Memória

Meu tributo a Alípio Freire

 

25/04/2021 14:19

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
Conheci mais diretamente Alípio Freire quando quis publicar “K.” Uma das editoras que procurei nunca me respondeu, outra levou meses para dar sua resposta, que se mostrou tardia, a terceira disse que o publicaria no final do ano seguinte e desde que houvesse aporte financeiro do editor. Consultei meu amigo Flamarion Maués. Por que você não procura a Expressão Popular? Disse em tom de pergunta. E acrescentou: é uma editora sem fins lucrativos ligada ao MST é pequena mas conta com uma rede de ativistas de boa capilaridade. E com quem eu falo? Perguntei. Fale com o Alípio Freire, é ele o guru da editora. Telefonei ao Alípio numa terça, mandei o manuscrito, numa quarta e na quinta ele me retornou dizendo que ia atropelar a programação do ano que já estava fechada, e publicar. E assim nasceu a primeira edição de “K.” com as belas ilustrações do Ênio Squeff, hoje um objeto de desejo de colecionadores. Depois, o Alípio me diria: quando você telefonou eu já sabia que era um livro sobre o desaparecimento da sua irmã. Minha irmã Ana havia militado na Ala Vermelha, o grupo do Alípio, antes de aderir à ALN. Depois disso nos encontramos várias vezes, a maioria delas nos sábados resistentes. no apartamento espartano do Alípio ou no Memorial da Resistência, e tomei contato com a obra dele. Nosso último encontro se deu pouco antes da pandemia, num lançamento de livro na Livraria Travessa, da Rua Pinheiros. Quero te mostrar um manuscrito que está quase pronto, disse a ele. Vamos combinar, ele respondeu. O manuscrito ficou pronto, mas não deu tempo. Lembrarei sempre de seu porte elegante, de sua fisionomia a Dom Quixote e de sua bengala. Em homenagem a Alípio Freire, posto o conto abaixo, inspirado num incidente acontecido com ele justamente na calçada do Memorial da Resistência. O conto está na antologia “A cicatriz e outras histórias, quase todos os contos de B. Kucinski, que acaba de sair pela Editora Alameda.

A marca do beijo

B. Kucinski (março de 2011)

Quando se deu conta, já havia sido abraçado e beijado. No peito da camisa, a marca despudorada em batom vermelho, a silhueta de lábios voluptuosos. Lembrava uma vagina.

Desde os tempos de universidade, vestia camisas brancas nos dias em que ministrava aulas ou participava de um debate. Eram sua mensagem de simplicidade, como as túnicas brancas de um Gandhi, alguém que é puro espírito.

E agora, o que fazer com daquela nódoa gritante, que ele sentia como uma acusação? Se tentasse limpar, ficaria pior, a camisa toda lambuzada de vermelho. Deixou como estava.

A mulata o surpreendera quase na porta do memorial. Ele chegara antes do início da cerimônia, marcada para as doze, para conversar com os amigos, preparar o espírito, já que participaria da mesa.

Era uma mulata magra e alta, bem maltratada, mas que retinha um quê de dias melhores. Balançava o corpo, gingando entre dengosa e bêbada. Cobria o busto com corpete vermelho desbotado que esmagava metade dos seios e deixava a outra metade à solta. Sua mini-saia de jeans, apertadíssima, estava igualmente puída.

A cracolândia era logo ali, dois quarteirões adiante, adjacente à zona da prostituição. Certamente à noite se prostituía; àquela hora do dia, sem fregueses, esmolava, um tanto descaradamente, não pedia, exigia. Talvez estivesse drogada. Esticou a mão bem à sua frente:

- Me dá um trocado.

Era uma ordem, não uma suplica. A mulata tinha classe. Talvez por isso, ou porque nunca deixava de dar esmola, ele enfiou automaticamente a mão no bolso direito da calça, onde sempre mantinha um suprimento de moedas. Contudo, por causa da cerimônia ele havia trocado também de calça, vestira sua calça bacana de linho - e esquecera das moedas.

Em pânico, enfiou a mão no outro bolso e de lá sacou uma nota qualquer, que a mulata arrancou ligeirinha de sua mão. Arrancou e quando viu que eram vinte reais, tascou - lhe o abraço bem apartado e o beijo na altura do peito. Foi assim que aconteceu. Vinte reais davam para três doses de crack.

Aos amigos da cerimônia não foi difícil explicar o batom, porque eles vinham sempre ao memorial e já haviam topado mais de uma vez com aquela mulata. Mas ele não podia dizer à mulher que deu uma nota de vinte reais de esmola, ainda mais a quem? Se fosse um aleijado, uma mulher com bebê no peito, ainda vá...E se não dissesse, como explicar a marca de batom?

Já havia no casal uma divergência séria por causa da sua mania de sempre dar esmola, não se importando se o pedinte era aleijado de verdade ou um falso aleijado, se era um moço ainda, drogado ou um velho desamparado. O bate - boca começava na esmola e terminava numa lavagem geral e inconclusa de roupa suja, os dois amuados, três a quatro dias sem se falar. Era sempre assim.

Ela até evitava sair com ele. Ao topar com um pedinte, ele compulsivamente ele enfiava a mão no bolso e retirava uma moeda...depois outra. Cada mendigo, lá se ia uma moeda. Não era pelo dinheiro que ela se aborrecia, afinal, não passavam de moedinhas, era pelo princípio. É a revolução que vai resolver isso, ela dizia, categórica.

Revolução, revolução, tudo para ela a revolução ia resolver. Em tese ele até concordava, afinal foram companheiros de militância. Sim, em tese ele concordava. Esmola só em casos excepcionais, para um paraplégico, uma sem teto cheio de filhos. Mas a mulher, mesmo nesses casos, era contra, argumentava, que a sociedade como um todo é que tinha que cuidar deles. Dar esmola é um ato contra- revolucionário, ela insistia.

Na análise, um dos traumas que apareceram foi sua vulnerabilidade diante da miséria do outro. Frente a um pedinte, ele se sentia desarmado, acuado, muitas vezes em pânico, daí o mecanismo de levar consigo um estoque de moedas. Foi a forma encontrada para se safar do pânico. Uma moedinha, e pronto. Afinal o que era para ele uma moedinha, algumas moedinhas? Nada.

Com a ajuda do analista, acabou por entender a origem do trauma. É que ao deparar com um mendigo, sua memória volta ao um passado de carências. Se é mulato, como ocorre o mais das vezes, ele vê nitidamente, como se fosse hoje, o Bento, seu melhor amigo e colega de classe, que saia da casa dele e passava pela sua a caminho da escola, sem lanche. Sua mãe, então fazia dois lanches, um para ele outro para o Bento.

Se o mendigo é um senhor de mais idade, ele vê o tio Freitas, que vivia de bicos no cais do porto. Esse tio era paupérrimo. Morava com família e quatro filhos numa palafita do mangue, lugar feio e fedido. Quando o visitavam, a mãe levava roupas, calçados; no momento da despedida, o pai colocava disfarçadamente algum dinheiro no bolso do irmão.

Tudo isso lhe veio à cabeça, quando entrou no apartamento, a marca de batom ainda na camisa, sem saber o que dizer à mulher, temendo mais uma discussão feroz que começaria com os vinte reais e terminaria numa troca geral de acusações e cobranças e quem sabe o que mais. Ele estava cansado disso tudo. Vinte reais a uma mulher da vida. Isso não tinha explicação, ela não ia entender, poderia até pensar que ...

Eis que a sorte o salvou. A mulher não estava. Ele tinha meia dúzia dessas camisas brancas, mais uma menos uma a mulher não daria pela falta. Trocou rápido de camisa e embrulhou a que havia sido profanada num saco plástico, desceu até a garagem do prédio pela escada para não trombar com a mulher e enfiou o saco plástico no fundo do latão de lixo. Foi o tempo de estar de volta ao apartamento quando a mulher chegou e perguntou como foi a cerimônia. Tudo bem ele falou. E outra vez jurou para si mesmo nunca mais dar esmola. - fim -








Conteúdo Relacionado