Memória

Morre Hilda Hilst

Morre Hilda Hilst, aos 73 anos, e com a escritora paulista morre muito da poesia e da prosa brasileira contemporânea. Poucas como ela tão incisivamente criativas e extremamente diferenciada, tão corajosamente renovadora da ficção

04/02/2004 00:00

(Fernando Lemos)

Créditos da foto: (Fernando Lemos)

 

Hilda Hilst, quando abre a boca...
Taxada desde sempre de “maldita”, “pornográfica”, “escandalosa”, Hilda Hilst foi, no entanto, uma das mais talentosas escritoras brasileiras. Numa avaliação a sério, a crítica especializada já sentenciara: “a poesia de Hilda desenha um arco de coerência e inspiração sem igual em qualquer outro autor vivo no Brasil.”

Poeta e ficcionista , ela dizia-se "megalomaníaca" ao classificar sua própria obra, como prova a estrofe colhida ao acaso em Da morte: "Porque conheço dos humanos/ Cara, Crueza/ Te batizo Ventura/ Rosto de Ninguém/ Morte-Ventura/ Quando é que vem?".

Hilda nunca saía do sítio, próximo de Campinas, onde se recolhera, há tempos, qualquer que fosse o tipo de evento a que fosse convidada - nem mesmo recentemente, quando dos lançamentos de seus novos livro pela Nankin Editorial , ou "quase novos", já que os textos não são rigorosamente inéditos. Aliás, ela afirmava não estar escrevendo há muito tempo seu último livro rigorosamente novo fora Estar sendo. Ter sido, de 1997. As obras reeditadas pela Nankin, em 2003, são Da morte. Odes mínimas (de 1980), poemas quase sem circulação anterior e reeditados a de forma bilíngue (português e francês), com distribuição na França e Canadá; e Cascos e carícias, seleção de crônicas publicadas no jornal Correio Popular, de Campinas, entre 1992 e 1995.]

Como toda - toda, sem exceção - obra de Hilda, as crônicas de Cascos e carícias causaram bastante escândalo junto a seus primeiros leitores, e continuam a causar. Nelas, Hilda exercita mais do que nunca sua veia de provocadora profissional ,utilizando ao máximo o sarcasmo, o escracho, a blasfêmia, numa construção narrativa de elaboração perfeita.

Megalomania: Ninguém me leu, mas eu fui até o fim, fiz o trabalho. A gente tem de acreditar em si mesma. Eu sei que sou o maior poeta do país, não tem importância me chamarem de megalômana. Escrevi de um jeito que ninguém escreveu. Foi a única coisa que eu soube fazer na vida.

Honrarias: Me convidam, mas eu não vou a feiras de livros, nunca, nenhuma , eu não aguento. A gente envelhece e as coisas ficam desimportantes. Honrarias... tudo uma besteira.

Ânus intelectual: ‘Quelle époque, mon Dieu‘, me disse o cara da Gallimard, ‘Quase ninguém compra a Hilda Hilst, e todo mundo compra o Paulo Coelho.‘ Pois é, ninguém lê mais, nem os franceses. Disseram que ‘A Senhora D‘ ficaria difícil demais em francês. Eu respondi que em copta também ficaria, em sânscrito... A Gallimard escreveu que eu transformava pornografia em arte. Aí ninguém leu mesmo.

Livro grosso: Precisa ter humor para escrever. Eu escrevi demais na minha vida, tentei tudo para ser lida. Diziam que Ficções era grosso demais e Com Meus Olhos de Cão também. Parece que americano é que gosta de livro grosso, porque não cai da estante.

Bordel geriátrico: Eu falei várias vezes para a Lygia Fagundes Telles que eu queria fazer um bordel geriátrico aqui, chamando também a Nélida Piñon. É uma coisa bem inventiva, porque tem tara para tudo. Eu ficaria no caixa, com as luvas longas, e a Lygia trabalharia. Mas ela ficou zangada comigo. O Caio Fernando Abreu, que morou aqui, criou um slogan: ‘Venham conhecer Hilda, a fera de Buchenwald; tragam sus hijos a la sexualidad y amor de Nélida Piñon‘.

Sua obra abriga poesia : Presságio , 1950; Balada de Alzira , 1951; Balada do festival, 1955; Roteiro do Silêncio, 1959 ; Trovas de muito amor para um amado senhor, 1959 ; Ode Fragmentária , 1961 ; Sete cantos do poeta para o anjo , 1962 ; Poesia (1959/1967), 1967 ; Júbilo, memória, noviciado da paixão, 1974 ; Poesia (1959/1979) , 1980 ; Da Morte. Odes mínimas (edição bilíngüe), 1998 ; Cantares de perda e predileção, 1980 ; Poemas malditos, gozosos e devotos , 1984 ; Sobre a tua grande face , 1986 ; Alcoólicas , 1990 ; Amavisse , 1989 ; Bufólicas , 1992 ; Do Desejo , 1992 ;Cantares do Sem Nome e de Partidas ,1995;Do Amor ,1999 — prosa : Fluxo - Floema , 1970; Qadós , 1973; Ficções , 1977;Tu não te moves de ti, 1980 ; A obscena senhora D , 1982 ; Com meus olhos de cão e outras novelas , 1986 ; O Caderno Rosa de Lory Lambi, 1990 ;Contos D‘Escárnio/Textos Grotescos , 1990 ; Cartas de um sedutor, 1991; Rútilo Nada , 1993;Estar Sendo Ter Sido , 1997; Cascos e Carícias - crônicas reunidas, 1998 — teatro (inédito) :A Possessa ,1967; O rato no muro,1967 ; O visitante ,1968 ; Auto da Barca de Camiri ,1968 ; O novo sistema ,1968 ; Aves da Noite 1968 ; O verdugo , 1969 ;A morte de patriarca ,1969.

Mas ela ficará...
Dela, aos leitores:

Poemas aos Homens do nosso Tempo

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.
( in Júbilo memória noviciado da paixão )

(...)

Bombas limpas, disseram? E tu sorris
E eu também. E já nos vemos mortos
Um verniz sobre o corpo, limpos, estáticos,
Mais mortos do que limpos, exato
Nosso corpo de vidro, rígido
À mercê dos teus atos, homem político.
Bombas limpas sobre a carne antiga.
Vitral esplendente e agudo sobre a tarde.
E nós na tarde repensamos mudos
A limpeza fatal sobre nossas cabeças
E tua sábia eloqüência, homens-hienas
Dirigentes do mundo.

(...)

Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.
As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu
Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.
( in Júbilo memória noviciado da paixão )

Desejo
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(.....)
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
(in Do desejo)


Uma crônica,

O caderno rosa de Lori Lamby
(...)
Papi não está mais triste não, ele está é diferente, acho que é porque ele está escrevendo a tal bananeira, quero dizer a bandalheira que o Lalau quer. Eu tenho que continuar a minha história e vou pedir depois pro tio Lalau se ele não quer pôr o meu caderno na máquina dele, pra ficar livro mesmo. Eu contei pro papi que gosto muito de ser lambida, mas parece que ele nem me escutou, e se eu pudesse eu ficava muito tempo na minha caminha com as pernas abertas mas parece que não pode porque faz mal, e porque tem isso da hora. É só uma hora, quando é mais, a gente ganha mais dinheiro, mas não é todo mundo que tem tanto dinheiro assim pra lamber. O moço falou que quando ele voltar vai trazer umas meias furadinhas pretas pra eu botar. Eu pedi pra ele trazer meias cor-de-rosa porque eu gosto muito de cor-de-rosa e se ele trazer eu disse que vou lamber o piupiu dele bastante tempo, mesmo sem chocolate. Ele disse que eu era uma putinha muito linda. Ele quis também que eu voltasse pra cama outra vez, mas já tinha passado uma hora e tem uma campainha quando a gente fica mais de uma hora no quarto. Aí ele só pediu pra dar um beijo no meu buraquinho lá atrás, eu deixei, ele pôs a língua no meu buraquinho e eu não queria que ele tirasse a língua, mas a campainha tocou de novo. E depois quando ele saiu, eu ouvi uma briga, mas ele disse que ia pagar de um jeito bom, ele usou uma palavra que eu depois perguntei pra mamãe e mami disse que essa palavra que eu perguntei é regiamente. Então regiamente, ele disse. Eu ouvi mami dizer que esse verão bem que a gente podia ir pra praia, mas eu fico triste porque não vamos ter as pessoas pra eu chupar como sorvete e me lamber como gato se lambe. Por que será que ninguém descobriu pra todo mundo ser lambido e todo mundo ia ficar com dinheiro pra comprar tudo o que eu vejo, e todos também iam comprar tudo, porque todo mundo só pensa em comprar tudo. Os meus amiguinhos lá da escola falam sempre dos papi e das mami deles que foram fazer compras, e eu então acho que eles são lambidos todo dia. É mais gostoso ser lambido que lamber, aquele dia que eu lambi o piupiu de chocolate do homem foi gostoso mas acho que é porque tinha chocolate. Sem chocolate eu ainda não lambi ele.
(in O caderno rosa de Lori Lamby)

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