Memória

Não foi nada pessoal...

Lamento que nem todos tenham noção clara do que seja um golpe. Lamento que nem todos tenham noção clara do que seja uma ditadura

29/03/2019 18:20

(Marcelo Carnaval/Agência O Globo)

Créditos da foto: (Marcelo Carnaval/Agência O Globo)

 
Ao povo paraguaio e ao povo chileno, em nome da imensa maioria dos brasileiros que não votaram em Bolsonaro, nossos mais sinceros pedidos de desculpas.

Nós sabemos: Strossner não foi um estadista – foi um monstro. O elogio público feito ao ditador que durante anos governou com mão de ferro o Paraguai é uma afronta a todos aqueles que sofreram nos calabouços de suas masmorras. Igualmente afronta e fere aos familiares dos mesmos.

Para ofender o Chile, preferiu falar através de seu chefe da Casa Civil, Sr. Onyx Lorenzoni, celebrando o banho de sangue, comandado por Pinochet, que encharcou o solo de seu país com a vida de milhares de chilenos. Seus familiares são vítimas até hoje do sofrimento provocado por esta barbárie.

Mas estejam certos de que não é nada pessoal. Claro que não diminui a ofensa que lhes foi feita, porém este Sr. Bolsonaro resolveu agora ofender a História de nosso próprio país.

Ao determinar que a data de 31 de março, véspera do dia em que o golpe de 1964 completa 55 anos, seja comemorada em todo o país o capitão desta nau à deriva afirma que não houve golpe. Ou pelo menos assim afirmou seu porta-voz: ''O presidente não considera 31 de março de 1964 um golpe militar. Ele considera que a sociedade, reunida e percebendo o perigo que o país estava vivenciando naquele momento, juntaram-se, civis e militares, e nós conseguimos recuperar e recolocar o nosso país em um rumo que, salvo o melhor juízo, se isso não tivesse ocorrido, hoje nós estaríamos tendo algum tipo de governo aqui que não seria bom para ninguém''.

Deixando de lado a construção mambembe da declaração, há um ponto que, por me ter sido dado a oportunidade de manifestar o meu juízo, não deixarei de fazê-lo.

Salvo melhor juízo quando tanques cercam o Congresso e a vacância da Presidência é declarada com o Presidente legítimo em solo brasileiro, isto é golpe.

Salvo melhor juízo quando treze dias depois o Presidente da Câmara, que como tal ocupava a presidência da república, é afastado para que, em eleições indiretas, fosse eleito o primeiro militar de uma série de cinco generais, isto é golpe.

Salvo melhor juízo, quando parlamentares são cassados, o parlamento é fechado e por mais de uma vez, isto é uma ditadura.

Salvo melhor juízo, quando opositores ao golpe são presos e torturados, quando pessoas são sequestradas por agentes da repressão, isto é uma ditadura.

Salvo melhor juízo, quando depois de presos desaparecem e seus corpos são jogados no mar, enterrados em valas comuns, sem identificação, ou suas mãos e cabeças são decepadas para impedir a identificação, isto é uma ditadura.

Salvo melhor juízo, quando crianças são levadas para assistir à tortura dos pais, isto é uma ditadura.

Salvo melhor juízo, quando a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e liberdade de associação deixam de existir, isto é uma ditadura.

Lamento que nem todos tenham noção clara do que seja um golpe. Lamento que nem todos tenham noção clara do que seja uma ditadura. Isto não é uma questão de posicionamento político ou ideológico. É questão de leitura, são conceitos políticos universais.

Para finalizar, sempre em nome dos que não votaram no capitão, eu gostaria de agradecer as manifestações de repúdio às suas falas grosseiras e desumanas.

Valeu Paraguai! Valeu Chile! Continuem a nos confortar! Como puderam ver, não foi nada pessoal...

*É sempre bom lembrar que o capitão não foi eleito pela maioria do povo brasileiro; apenas pela maioria dos votos válidos, sem contar os brancos, nulos e abstenções. Somados estes aos votos em Fernando Haddad o capitão estaria de chinelo e camiseta pirata em sua casa – de onde nunca, aliás, deveria ter saído.

Lygia Jobim é advogada e jornalista. Participa da Plenária Memória, Verdade e Justiça cujo objetivo é não deixar a memória da ditadura se apagar e que denuncia a violência do passado e do presente. Foi presidente do Conselho da Associação Brasileira de Imprensa/ABI.






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