer o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva no início deste ano, depois de defender sua libertação da prisão

Créditos da foto: Michael Brooks (1983-2020) teve a chance de conhecer o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva no início deste ano, depois de defender sua libertação da prisão

 
Mal consigo escrever isso, nem dar ao meu amigo o tributo que ele merece. Hoje cedo, recebi a notícia devastadora da morte súbita de Michael Brooks.

Encontrei Michael, pela primeira vez, em 2013, quando a Jacobin estava começando a se por de pé e Michael estava trabalhando no Majority Report [um programa de radio na Internet]. O apresentador do Majority Report, Sam Seder, me disse que ele tinha conhecido Michael no ano anterior. Michael tinha raízes em Nova York, mas passou seus anos de formação no oeste de Massachusetts e estava voltando para a cidade e procurando emprego.

Sam precisava de um produtor, marcaram um encontro Michael em um bar, e foi "imediatamente atingido por sua inteligência e seu senso de humor e decidiu contratá-lo apesar de seu aviso sinistro de que ele 'não era muito bom com detalhes'".

Essa pode não ter sido a melhor característica de um produtor, mas Sam encontrou alguém com um talento especial para comentários e humor. Em pouco tempo, Michael tornou-se uma espécie de co-apresentador no Majority Report, comandando a transmissão na maioria das quintas-feiras.

Foi confuso para mim no início. Eu seria convidado para esse veículo de mídia, que na época eu considerava progressista, mas de uma forma liberal, e teria um anfitrião a me perguntar sobre tudo, desde o Movimento New Jewel de Granada até o declínio do Partido Comunista Sul-Africano e ainda por que o Plano Meidner acabou não funcionando na Suécia.

Não me lembro exatamente como Michael se identificava politicamente na época, mas sei que ele era mais curioso intelectualmente do que a maioria dos socialistas que conheci. Michael era fascinado pelo mundo e pelos movimentos que as pessoas construíram para mudá-lo. Ele tinha fome de cultivar um meio de pessoas que eram politicamente comprometidas e amavam a vida.

Nós saíamos para beber – no início, para tomar cerveja antes de confessarmos um ao outro que nós dois não ligávamos muito para cerveja e preferíamos gim com muitas frutas – e conversar por horas. Em algum momento, eu pediria a ele para fazer algumas das imitações que seus espectadores amavam como o "Mandela de direita" e o "Obama islâmico". Também tenho algumas particulares, com seu excelente sotaque indiano (passei um tempo em 2019 e 2020 tentando ensiná-lo algumas diferenças regionais sutis).

Michael não tinha medo de controvérsias – ele estava feliz em oferecer uma saída aos convidados que criticavam as devoções menos produtivas da esquerda. Mas ele também não era aquele tipo de radialista provocador. Michael consegui "se safar" das controvérsias pelo modo como ele misturou sua comédia com seriedade. Ele realmente se preocupava em melhorar a vida dos trabalhadores, em lutar contra todas as formas de opressão e com a solidariedade internacional. Não havia contradição entre suas críticas ao "reducionismo racial" de esquerda e o fato de ele ter saído do seu caminho para plataformas de esquerdistas negros e pardos novos na cena da mídia.

Sam Seder capturou as habilidades de Michael como artista quando falou comigo hoje cedo:

“Trabalhei com muitos grandes apresentadores e alguns dos comediantes mais talentosos do país, e o que tornava Michael único, não era apenas sua inteligência e visão sobre política, particularmente política externa, mas sua capacidade de fazer um humor político genuinamente brilhante. Preciso de menos de uma mão para contar quantas pessoas encontrei que tinham a habilidade de Michael para criar uma imitação engraçada ou personagem que não era apenas um veículo para sátira política, mas satírico em sua essência. Foi um talento incrível e genuinamente único que tornou divertido, para mim, vir ao trabalho todos os dias.”

Nos últimos anos, a política de Michael mudou para um socialismo mais confiante. Ele nunca perdeu seu humanismo, sua espiritualidade, ou abandonou seus retiros de meditação silenciosa, o que o fez se destacar na paisagem às vezes sem alma do discurso político. Mas ele se casou com o calor que trouxe desses esforços com uma análise acentuada que reconhecia a centralidade da classe e a necessidade de organização. A interação entre essas perspectivas estava por trás de sua visão da esquerda: uma que pudesse falar claramente das aspirações dos trabalhadores, mas sem nunca perder suas ambições maiores de mudar o mundo.

Ramificando-se de seu trabalho em The Majority Report, Michael começou a construir o programa The Michael Brooks Show (TMBS) em 2018. Rapidamente se tornou uma voz importante à esquerda, atingindo quase 130.000 inscritos no YouTube e hospedando luminares como Noam Chomsky, Cornel West e Adolph Reed. O TMBS era uma força radicalizadora para um grande número de jovens que eram justamente desdenhosos do establishment político, mas que apenas começavam a descobrir alternativas. Desta forma, Michael, muito mais do que a Jacobin, estendeu a mão para um público que não veio da esquerda tradicional – mas que logo descobriu que acreditava em seus valores.

Michael e eu começamos a pensar em um canal da Jacobin no YouTube logo após a eleição de Trump, embora nossos planos só começassem a se concretizar no início deste ano. No início, poderia se dizer que havia um incentivo material por trás da parceria para ele. Em 2016, ter um pé em outra plataforma lhe daria alguma independência do já estabelecido Majority Report – por mais que ele amasse Sam e o show. No entanto, em 2020, a TMBS estava crescendo a uma velocidade incrível e ele, pela primeira vez, estava financeiramente seguro e sobrecarregado com o trabalho.

Perguntei-lhe por que ele ainda queria seguir em frente e sua resposta foi simples: ele queria ajudar a construir instituições que durassem. Michael acreditava em aproveitar as habilidades de um grande número de pessoas, em desenvolvê-las como protagonistas para um projeto maior, em vez de depender de um punhado de indivíduos talentosos.

Então, em abril deste ano, lançamos o programa Weekends com sua amiga Ana Kasparian, e estávamos programados para lançar uma transmissão durante a semana chamada The Jacobin Show, que seria apresentada por Michael, mas contando com convidados regulares da equipe da Jacobin e além. Ele esperava treinar seus colegas, como convidados regulares, em uma trupe que poderia assumir o seu lugar dentro de um ano e meio. Também tínhamos planos de construir um estúdio depois que a pandemia terminasse, que oferecesse um espaço tanto para transmissões da TMBS e da Jacobin, quanto para uso de movimentos.

Este sonho de uma comunidade vibrante alimentando a mídia de esquerda era fundamental para o trabalho de Michael. Não porque ele aspirava a ser um "influenciador" com uma grande plataforma individual, mas porque ele sabia o quão importante era construir o tipo de laços sem os quais não se pode ter ação política. Seria fácil atrair consumidores passivos por trás de um "produto", mas muito mais difícil de ajudar a promover mudanças reais.

Victor Serge disse uma vez – em uma linha que discuti recentemente com Michael – que "o único sentido da vida está na participação consciente na construção da história". Agora que ele se foi, isso soa meio inexpressivo. Michael procurou fazer o mundo ao invés de ser feito por ele, isso é verdade, mas lembrarei de mais coisas além de sua política. Lembrarei de alguém que era profundamente humano; alguém que teve um impacto nessas partes da vida que a política nunca resolve completamente. Ele era tudo isso, e ele também era um vencedor ambicioso, alguém que queria enfrentar nossos governantes insensíveis, e ajudar a construir um mundo justo, onde acidentes de nascimento não condenariam milhões à miséria.

Essa perda ainda parece tão surreal. Sentirei falta para sempre do Michael, por sua incrível amizade e sua imitação de Bill Clinton.

*Publicado originalmente em 'Jacobin' | Tradução de César Locatelli

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