Memória

O sangue que nos une

A cooperação prestada pelo Brasil e a ajuda que este recebeu dos países vizinhos na Operação Condor jamais foi aqui admitida oficialmente

24/04/2019 09:35

 

 
Não poderia haver nome mais apropriado para o terror coordenado que se instalou no Cone Sul, durante o período das ditaduras militares da segunda metade do século passado, do que Operação Condor. A grande ave negra que sobrevoa em círculos a região é pressentida em terra por suas presas antes que sua sombra apareça, gerando o medo que se dissemina. Grandes ou pequenos, voadores ou rastejantes, todos se escondem diante do pavor das garras que não perdoam.

A cooperação prestada pelo Brasil e a ajuda que este recebeu dos países vizinhos na Operação Condor jamais foi aqui admitida oficialmente, tornando-se uma das muitas verdades escamoteadas com as quais alguns pretendem construir a história do país.

A Operação, tinha por finalidade coordenar as forças armadas sul-americanas para o combate ao comunismo, teve seu ovo fertilizado em agosto de 1975, no Uruguai, onde se reuniram militares de quinze países com o objetivo de preparar a 11ª. Conferência dos Exércitos Americanos. Representando o Brasil, o General Fritz Azevedo Manso, chefe do estado Maior do Exército. Os demais países eram também representados por militares de elevada patente, ocupando altos cargos. Foi exposta e aceita a necessidade de que houvesse uma colaboração efetiva entre os exércitos para o combate ao comunismo.

O nascimento se deu em reunião de países do Cone Sul, realizada em 25 novembro de 1975, em Santiago do Chile, e o Brasil lá estava representado por dois veteranos do combate à guerrilha do Araguaia: o Coronel Flávio de Marco e o Major Thaumaturgo Sotero Vaz. Citar estes nomes, escolhidos pessoalmente pelo Presidente Geisel e seu chefe do SNI, General Figueiredo, é importante, pois foi o conhecimento que ambos os indicados tinham de arrancar confissões sob tortura, assassinar e desaparecer com corpos, que fez com que o Brasil assumisse um lugar de destaque na Operação, atuando como um experiente professor, pronto a tudo ensinar aos ainda não tão experientes vizinhos.

Nosso país funcionava como um centro de treinamento. Por aqui passaram centenas de oficiais do Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina que recebiam o treinamento especializado em tortura que nos havia sido ensinado por oficiais americanos na Escola das Américas, no Panamá.

A repressão brasileira fora de nossas fronteiras tinha, como braços operantes, os adidos militares e diplomatas pertencentes ao CIEx, criado pelo Embaixador, e ex-oficial da cavalaria, Manoel Pio Correa. Este jamais fez segredo de suas ligações com a CIA, para quem trabalhou. Com o CIEx operavam o CENIMAR, CISA, CIE e SNI. Quando necessário a iniciativa privada financiava operações específicas, como as que envolviam Itaipu no eixo repressivo Brasil/Paraguai. Também quando necessário o Sr. Delfim Netto pedia esmolas à FIESP que, prontamente, supria as necessidades da repressão.

Com a entrega recente de documentos oficiais americanos sobre a ditadura argentina àquele país foi revelado, em detalhes, como funcionava a organização que tinha sua sede em Buenos Aires. Ali tomamos conhecimento de que os nomes das vítimas sugeridas eram submetidos a votação para aprovação por maioria e de que os executores recebiam, além de diárias e ajuda de custo quando o deslocamento se fazia necessário, a importância de US$ 3.500,00 a título de pagamento pelo serviço prestado. Estes custos eram rateados entre os membros da Operação Teseo, verdadeiro nome do grupo, sendo Condor seu nome fantasia.

A Operação Condor eliminou os limites nacionais, as fronteiras se tornaram permeáveis, criando-se um só território - o do terror. O sangue do continente se misturou. Não podemos deixar que isto se apague no esquecimento. Não podemos deixar que se perca a memória do sangue que nos une.



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