Memória

Os 30 anos da morte de Kojak

Em episódio da luta da administração democrática popular em Santos contra o barão da catraca local, funcionário da companhia pública, agredido, sofreu traumatismo craniano fatal. Velório e enterro comoveram a cidade. Até Lula, então candidato a presidente, participou

27/08/2019 16:21

Reprodução de capa do D.O. Urgente, o Diário Oficial de Santos

Créditos da foto: Reprodução de capa do D.O. Urgente, o Diário Oficial de Santos

 
Agosto de 1989. Àquela época, repercutia em todo o Brasil um dos raros casos, em toda história, em que o poder público enfrentou o poder dos chamados “barões das catracas” - o empresariado de ônibus que comanda o transporte público nas cidades e regiões metropolitanas. Era o caso de Santos.

Meses antes, mais precisamente em março de 1989, a então prefeita do município, Telma de Souza (PT), decretara intervenção na Viação Santos-São Vicente, empresa privada que dividia com a Companhia Santista de Transporte Coletivo (CSTC), pública, a operação das linhas municipais. Uma paralisação nos serviços da Viação, que pressionava por reajuste na tarifa, motivou a intervenção.

Os 134 ônibus da empresa privada (que representavam praticamente metade da frota total do sistema) foi encampada e a garagem, no bairro Macuco, desapropriada. Evidentemente, o grupo privado recorreu à Justiça e, entre liminares e recursos que se sucedem em lutas assim, veio, em agosto, decisão de reintegração de posse em favor da Viação Santos-São Vicente.

Na manhã de 23 de agosto daquele ano, na garagem Macuco, estavam funcionários e dirigentes da CSTC e da Viação, além de seguranças da empresa privada, quando um oficial de Justiça chegou com a notificação da reintegração de posse. Houve discussão, confusão, e Anésio Pimenta dos Reis, da CSTC, foi empurrado por integrantes da Viação; caiu, bateu forte a cabeça. Levado ao pronto-socorro, teve constatado traumatismo craniano. Depois de dois dias internados, não resistiu. Morreu.

A morte de Anésio Pimenta dos Reis, o Kojak, comoveu Santos. O velório, no Palácio José Bonifácio, sede da Prefeitura, e o enterro, no Cemitério da Areia Branca, zona noroeste da cidade, mobilizaram milhares de pessoas. Diversas lideranças políticas e sociais prestaram homenagens ao trabalhador, entre elas Luiz Inácio Lula da Silva, que disputava a eleição presidencial àquela altura, e interrompera a agenda de campanha para acompanhar o cortejo.

Notícias da época informam que o inquérito policial não considerou como proposital o empurrão que fez com que Kojak caísse e batesse a cabeça. Os colegas de trabalho e a administração municipal da época discordaram do resultado das investigações. A avaliação era de que os representantes da Viação agiram com violência. O trabalhador da CSTC tinha sido vítima dessa violência, fatal.

Completaram-se, pois, 30 anos da morte de Kojak, no último 25 de agosto.

O fato precisa de ser relembrado. Em respeito à memória de Anésio Pimenta dos Reis; em homenagem à sua dedicação à luta por uma cidade que deixasse de ser refém dos interesses particulares de uma viação.

Kojak estava com apenas 50 anos. Tinha muito ainda para contribuir com a luta. Se fisicamente não pode mais, o faz pela sua história.



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