Memória

Mina Puccinelli, diretora do jornal 'El León', que usava um sabre e seguiu Garibaldi

 

18/03/2020 12:55

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A figura enigmática do “Seu Protetor” se encarregou de lembrá-la, no primeiro aniversário de sua morte, com um aviso nos jornais de Barcelona e o sufrágio de uma missa na Igreja da Imaculada Conceição. A dedicatória da mensagem publicada dizia: “Para Mina Puccinelli (1840-1882), editora e redatora do jornal republicano federal El León, em Madri”.

Mas o pequeno quadro que ela encontrou nas páginas da imprensa escrita da época ignorou a maior parte de sua biografia: revolucionária, capitã da Companhia dos Voluntários da Morte, que colaboraram com as tropas garibaldianas, membro da Comuna de Paris… Uma mulher com uma vida fascinante muito além do jornalismo, e que rompeu com todos os estereótipos femininos da época.

Seu nome verdadeiro era Wilhelmine Müeller. Nasceu na cidade polonesa de Elbing, no território prussiano, e casou-se em Paris com um tal León Poncellielli, um funcionário militar, em 1862. Se as fontes de informação disponíveis sobre Mina são escassas – embora suficientes para um vislumbre de seu espírito destemido e ousado –, ainda mais limitado são as do seu então marido, que esteve nas fileiras do exército de Giuseppe Garibaldi, um dos arquitetos da unificação da Itália, na guerra franco-prussiana, travada entre 1870 e 1871.

Mina era uma mulher viajante, politicamente ativa, revolucionária. A antítese das mulheres burguesas do século XIX. Vangloriando-se desse personagem, ela apareceu diante de Garibaldi, na cidade francesa de Dijon, “ganhando sua confiança, por sua bravura e severidade, e sendo nomeado capitã da Companhia de Voluntários da Morte, encarregada de recrutar voluntários para as forças internacionais sob o comando do revolucionário italiano que ajudou a República Francesa contra os prussianos”, afirmam pesquisadores do Centro de Estudos Alacant Obrera.

O escritor e jornalista Manuel Ossorio e Bernard dá mais pistas sobre a biografia de Puccinelli em seu livro “Ensaio de um catálogo de jornalistas espanhóis do século XIX”, escrito em 1903: “A amazona italiana que acompanhou Garibaldi em muitas de suas aventuras revolucionárias. Em 1870, vivia em Madri, vestindo um terno masculino e dirigindo o diário El León, um jornal político e satírico universal (e republicano, fundado em dezembro daquele mesmo ano, com Amadeo de Saboya já no trono espanhol)”. A menção de sua aparência é chamativa, assim como a recordação do saber que ela carregava em sua cintura, como pode ser visto na imagem que acompanha este texto”.

Mina foi nomeada integrante honorária do Clube do Congresso Republicano, provavelmente associado à feminista e escritora revolucionária Guillermina Rojas – que também aparece em um dos episódios nacionais de Galdós –, e se tornou uma mulher pública. No entanto, as tensões políticas e sociais que se seguiram na Espanha durante o chamado Sexênio Democrático, aumentaram o assédio policial que essas mulheres tiveram que enfrentar nos atos que organizavam, e obrigaram a revolucionária se mudar a Paris, onde a situação não era mais calma.

A Comuna de Paris

“Todas as mulheres estavam lá. De pé entre nós e o exército, as mulheres tomaram as armas e as metralhadoras, e os soldados permaneceram imóveis. A revolução foi feita”. Essas palavras não são de propriedade de Mina Puccinelli, mas da anarquista Louise Michel, uma das figuras mais representativas da Comuna de Paris (1871). No entanto, a garibaldina e jornalista também lutou nas barricadas contra as tropas do governo enviadas de Versalhes.

Se supõe que ela chegou à capital francesa após uma breve estadia em Dijon, onde retornaria para comandar os seus Voluntários da Morte, cerca de cem voluntários franco-espanhóis encarregados de coletar alimentos e fundos para a batalha. Em um dos últimos confrontos, Puccinelli foi ferida e transferida para Bordeaux, onde se juntaria à Internacional Comunista. Antes de seguir a Paris, ela passou um tempo em Lyon, onde, segundo o obituário dedicado a ela pelo jornal La Petite Presse, tentou formar um batalhão composto exclusivamente por mulheres.

Após a claudicação da Comuna, Mina se exilou na Suíça, mas sem enterrar suas atividades revolucionárias: continuou dando conferências, nas quais não permitia a entrada de homens, e incentivava as mulheres a ingressar na Internacional. Essas atividades levantaram suspeitas da polícia local, como observado neste relatório policial: “Madame Pucinelli dá a impressão de ser uma comuneira de primeira classe… Essa mulher é perigosa, e tenho certeza que, se continuar com suas palestras, enganará todos os trabalhadores em nossa pequena cidade”.

Nesse contexto, Puccinelli foi forçada a deixar o cenário revolucionário europeu e retornar à Espanha, como refugiada política. Nada disso diminuiu sua força e a defesa dos ideais comunais. Durante sua estadia em Mallorca, em julho de 1872, as páginas do jornal El Iris del Pueblo a definiram como uma “heroína da democracia cidadã universal”.

Ela também recebeu a medalha de “campeão da democracia”, durante essa viagem, na qual foi acompanhada pela republicana de Zaragoza, Modesta Periu. Mina influenciou as sufragistas da região, como Magdalena Bonet. Todas elas pediram mobilização das mulheres, inclusive na luta armada, buscando demonstrar que as mulheres não estavam isentas de virtudes como coragem ou amor ao país.

A última etapa

A partir de então, a trilha de Mina começa a desaparecer: no obituário do jornal francês já mencionado, ela teria participado da revolta em Valência, em 1873, onde foi ferida na cabeça pela explosão de um obus. Também foi perseguida pela polícia na Espanha, e deportada a Londres. Retornou a Madri anos depois, e em seguida foi a Barcelona.

Na cidade catalã, em meados de 1877, de acordo com os pesquisadores de Alacant Obrera, “parece que ela viveu da mendicância, e perdeu a razão, pois a imprensa alegou que se machucou gravemente ao cortar a própria barriga com uma faca, pois alegava estar grávida de 7 crianças, embora os ferimentos não tenham sido graves, e ela tenha recebido alta alguns dias depois”. A morte do marido ocorreu no ano seguinte, e ela sobreviveria até 1882, em total anonimato. Um contraste absoluto com a vida de luta que teve.

Apesar de seu ativismo, não são encontradas referências nos discursos de Mina Puccinelli sobre a emancipação feminina. “Nós poderíamos classificá-la como uma mulher de ação, uma guerrilha que, no calor do combate em que ela, exceção entre as mulheres, atuava como os homens, o que não evidenciou a condição de gênero. A sua se tornaria uma libertação pessoal, a partir do momento em que exerce livremente sua vocação política, vestida como queria, mantendo o nome de madrinha, mesmo estando casada, e viajando com liberdade”, resume a historiadora Isabel Peñarrubia. Seus outros muitos méritos, como dirigir um jornal republicano sendo uma exilada, não podem ser menosprezados.

*Publicado originalmente em 'El Español' | Tradução de Victor Farinelli

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